A morte de Stalin e a disputa de poder

Josef Stalin morreu em 5 de março de 1953, após um derrame cerebral sofrido dias antes em sua dacha em Kuntsevo

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Josef Stalin morreu às 21h50 de 5 de março de 1953, aos 74 anos, quatro dias depois de sofrer um derrame cerebral em sua residência de Kuntsevo, nos arredores de Moscou. A causa oficial foi hemorragia cerebral, confirmada por autópsia, que também revelou arteriosclerose avançada. Seu funeral, realizado em 9 de março na Praça Vermelha, reuniu multidões tão densas que resultou em mortes por esmagamento, um episódio que o governo soviético manteve em silêncio por décadas. A sucessão política que se abriu naquele momento opôs Lavrenti Béria, Gueorgui Malenkov e Nikita Khrushchev em uma disputa que redefiniria o rumo da União Soviética.

Nos últimos anos de vida, Stalin governava de forma cada vez mais isolada, cercado por um círculo restrito de colaboradores que temiam contrariá-lo. Ele vivia principalmente na dacha de Kuntsevo, uma residência fortificada a poucos quilômetros do centro de Moscou, onde recebia ministros em jantares noturnos que se estendiam até a madrugada. Esse isolamento físico e psicológico teve consequência direta na demora em socorrê-lo quando o mal súbito o atingiu, como historiadores como Simon Sebag Montefiore documentaram em detalhe.

O contexto político da época agravou a lentidão da resposta médica. Meses antes, Stalin havia deflagrado a chamada “Trama dos Médicos”, uma campanha que acusava falsamente um grupo de médicos, em sua maioria judeus, de conspirar para assassinar líderes soviéticos. Esse clima de suspeita fez com que muitos profissionais de saúde de confiança estivessem presos ou afastados justamente quando o próprio Stalin precisou de socorro urgente, uma ironia histórica amplamente registrada por pesquisadores do período.

As últimas horas de Stalin na dacha de Kuntsevo

Na noite de 28 de fevereiro para 1º de março de 1953, Stalin jantou com Béria, Malenkov, Khrushchev e Nikolai Bulganin, um encontro que se estendeu até por volta das quatro da madrugada, segundo relatos posteriores desses próprios dirigentes. Depois que os convidados saíram, Stalin dispensou os guardas e foi dormir, rompendo sua rotina habitual de solicitar chá antes de se recolher. Durante todo o dia 1º de março, nenhum sinal de movimento veio de seus aposentos, mas os guardas, treinados a nunca entrar sem ordem expressa, não ousaram verificar seu estado.

Somente por volta das 22h30 daquele dia um guarda, Piotr Lozgachev, criou coragem para entrar sob o pretexto de levar correspondência. Encontrou Stalin caído no chão, consciente, mas incapaz de falar com clareza, vestindo pijama molhado de urina. Mesmo assim, os dirigentes do partido, avisados do ocorrido, demoraram horas para autorizar a chamada de médicos, temendo agir sem consenso coletivo em um sistema em que qualquer decisão isolada podia ser fatal para quem a tomasse.

Os primeiros médicos só examinaram Stalin na manhã de 2 de março, mais de doze horas após o colapso ter sido descoberto. Diagnosticaram hemorragia cerebral no hemisfério esquerdo, com paralisia do lado direito do corpo. Ao longo dos três dias seguintes, sua condição se deteriorou de forma irreversível, com episódios de vômito de sangue e dificuldade respiratória crescente. Stalin morreu na noite de 5 de março, cercado por Béria, Malenkov, Khrushchev e outros membros do Presidium, segundo o relato da própria filha, Svetlana Alliluyeva, presente no quarto.

