O café chegou ao Brasil em 1727, trazido pelo sargento-mor Francisco de Melo Palheta a partir da Guiana Francesa, colônia vizinha administrada pela França na costa norte da América do Sul. As primeiras sementes foram plantadas em Belém, no atual estado do Pará, região que não oferecia condições climáticas ideais para expansão comercial da cultura. A planta se espalhou lentamente pelo litoral brasileiro ao longo do século XVIII, chegando ao Rio de Janeiro por volta de 1760, onde encontrou condições mais favoráveis nas encostas da serra fluminense. Esse deslocamento inicial, do norte tropical para o sudeste, definiu a rota que décadas depois transformaria o café no principal produto de exportação do país.
A expansão comercial do café começou de fato no Vale do Paraíba, região que abrange partes dos atuais estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, a partir das últimas décadas do século XVIII. O historiador Warren Dean, autor de estudos sobre a economia agrária brasileira, descreve como fazendeiros dessa região adaptaram técnicas de cultivo em terrenos montanhosos, usando mão de obra escravizada em larga escala até a abolição, ocorrida em 1888. Entre 1830 e 1840, o café já correspondia a mais da metade das exportações brasileiras, superando o açúcar, produto que havia dominado a economia colonial desde o século XVI. Essa mudança consolidou o eixo econômico do país no Sudeste, deslocando o centro de gravidade político, que antes gravitava em torno do Nordeste açucareiro.
O esgotamento dos solos do Vale do Paraíba, causado por décadas de cultivo intensivo sem técnicas de conservação, levou produtores a buscar novas áreas a partir da segunda metade do século XIX. O oeste paulista, região que inclui cidades como Campinas, Ribeirão Preto e posteriormente áreas ao redor de Franca, ofereceu solo de terra roxa, mais fértil para o cultivo do café, e recebeu forte investimento em ferrovias a partir da década de 1870. Fazendeiros paulistas, muitos deles ligados a famílias como os Prado e os Silva Prado, financiaram a construção de linhas férreas que ligavam as lavouras ao porto de Santos, no litoral paulista, viabilizando o escoamento em escala industrial.
São Paulo e Minas Gerais como potências cafeeiras
São Paulo se consolidou como maior produtor nacional de café a partir de 1880, ultrapassando o Rio de Janeiro em volume exportado, segundo dados compilados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o período. A chegada de imigrantes europeus, principalmente italianos, a partir de 1880 e intensificada após a Lei Áurea de 1888, supriu a demanda por mão de obra nas fazendas paulistas, substituindo gradualmente o trabalho escravizado. O historiador Thomas Holloway, especialista em imigração para o Brasil, documenta que o sistema de colonato, no qual famílias imigrantes recebiam moradia e pagamento por produção, tornou-se o modelo predominante nas lavouras paulistas entre 1890 e 1930. Esse modelo diferia do trabalho escravizado predominante décadas antes no Vale do Paraíba e permitiu expansão mais rápida das áreas cultivadas.
Minas Gerais desenvolveu sua produção cafeeira principalmente na Zona da Mata mineira, região no leste do estado, e no Sul de Minas, a partir de fins do século XIX, beneficiando-se da proximidade com o Rio de Janeiro e, depois, com São Paulo. A produção mineira cresceu de forma constante ao longo do século XX, e o estado se tornaria, décadas mais tarde, o maior produtor nacional de café, posição que mantém, segundo levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em anos recentes.
O papel de Campinas e do interior paulista na expansão cafeeira
Campinas, cidade do interior paulista fundada no século XVIII, tornou-se um dos principais centros da economia cafeeira entre 1850 e 1900, funcionando como polo de arrecadação e de investimento em infraestrutura ferroviária. Fazendeiros da região financiaram a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, fundada em 1868, uma das primeiras ferrovias do interior de São Paulo voltada ao transporte de café até o porto de Santos. Esse capital cafeeiro, segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda em suas análises sobre a formação econômica paulista, financiou ainda a industrialização inicial do estado, criando bancos, empresas de serviços e as primeiras fábricas têxteis nas primeiras décadas do século XX. A riqueza gerada por essa cadeia produtiva deu a São Paulo peso político crescente na Primeira República, proclamada em 1889.
A política do café com leite na Primeira República
O termo “política do café com leite” descreve o revezamento informal na Presidência da República entre representantes de São Paulo, estado cafeeiro, e de Minas Gerais, estado com forte produção de leite e derivados, durante a Primeira República, período entre 1889 e 1930. Esse arranjo não constava de nenhuma lei escrita; funcionava como acordo tácito entre as oligarquias estaduais mais poderosas do período, sustentadas por suas respectivas economias agrícolas. Presidentes como Prudente de Morais, paulista eleito em 1894, e Rodrigues Alves, também de São Paulo, eleito em 1902, alternaram-se com mineiros como Afonso Pena, eleito em 1906, em um padrão que se repetiu por décadas, segundo análises do historiador Boris Fausto sobre a Primeira República.
O poder político de São Paulo e Minas Gerais no período derivava diretamente do peso econômico do café, que respondia por parcela majoritária das exportações brasileiras nas primeiras décadas do século XX. Esse domínio econômico permitia às elites paulistas e mineiras controlar o chamado voto de cabresto, prática de manipulação eleitoral nas zonas rurais descrita por historiadores como uma das bases do sistema oligárquico da época. A crise de 1929, que derrubou os preços internacionais do café, enfraqueceu financeiramente essas oligarquias e contribuiu para o desgaste do arranjo político vigente.
O governo brasileiro chegou a adotar, entre as décadas de 1900 e 1930, uma política de valorização do café que consistia em comprar e estocar excedentes de produção para sustentar artificialmente os preços internacionais, iniciada pelo chamado Convênio de Taubaté em 1906. Essa intervenção estatal, pioneira em escala mundial para um produto agrícola, buscava proteger os interesses dos fazendeiros paulistas diante de safras recordes que pressionavam os preços para baixo nos mercados de Nova York e Londres. O economista Celso Furtado, em suas análises sobre a formação econômica do Brasil, descreve esse mecanismo como um dos primeiros exemplos de política de comércio exterior coordenada pelo Estado brasileiro em favor de um único setor produtivo. A dependência do país em relação ao café, evidente nessas políticas, só começaria a diminuir de forma consistente a partir da industrialização acelerada das décadas seguintes.