Hermes da Fonseca (1910-1914) – 8º Presidente

Marechal do Exército e sobrinho de Deodoro da Fonseca, Hermes da Fonseca foi o oitavo presidente brasileiro. Seu mandato enfrentou revoltas militares, conflitos sociais e disputas entre as oligarquias estaduais durante a Primeira República

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Hermes Rodrigues da Fonseca - Imagem gerada por IA | HiperHistória

Hermes Rodrigues da Fonseca (1855–1923) foi presidente do Brasil entre 15 de novembro de 1910 e 15 de novembro de 1914. Militar de carreira, chegou ao Palácio do Catete depois de vencer Rui Barbosa nas eleições presidenciais de 1910, em uma disputa que colocou em confronto o militarismo e o movimento civilista. Seu governo ficou marcado pela Revolta da Chibata, pela política das salvações, pela Guerra do Contestado e por intervenções federais em diferentes estados.

Nascido no Rio Grande do Sul, Hermes pertencia a uma família tradicional de militares e era sobrinho de Deodoro da Fonseca, primeiro presidente da República. Antes de assumir o governo federal, construiu uma carreira no Exército, participou de conflitos políticos e militares da jovem República e ocupou o Ministério da Guerra durante a administração de Afonso Pena. Sua experiência nas Forças Armadas influenciou as prioridades de sua administração, especialmente a modernização militar e a ampliação do serviço militar obrigatório.

A Presidência de Hermes da Fonseca coincidiu com um período de instabilidade política e transformações sociais. A República ainda era dominada por oligarquias regionais, enquanto trabalhadores urbanos, marinheiros, sertanejos e grupos militares contestavam diferentes aspectos da organização do país. A repressão a movimentos populares e as intervenções nos governos estaduais revelaram as dificuldades enfrentadas pelo regime republicano para administrar esses conflitos.

A origem familiar e a carreira militar de Hermes da Fonseca

Hermes Rodrigues da Fonseca nasceu em 12 de maio de 1855, em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. Era filho do marechal Hermes Ernesto da Fonseca e de Rita Rodrigues Barbosa. Seu pai participou da Guerra do Paraguai (1864–1870), exerceu funções militares e administrativas e chegou a governar a Bahia durante os primeiros anos da República. O ambiente familiar aproximou Hermes da carreira das armas desde a infância.

Em 1871, ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, onde iniciou sua formação profissional. Seguiu a carreira no Exército e alcançou diferentes postos de comando. Em 1877, casou-se com sua prima Orsina Francioni da Fonseca, com quem teve seis filhos. A relação com a família Deodoro também contribuiu para sua inserção nos círculos militares e políticos do Império.

A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, encontrou Hermes ligado ao grupo militar que apoiava a mudança de regime. Como sobrinho de Deodoro, participou das atividades do novo governo e ocupou funções de comando. Durante a Revolta da Armada, entre 1893 e 1894, atuou ao lado das forças governistas contra os militares que se insurgiram contra o governo de Floriano Peixoto. Posteriormente, comandou unidades militares e a Brigada Policial da capital federal.

Sua projeção nacional aumentou durante o governo de Afonso Pena (1906–1909), quando assumiu o Ministério da Guerra. À frente da pasta, promoveu iniciativas de modernização do Exército, incluindo a reorganização de unidades, a aquisição de equipamentos e o aperfeiçoamento da formação dos oficiais. Também incentivou o envio de militares brasileiros à Alemanha para conhecer os métodos de instrução do Exército alemão. Esses oficiais ficaram conhecidos como jovens turcos e defenderam reformas na estrutura militar brasileira.

Outra iniciativa importante foi a regulamentação do serviço militar obrigatório, por meio da legislação de 1908. A medida procurava estabelecer um sistema de recrutamento mais organizado e ampliar a capacidade de mobilização das Forças Armadas. A proposta enfrentou resistências e dificuldades de implementação, mas representou uma mudança na organização militar do país.

A eleição de 1910 e a chegada à Presidência

A sucessão de Afonso Pena provocou uma disputa entre diferentes grupos políticos. Hermes da Fonseca recebeu apoio de setores militares, do presidente do Senado, Pinheiro Machado, e de lideranças que defendiam sua candidatura. Em oposição, Rui Barbosa lançou a campanha civilista, que criticava a possibilidade de um militar assumir a Presidência e defendia maior valorização das instituições civis.

