Carlota Joaquina de Bourbon (1775–1830), rainha consorte de Portugal, teve nove filhos com Dom João VI (1767–1826), entre 1793 e 1806. A descendência incluía seis princesas e três príncipes, entre eles Dom Pedro de Alcântara, futuro primeiro imperador do Brasil, e Dom Miguel, que se tornaria rei de Portugal. Todos foram registrados e reconhecidos como filhos legítimos do casamento, embora tenham circulado rumores de que Carlota teria mantido relacionamentos extraconjugais.
A dúvida sobre a paternidade de alguns dos infantes está relacionada à deterioração do casamento dos monarcas. A relação entre Carlota e Dom João era marcada por conflitos pessoais, divergências políticas e períodos de afastamento. A rainha também acumulou adversários na corte portuguesa, o que contribuiu para a circulação de acusações sobre sua vida privada.
É necessário, portanto, separar duas questões: a legitimidade jurídica e dinástica dos filhos e a certeza biológica da paternidade. A primeira está estabelecida pela documentação e pelo reconhecimento oficial da monarquia. A segunda alimentou especulações, especialmente em relação a Dom Miguel, mas não existe comprovação histórica conclusiva de que algum dos nove filhos fosse fruto de uma relação extraconjugal de Carlota Joaquina.
Os nove filhos de Carlota Joaquina e Dom João VI
O primeiro filho do casal foi Maria Teresa de Bragança, nascida em 29 de abril de 1793, no Palácio da Ajuda, em Lisboa. Recebeu o título de princesa da Beira e teve participação importante nas alianças matrimoniais entre as famílias reais ibéricas. Em 1810, casou-se com o infante Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, seu primo. Depois da morte dele, em 1812, contraiu novo matrimônio, em 1838, com o infante espanhol Carlos Maria Isidro, irmão de seu primeiro marido.
O segundo filho foi Francisco António Pio de Bragança, nascido em 21 de março de 1795, no Palácio de Queluz. Recebeu o título de príncipe da Beira e ocupou a posição de herdeiro masculino da Coroa portuguesa. Sua morte, em 11 de junho de 1801, aos seis anos, alterou a sucessão dinástica e deixou o irmão Pedro, nascido em 1798, em posição de destaque na linha de herança.
A terceira filha, Maria Isabel de Bragança, nasceu em 19 de maio de 1797. Em 1816, casou-se com Fernando VII, rei da Espanha, tornando-se rainha consorte espanhola. A união fazia parte das estratégias diplomáticas das monarquias ibéricas, interessadas em fortalecer os vínculos entre as duas casas reais. Maria Isabel morreu em Madri, em 29 de novembro de 1818, aos 21 anos, sem deixar descendência.
O quarto filho, Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim, nasceu em 12 de outubro de 1798, em Queluz. Ficou conhecido como Dom Pedro I no Brasil e Dom Pedro IV em Portugal. Sua trajetória foi decisiva para a independência brasileira, proclamada em 7 de setembro de 1822, e para a crise sucessória portuguesa que se desenvolveu depois da morte de Dom João VI.
A quinta filha, Maria Francisca de Assis de Bragança, nasceu em 22 de abril de 1800. Casou-se em 1816 com o infante espanhol Carlos Maria Isidro, com quem teve filhos. Depois de sua morte, em 1834, o viúvo se casou com a irmã dela, Maria Teresa. Essas uniões reforçavam os vínculos entre os Bragança e os Bourbon e estavam relacionadas às disputas sucessórias espanholas.
A sexta filha, Isabel Maria de Bragança, nasceu em 4 de julho de 1801, no Palácio de Queluz. Nunca se casou e teve uma atuação política relevante depois da morte do pai. Em 1826, Dom João VI nomeou-a presidente da Junta de Regência, responsável por governar Portugal durante a crise sucessória. Ela exerceu essa função até fevereiro de 1828, quando Dom Miguel assumiu o poder.
