Angela Ro Ro: carreira, sucessos e legado

A cantora e compositora carioca se tornou um dos nomes mais marcantes da MPB por sua voz rouca e personalidade irreverente

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Angela Maria Diniz Gonsalves, conhecida artisticamente como Angela Ro Ro, foi uma cantora, compositora e pianista brasileira nascida em 5 de dezembro de 1949, no Rio de Janeiro. Reconhecida como uma das vozes mais marcantes da música popular brasileira (MPB), morreu em 8 de setembro de 2025, também no Rio de Janeiro, aos 75 anos, após meses de internação hospitalar por complicações respiratórias e renais. Sua trajetória combinou sucesso comercial, composições autorais intensas e uma postura pública irreverente que a tornou, ainda nos anos 1980, uma das primeiras cantoras brasileiras a se assumir publicamente como lésbica.

A origem do apelido “Ro Ro” é tratada de forma diferente pelas fontes disponíveis: parte da imprensa musical brasileira atribui o apelido à sonoridade rouca e grave de sua voz, enquanto o registro biográfico em inglês da cantora associa o nome a uma onomatopeia derivada de sua própria risada. Antes de conquistar reconhecimento nacional, Ângela Ro Ro estudou piano clássico ainda jovem e começou a se apresentar em bares e ao redor do bairro carioca de Ipanema, no Rio de Janeiro, no início da década de 1970. Em 1971, durante o regime militar brasileiro instaurado em 1964, mudou-se para Londres, na Inglaterra, onde sobreviveu com trabalhos informais enquanto se apresentava pela cidade.

O início de carreira e os grandes sucessos de Angela Ro Ro

O retorno ao Brasil, em 1979, marcou o início da fase de maior visibilidade da carreira de Angela Ro Ro, quando lançou seu álbum de estreia autointitulado, hoje considerado um marco da música popular brasileira. A partir desse disco, sua trajetória artística se consolidou ao longo de mais de quatro décadas, período em que alternou grandes sucessos comerciais, composições gravadas por outros artistas de peso da MPB e uma vida pessoal marcada por episódios públicos de dificuldade financeira e de saúde. Compreender essa trajetória exige separar três aspectos centrais de sua carreira: os sucessos que a projetaram nacionalmente, a personalidade forte que moldou sua imagem pública e o legado deixado após sua morte, em 2025.

O álbum “Angela Ro Ro”, lançado em 1979, trouxe os sucessos “Amor, Meu Grande Amor“, “Tola Foi Você” e “A Mim e a Mais Ninguém”, consolidando de imediato o reconhecimento da cantora junto ao público e à crítica especializada. A revista Rolling Stone Brasil posteriormente incluiu esse disco de estreia entre os maiores álbuns já produzidos na música brasileira, reconhecimento que reforça sua relevância histórica dentro do gênero. A recepção imediata do álbum surpreendeu parte da indústria fonográfica da época, já que Angela Ro Ro chegava ao mercado após oito anos vivendo fora do Brasil, sem vínculo prévio com gravadoras ou produtores estabelecidos no país.

Nos anos seguintes, a cantora manteve ritmo intenso de lançamentos: o álbum “Só Nos Resta Viver”, de 1980, teve a faixa-título como um dos grandes destaques da carreira, ao lado da canção “Tango da Bronquite”. Já o disco “Escândalo!”, de 1981, reforçou a associação de Angela Ro Ro com posturas públicas polêmicas, ao fazer referência direta ao término conturbado de seu relacionamento com a cantora Zizi Possi. Em 1982, o álbum “Simples Carinho” trouxe outro grande sucesso, a canção de mesmo nome, composta por João Donato e Abel Silva, além de parcerias e regravações que aproximaram Angela Ro Ro de nomes como Maria Bethânia, Cazuza, Luiz Melodia e Ney Matogrosso ao longo da década de 1980.

A imagem pública de Angela Ro Ro sempre esteve associada à palavra “escândalo”, reflexo de um discurso libertário, marcado por humor ácido e irreverência, que por vezes gerou dissabores concretos em sua carreira dentro de uma indústria musical mais conservadora. Essa postura levou, inclusive, a um convite posterior da televisão: entre 2004 e 2005, a cantora apresentou o programa musical “Escândalo”, exibido pelo canal por assinatura Canal Brasil, no qual explorava justamente essa faceta polêmica de sua trajetória pessoal e artística.

