A lenda do imperador Honório (384–423) e de seu galo chamado Roma está relacionada ao saque de Roma pelos visigodos, comandados por Alarico, em 24 de agosto de 410. Segundo um relato transmitido pelo historiador bizantino Procópio de Cesareia, o imperador recebeu a notícia de que Roma havia sido tomada e pensou que seu interlocutor se referia à morte de sua ave de estimação. A anedota tornou-se uma representação da suposta indiferença de Honório diante da destruição da antiga capital imperial.
A narrativa conta que, ao ouvir a notícia de que Roma havia perecido, Honório teria demonstrado preocupação porque seu galo, também chamado Roma, acabara de comer em suas mãos. Quando o mensageiro esclareceu que se referia à cidade, e não ao animal, o imperador teria manifestado alívio. A história é frequentemente reproduzida como exemplo da incompetência dos últimos imperadores romanos, embora sua veracidade seja discutível.
Em 1883, o artista britânico John William Waterhouse (1849–1917) recuperou esse episódio em uma pintura intitulada The Favourites of the Emperor Honorius (Os Favoritos do Imperador Honório). A obra apresenta o governante sentado, alimentando pequenas aves enquanto conselheiros aguardam sua atenção. Embora a composição seja associada à lenda do galo Roma, a pintura não representa literalmente o momento do diálogo com o mensageiro: Waterhouse construiu uma interpretação visual da imagem de um soberano absorvido em seus animais enquanto o Império Romano do Ocidente enfrentava uma grave crise.
Honório, o imperador que perdeu Roma para os visigodos
Flávio Honório nasceu em 9 de setembro de 384 e era filho do imperador Teodósio I, responsável pela última reunificação administrativa do Império Romano. Após a morte do pai, em janeiro de 395, Honório recebeu o governo da parte ocidental, enquanto seu irmão Arcádio assumiu o Império Romano do Oriente. Como tinha apenas dez anos, o jovem imperador dependia de conselheiros e comandantes militares para administrar seus domínios.
Uma das figuras mais influentes durante os primeiros anos do governo foi Estilicão, general de origem vândala que havia servido a Teodósio I. Ele assumiu a responsabilidade pela defesa do Ocidente e exerceu grande influência sobre as decisões políticas e militares da corte. As disputas entre diferentes grupos de poder, entretanto, enfraqueceram a administração imperial e contribuíram para a instabilidade que caracterizou o reinado.
Em 402, diante das ameaças militares contra a Itália, a corte imperial transferiu sua residência de Milão para Ravena. Cercada por áreas pantanosas e protegida por sua posição geográfica, a cidade oferecia melhores condições defensivas. Honório passou a governar a partir desse centro político, enquanto Roma, embora mantivesse enorme prestígio histórico e simbólico, deixava de ser a residência habitual do imperador do Ocidente.
A mudança ajuda a compreender a lenda do galo. Quando os visigodos saquearam Roma, em 410, Honório não estava na cidade, mas em Ravena. A distância entre o soberano e a antiga capital tornou-se um elemento importante da imagem negativa construída sobre seu governo. A tradição posterior passou a apresentar o imperador como alguém incapaz de compreender a gravidade das ameaças que atingiam o próprio coração simbólico de seu domínio.
A invasão de Alarico e o saque de Roma em 410
A invasão visigótica foi resultado de conflitos políticos e militares que se agravaram durante o governo de Honório. Os visigodos eram um povo de origem germânica que havia estabelecido relações com o Império Romano, incluindo acordos de aliança e prestação de serviços militares. Sob a liderança de Alarico, passaram a exigir melhores condições de assentamento, reconhecimento político e compensações materiais. A falta de entendimento com a corte imperial transformou as negociações em confrontos armados.
A situação se agravou em 408, quando Honório mandou executar Estilicão, acusado de traição e de conspirar contra o imperador. A morte do general eliminou uma das principais figuras capazes de negociar com os visigodos e deixou a defesa ocidental em situação delicada. Alarico aproveitou a fragilidade política para avançar sobre a Itália e pressionar o governo imperial. Roma enfrentou bloqueios, escassez de alimentos e dificuldades para obter auxílio militar.
Em agosto de 410, depois de sucessivas tentativas de negociação e cercos, os visigodos conseguiram entrar na cidade. O saque durou três dias e provocou mortes, destruição e apropriação de riquezas. Embora o episódio tenha causado enorme impacto entre os habitantes do mundo romano, não significou a queda imediata do Império Romano do Ocidente, que continuou existindo até 476. A tomada da antiga capital, entretanto, representou um golpe profundo no prestígio político e simbólico de Roma.
O relato de Procópio apresenta duas versões para a entrada dos invasores. Na primeira, Alarico teria utilizado trezentos jovens guerreiros infiltrados entre os habitantes para abrir a Porta Salária. Na segunda, uma aristocrata romana chamada Proba teria ordenado a abertura dos portões por compaixão diante da fome que castigava a população. Essas narrativas foram registradas muito depois do acontecimento e não devem ser tratadas como descrições comprovadas de cada detalhe da invasão.