O sétimo filho foi Miguel de Bragança, nascido em 26 de outubro de 1802. Tornou-se uma das figuras mais controversas da monarquia portuguesa. Em 1828, assumiu o trono como Dom Miguel I, defendendo o absolutismo e entrando em conflito com o irmão Dom Pedro, partidário da monarquia constitucional. A disputa provocou uma guerra civil entre 1832 e 1834, encerrada com a derrota dos miguelistas e o exílio do monarca.
A oitava filha, Maria da Assunção de Bragança, nasceu em 25 de junho de 1805, também em Queluz. Não se casou e morreu em Santarém, em 7 de janeiro de 1834, durante o período de instabilidade política que acompanhou a guerra civil portuguesa. A mais nova, Ana de Jesus Maria de Bragança, nasceu em 23 de outubro de 1806, no Palácio de Mafra. Em 5 de dezembro de 1827, casou-se com Nuno José de Mendonça Barreto, segundo marquês de Loulé, com quem teve descendência. Morreu em Roma, em 22 de junho de 1857.
A polêmica sobre a paternidade dos filhos
A suspeita de que Carlota Joaquina teria mantido relacionamentos extraconjugais ganhou força em razão da deterioração de seu casamento. Os conflitos entre ela e Dom João VI eram conhecidos na corte, e os dois passaram períodos vivendo separados. A rainha também se envolveu em disputas políticas que lhe renderam numerosos adversários, interessados em comprometer sua reputação.
O principal alvo das especulações foi Dom Miguel. Alguns contemporâneos atribuíram sua paternidade a um homem ligado à administração da Quinta do Ramalhão, propriedade onde Carlota costumava permanecer, em Sintra. A suspeita foi alimentada pela alegação de que a rainha teria mantido um relacionamento com esse funcionário. Entretanto, não há documentação conclusiva que demonstre essa relação ou comprove que ele fosse o pai biológico do infante.
A questão foi retomada pelas historiadoras portuguesas Ana Cristina Pereira e Joana Pinheiro de Almeida no livro “Traições, Poder e Bastardos Reais”. Conforme as autoras, muitos contemporâneos atribuíam outra paternidade a Dom Miguel, relacionando a suspeita aos supostos envolvimentos amorosos da rainha. O estudo também chama atenção para o peso do reconhecimento paterno nas monarquias: quando um rei reconhecia publicamente uma criança como filho, ela podia receber o estatuto dinástico correspondente, mesmo quando sua origem biológica era questionada.
É importante não confundir os rumores da corte com provas históricas. Não existe exame genético ou evidência documental conclusiva que permita afirmar que Dom Miguel, ou qualquer outro filho de Carlota Joaquina, não fosse biologicamente descendente de Dom João VI. As acusações devem ser compreendidas dentro das disputas políticas e familiares da monarquia portuguesa, sem serem reproduzidas como fatos comprovados.
A descendência que marcou Portugal e o Brasil
Os nove filhos tiveram destinos bastante diferentes. Enquanto algumas princesas foram utilizadas para consolidar alianças matrimoniais com outras casas reais europeias, os príncipes Pedro e Miguel protagonizaram disputas que modificaram a organização política de Portugal e do Brasil. A trajetória dos irmãos também evidencia a divisão entre projetos absolutistas e constitucionais que marcou o século XIX.
A chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, reuniu parte dessa descendência em território americano. Os filhos acompanharam os pais na transferência da corte, embora algumas das princesas tenham permanecido em embarcações diferentes durante a travessia. Em janeiro de 1808, Carlota Joaquina e parte da família desembarcaram em Salvador, antes de seguirem para o Rio de Janeiro. A composição do grupo pode ser observada no registro histórico da chegada da corte, preservado pelo Tribunal de Justiça da Bahia.
Um detalhe da descendência chama a atenção: Dom João VI e Carlota Joaquina tiveram filhos nascidos em diferentes residências da família real portuguesa. Maria Teresa nasceu no Palácio da Ajuda; vários de seus irmãos nasceram em Queluz; e Ana de Jesus Maria veio ao mundo no Palácio de Mafra. A distribuição dos nascimentos acompanha os deslocamentos da corte e oferece um registro concreto da vida itinerante da família antes da transferência definitiva para o Brasil.
