Dom Pedro versus Dom Miguel: um duelo entre irmãos

O conflito não foi apenas uma disputa de egos, mas o choque frontal entre duas visões de mundo

HiperHistória
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Foto: Google Gemini/HiperHistória

A relação entre os irmãos Dom Pedro e Dom Miguel de Bragança é um dos episódios mais dramáticos da história luso-brasileira, assemelhando-se a uma tragédia grega encenada em solo europeu. O conflito não foi apenas uma disputa de egos, mas o choque frontal entre duas visões de mundo: o liberalismo constitucional e o absolutismo tradicionalista.

Infância no Brasil

Durante a juventude no Rio de Janeiro, para onde a Família Real fugiu em 1808, os irmãos mantinham uma relação de proximidade física, mas com personalidades que já davam sinais de distanciamento. Pedro, o primogênito, era impulsivo, enérgico e demonstrava inclinações para as ideias liberais que sopravam da Europa. Já Miguel, o caçula, era o favorito da mãe, Carlota Joaquina, de quem herdou o temperamento conservador e o desprezo pelas limitações impostas por constituições.

Na juventude, ambos compartilhavam o gosto pela vida ao ar livre e pela montaria, mas, enquanto Pedro se preparava para a governança de um império vasto, Miguel crescia à sombra da influência absolutista materna. Relatos da época indicam que, apesar das brincadeiras de infância, a disputa por atenção e as visões políticas antagônicas começaram a criar fissuras antes mesmo do retorno da corte a Lisboa em 1821, deixando Pedro no Brasil como regente.

O estopim da guerra

A Guerra Civil Portuguesa, ou Guerra dos Dois Irmãos, teve raízes na crise sucessória após a morte de D. João VI em 1826. Pedro, então Imperador do Brasil, era o herdeiro legítimo, mas a constituição brasileira impedia a união das coroas. Ele abdicou em favor de sua filha, Maria da Glória, com a condição de que ela se casasse com o tio, Miguel, e que este jurasse a Carta Constitucional. Miguel, contudo, após jurar fidelidade, deu um golpe de Estado em 1828, declarando-se rei absoluto e perseguindo os liberais.

Pedro não aceitou a usurpação do trono da filha e o desrespeito à Carta. Para ele, a traição de Miguel não era apenas familiar, mas um ataque à ordem constitucional que ele defendia. Em 1831, Pedro abdicou do trono brasileiro e partiu para a Europa, organizando uma expedição militar a partir dos Açores para derrubar o irmão. O conflito tornou-se uma guerra de desgaste, marcada pelo Cerco do Porto, onde as forças liberais resistiram heroicamente contra o exército miguelista.

Relatos e citações de Dom Pedro e Dom Miguel

Nos registros e correspondências da época, o tom entre os irmãos era de profundo desprezo. Pedro, em escritos que refletiam seu ímpeto, frequentemente se referia ao irmão como um traidor dos juramentos sagrados. Ele via a si mesmo como o libertador de Portugal contra as “trevas” do absolutismo. Em uma de suas proclamações, Pedro afirmou:

A causa que defendo é a da legitimidade e da liberdade; a que o meu irmão sustenta é a da usurpação e da tirania.

Do outro lado, Miguel mantinha uma postura de que Pedro era um “estrangeiro” (por ter se tornado Imperador do Brasil) que não tinha mais direitos sobre Portugal. Autores da época, como o cronista e político liberal Almeida Garrett, descreveram o período como um tempo de “horror e esperança”. Garrett escreveu sobre a necessidade de extirpar o “miguelismo” para que Portugal pudesse ingressar na modernidade:

O absolutismo é o cadáver que a nação sacode dos ombros.

O desfecho em Évora Monte

A guerra terminou em 1834 com a Convenção de Évora Monte, após as sucessivas derrotas das tropas absolutistas. Miguel foi derrotado e condenado ao exílio perpétuo, perdendo seus direitos dinásticos. Pedro, exausto fisicamente pelas privações da guerra e pela tuberculose, viu a filha ser coroada como D. Maria II, mas faleceu poucos meses depois, em setembro de 1834, no mesmo quarto onde nascera no Palácio de Queluz.

A relação conflituosa entre os dois irmãos moldou o Portugal moderno. A vitória de Pedro consolidou o regime constitucional, mas as cicatrizes da guerra civil duraram décadas na sociedade portuguesa, dividida entre “pedristas” e “miguelistas”. No fim, a disputa foi o capítulo final de uma era de revoluções, onde o laço de sangue foi rompido pela intransigência política e pela necessidade histórica de definir o futuro de uma nação.

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