A origem da lenda do galo Roma
A história do animal de estimação aparece na obra História das Guerras, escrita por Procópio de Cesareia no século VI. O historiador bizantino relata que Honório recebeu a notícia da destruição de Roma por intermédio de um eunuco responsável pelas aves da corte. Ao ouvir que Roma havia perecido, o imperador teria reagido dizendo que o animal acabara de comer em suas mãos. O funcionário explicou que a mensagem se referia à cidade conquistada por Alarico, e não ao galo do soberano.
Existe um detalhe frequentemente alterado nas reproduções populares da história: Procópio não fala de uma galinha, mas de um galo de grandes dimensões, chamado Roma. A diferença é importante porque a imagem popular de Honório alimentando uma galinha não corresponde exatamente ao texto antigo. O relato identifica o responsável pelas aves como um eunuco e apresenta o episódio como uma demonstração da suposta estupidez do imperador.
A distância cronológica também exige cautela. Procópio escreveu aproximadamente 140 anos depois do saque de 410 e não foi testemunha da conversa. Portanto, não há como confirmar que Honório realmente possuía um galo chamado Roma ou que tenha pronunciado aquelas palavras. A narrativa pode ter sido construída para ridicularizar o governante e reforçar uma interpretação negativa de seu reinado.
Um estudo publicado em 2020 pelo historiador Tamás Kovács, na revista acadêmica Graeco-Latina Brunensia, propôs uma interpretação diferente para a origem do episódio. O pesquisador relaciona a narrativa a uma reunião ocorrida em meados de janeiro de 409, quando a corte recebeu informações sobre o primeiro cerco de Roma. Nessa hipótese, Procópio teria associado acontecimentos de momentos diferentes ao construir seu relato. A interpretação demonstra que a anedota pode guardar uma memória política mais complexa do que a simples reação de um imperador indiferente ao destino da cidade.
A pintura “The Favourites of the Emperor Honorius” foi realizada por John William Waterhouse por volta de 1883, em Londres. Produzida em óleo sobre tela, mede aproximadamente 119,3 centímetros de altura por 205 centímetros de largura. Atualmente, pertence ao acervo da Art Gallery of South Australia, em Adelaide, na Austrália. A instituição registra a obra como uma de suas pinturas britânicas e informa que ela foi adquirida com recursos de uma concessão do governo sul-australiano em 1883.
Na composição, Honório aparece sentado em uma cadeira ornamentada, vestindo roupas imperiais e distribuindo alimento às aves que se aproximam de seus pés. Os animais ocupam uma área do primeiro plano, enquanto alguns integrantes da corte permanecem afastados, aparentemente aguardando a atenção do soberano. O contraste entre o imperador concentrado nos pássaros e os homens que tentam se aproximar cria uma sensação de isolamento e distanciamento político.
A obra não reproduz literalmente a conversa entre Honório e o funcionário da criação de aves. Também não apresenta o galo Roma como personagem central. Em vez disso, Waterhouse utiliza os pássaros e a postura do governante para representar a imagem de um monarca distraído, cercado por privilégios e aparentemente alheio às dificuldades de seu império. O título, que pode ser traduzido como “Os Favoritos do Imperador Honório”, faz referência às aves que recebem sua atenção, estabelecendo um contraste com os conselheiros que aguardam para tratar de assuntos de Estado.
A escolha do tema dialogava com o interesse do século XIX pela Antiguidade clássica e por episódios relacionados à decadência das civilizações. Waterhouse, nascido em Roma em 1849 e falecido em Londres em 1917, ficou conhecido por pinturas inspiradas na mitologia, na literatura e em narrativas históricas. Sua produção combinava referências clássicas com uma atenção especial aos ambientes, às vestimentas e à composição das figuras humanas.
Honório retratado por Waterhouse
A pintura também possui uma particularidade na trajetória profissional do artista: foi a primeira obra de Waterhouse adquirida por uma galeria pública. Sua apresentação em 1883 ajudou a consolidar sua presença no cenário artístico britânico. O quadro continua preservado em Adelaide e pode ser consultado no catálogo oficial da instituição, que disponibiliza informações sobre suas dimensões, técnica e procedência.
A associação entre Honório e os pássaros ganhou força justamente porque a pintura transformou uma narrativa antiga em uma imagem facilmente reconhecível. O imperador que supostamente confundiu a queda de Roma com a morte de seu galo passou a simbolizar a incapacidade de governantes diante de crises políticas. Curiosamente, o nome Roma atribuído ao animal é o elemento que sustenta toda a anedota: na narrativa de Procópio, a tragédia de uma cidade que havia dominado o Mediterrâneo é confundida, por alguns instantes, com a perda de uma ave alimentada pelo próprio imperador.