A disputa pelo poder entre os dirigentes soviéticos

A morte de Stalin não deixou um sucessor definido, e a liderança soviética adotou de imediato o discurso de “direção coletiva” para evitar a aparência de disputa aberta. Gueorgui Malenkov assumiu a presidência do Conselho de Ministros, cargo equivalente ao de chefe de governo, enquanto Lavrenti Béria consolidava controle sobre o Ministério do Interior, que reunia a polícia secreta e o aparato de repressão. Nikita Khrushchev, por sua vez, ocupava posição de destaque no Secretariado do Partido Comunista, estrutura que se revelaria decisiva para acumular poder nos meses seguintes.

Béria representava a maior ameaça aos demais dirigentes por controlar diretamente os órgãos de segurança que haviam sustentado o terror stalinista. Paradoxalmente, ele promoveu nas semanas seguintes à morte de Stalin uma série de medidas de abertura, incluindo anistia a milhares de prisioneiros e o encerramento formal da Trama dos Médicos, atribuída publicamente a métodos ilegais de investigação. Historiadores como Amy Knight interpretam essas ações como tentativa de Béria de conquistar legitimidade popular antes de assumir controle total do Estado.

A ascensão e queda de Lavrenti Béria

Temendo que Béria usasse a polícia secreta para eliminá-los, Khrushchev articulou uma aliança com Malenkov e outros membros do Presidium para depô-lo. Em 26 de junho de 1953, Béria foi preso durante uma reunião do Presidium, em uma operação que envolveu inclusive oficiais militares levados secretamente ao Kremlin, entre eles o marechal Gueorgui Jukov. Julgado em sigilo por acusações que incluíam traição e espionagem, Béria foi executado em 23 de dezembro de 1953. A eliminação de Béria abriu caminho para que Khrushchev consolidasse poder ao longo dos dois anos seguintes, superando Malenkov e emergindo como líder soviético em 1955.

O funeral de Stalin e sua representação em livros e filmes

O funeral de Stalin ocorreu em 9 de março de 1953, com o corpo embalsamado exposto na Casa dos Sindicatos, em Moscou, antes de ser transferido para o Mausoléu de Lenin, na Praça Vermelha, onde ficaria ao lado do fundador do Estado soviético até 1961. Centenas de milhares de pessoas tentaram se aproximar do centro de Moscou para prestar homenagens, gerando um congestionamento humano descontrolado nas ruas próximas. Relatos de testemunhas e pesquisas posteriores, como as reunidas pelo historiador Nikita Petrov, indicam que dezenas de pessoas morreram esmagadas ou pisoteadas na multidão, embora o número exato permaneça incerto pela falta de registros oficiais divulgados na época.

Em 1961, durante o processo de desestalinização promovido por Khrushchev, o corpo de Stalin foi retirado do Mausoléu e sepultado junto ao muro do Kremlin, decisão justificada oficialmente por “violações graves aos preceitos de Lenin”. Esse episódio de dessacralização simbólica marcou o fim de uma era e alimentou décadas de produção historiográfica e artística sobre o período.

A morte e o funeral de Stalin inspiraram obras relevantes tanto na literatura histórica quanto na ficção. O livro “Stalin: A Corte do Czar Vermelho”, do historiador britânico Simon Sebag Montefiore, publicado em 2003, reconstrói com detalhe os bastidores do poder soviético nesses dias. Já a história em quadrinhos francesa “La Mort de Staline”, de Fabien Nury e Thierry Robin, lançada em 2010 e 2012, retrata a disputa entre os dirigentes com tom satírico. Essa obra serviu de base para o filme “A Morte de Stalin” (2017), dirigido por Armando Iannucci, uma comédia de humor negro que dramatiza a confusão e o oportunismo político nos dias seguintes à morte do ditador.

Uma curiosidade histórica pouco conhecida envolve o próprio corpo de Stalin: durante o embalsamamento, os médicos removeram parte do cérebro para estudo, e fatias dele permanecem preservadas até hoje no Instituto do Cérebro de Moscou, instituição criada nos anos 1920 para pesquisar tecido cerebral de figuras soviéticas de destaque, incluindo o próprio Lenin.

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