Angela Ro Ro e a visibilidade LGBTQIA+ na música brasileira

Ainda nos anos 1980, período de forte conservadorismo social no Brasil, Angela Ro Ro tornou-se uma das primeiras cantoras brasileiras de projeção nacional a se assumir publicamente como lésbica, tornando-se referência para a comunidade LGBTQIA+ do país em décadas posteriores. Seu relacionamento com a cantora Zizi Possi, encerrado de forma pública e conturbada no início da década de 1980, tornou-se matéria-prima direta para composições autorais da própria Angela Ro Ro, reforçando a proximidade entre sua vida pessoal e sua produção artística.

Além de intérprete, Angela Ro Ro construiu reputação sólida como compositora, com canções gravadas por outros grandes nomes da MPB. A cantora Maria Bethânia regravou “Gota de Sangue”, composição de Ângela Ro Ro, em seu álbum “Mel”, de 1979, e voltou a gravar sua obra em 1983, com a canção “Fogueira”, incluída no álbum “Ciclo”, considerado pela própria Bethânia um dos melhores discos de sua carreira. Angela Ro Ro só registrou sua própria versão de “Fogueira” um ano depois, em 1984, no álbum “A Vida É Mesmo Assim”, evidenciando o reconhecimento que suas composições já alcançavam entre os principais intérpretes da música popular brasileira daquele período.

No fim da década de 1990, após a perda dos pais, Angela Ro Ro passou por uma transformação pessoal marcante, emagrecendo cerca de 40 quilos ao enfrentar publicamente problemas de obesidade e de dependência do álcool. Mesmo diante da ascensão comercial do sertanejo pop, do pagode romântico e do axé music, gêneros que dominaram o mercado fonográfico brasileiro nas décadas de 1990 e 2000, a cantora manteve produção musical regular, lançando o álbum “Compasso” em 2006 e encerrando a discografia com o disco “Selvagem”, de 2017, seu último trabalho de estúdio.

A morte e o legado de Angela Ro Ro

Os últimos meses de vida de Angela Ro Ro foram marcados por grave crise de saúde e por dificuldades financeiras tornadas públicas: internada desde 17 de junho de 2025 na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Silvestre, no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, a cantora enfrentava infecção pulmonar grave, submetendo-se a traqueostomia e, posteriormente, a uma cirurgia da qual sobreviveu inicialmente. Sem aposentadoria oficial e sem reservas financeiras acumuladas ao longo da carreira, segundo informou seu advogado à imprensa, Angela Ro Ro chegou a pedir ajuda financeira a fãs por meio de doações via Pix nos meses anteriores à morte. Após complicações no pós-operatório, com queda severa de pressão arterial, sofreu parada cardíaca e morreu em 8 de setembro de 2025, confirmação feita à imprensa por seu produtor musical.

O legado de Angela Ro Ro permanece associado à combinação rara entre talento vocal, força composicional e coragem pessoal diante de convenções sociais de sua época. Influenciada por artistas como a cantora norte-americana Ella Fitzgerald, a cantora brasileira Maysa Matarazzo e o compositor belga Jacques Brel, Angela Ro Ro deixou mais de dez álbuns de estúdio e uma voz que a crítica musical brasileira chegou a comparar à da cantora norte-americana Janis Joplin, morta em 1970. Décadas depois de seus maiores sucessos, suas canções continuam sendo ouvidas e regravadas, consolidando sua posição entre as figuras mais singulares da história da música popular brasileira.

A cantora participou do especial “Pirlimpimpim”, produzido pela TV Globo com base na obra do escritor brasileiro Monteiro Lobato, no qual emprestou sua voz marcante à personagem Cuca, a bruxa vilã do Sítio do Picapau Amarelo. O contraste entre essa participação infantil e a imagem adulta e transgressora construída ao longo de sua carreira ilustra a versatilidade de uma artista que soube transitar, sem perder identidade, entre públicos e contextos culturais completamente distintos da música e da televisão brasileira.

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