A campanha de Rui Barbosa ganhou repercussão nacional por meio de discursos, manifestações públicas e debates sobre os rumos da República. O candidato defendia o fortalecimento das liberdades individuais, das instituições jurídicas e da participação civil na política. Hermes, por sua vez, contava com o apoio de importantes oligarquias estaduais e de setores das Forças Armadas. A eleição ocorreu em 1º de março de 1910 e terminou com a vitória de Hermes, que assumiu em 15 de novembro daquele ano.

A disputa representou uma ruptura na articulação tradicional entre São Paulo e Minas Gerais, conhecida como política do café com leite. A aliança que sustentou Hermes reuniu interesses do Rio Grande do Sul e de outros grupos regionais, com participação decisiva de Pinheiro Machado. O resultado eleitoral demonstrou que a sucessão presidencial não dependia exclusivamente do entendimento entre as duas maiores oligarquias estaduais.

A Revolta da Chibata e os conflitos na Marinha

Poucos dias depois de assumir a Presidência, Hermes da Fonseca enfrentou a Revolta da Chibata, ocorrida entre 22 e 27 de novembro de 1910, na Baía de Guanabara. O movimento foi liderado pelo marinheiro João Cândido Felisberto, que ficou conhecido como Almirante Negro. Os revoltosos exigiam o fim dos castigos físicos na Marinha, melhores condições de trabalho e mudanças no tratamento dispensado aos marinheiros, muitos deles negros e descendentes de escravizados.

O estopim aconteceu depois que o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes recebeu 250 chibatadas como punição disciplinar, diante de outros integrantes da tripulação do encouraçado Minas Gerais. A violência provocou indignação entre os marinheiros, que tomaram o controle de importantes embarcações da esquadra brasileira, incluindo os encouraçados Minas Gerais e São Paulo. Os canhões dos navios foram apontados para a capital federal, criando uma situação de grande tensão para o governo.

Diante da ameaça de bombardeio, Hermes da Fonseca negociou com os revoltosos e aceitou suas principais exigências. Em 26 de novembro, o governo decretou o fim dos castigos físicos na Marinha e concedeu anistia aos participantes que encerrassem o movimento. Entretanto, a promessa não foi respeitada integralmente. Pouco depois, novas medidas disciplinares e a repressão a outro levante de fuzileiros navais provocaram prisões, expulsões e mortes.

João Cândido e outros participantes da Revolta da Chibata foram presos, e muitos acabaram enviados para a Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Parte dos detidos morreu em consequência das condições de encarceramento e da repressão. O próprio João Cândido sobreviveu, foi julgado e absolvido em 1912, mas permaneceu afastado da Marinha. A revolta tornou-se um marco da luta contra a violência institucional e o racismo nas Forças Armadas brasileiras.

A política das salvações e as intervenções estaduais

A partir de 1911, Hermes da Fonseca adotou uma orientação política conhecida como política das salvações. O objetivo era substituir grupos oligárquicos que dominavam governos estaduais por lideranças alinhadas ao governo federal. Para isso, sua administração apoiava movimentos de oposição locais e, em determinadas situações, recorria à intervenção militar. A política recebeu o nome de salvações porque seus defensores afirmavam que pretendiam libertar os estados do domínio de oligarquias consideradas corruptas.

A estratégia provocou conflitos em diferentes regiões, especialmente no Norte e no Nordeste. Na Bahia, por exemplo, a intervenção federal contribuiu para a queda do governador João Ferreira de Araújo Pinho, em 1911, e para a ascensão de J. J. Seabra. A mudança foi acompanhada por confrontos armados e pelo bombardeio de Salvador, em janeiro daquele ano, que atingiu edifícios públicos e provocou incêndios na cidade. O episódio ficou conhecido como Bombardeio de Salvador e demonstrou o impacto das disputas entre o governo federal e as oligarquias estaduais.

No Ceará, a política das salvações provocou uma crise envolvendo o governador Franco Rabelo, aliado do governo federal, e seus adversários políticos. A oposição aproximou-se do padre Cícero Romão Batista e de Floro Bartolomeu, que organizaram uma resistência armada em Juazeiro do Norte. Em dezembro de 1913, Hermes decretou estado de sítio no Ceará. Em março de 1914, os revoltosos conseguiram derrotar as forças governistas e Franco Rabelo deixou o poder. O episódio ficou conhecido como Sedição de Juazeiro.

A política das salvações não conseguiu eliminar a influência das oligarquias tradicionais. Em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, os grupos políticos dominantes preservaram considerável autonomia. A tentativa de reorganizar o poder regional por meio de intervenções federais acabou ampliando rivalidades e demonstrando os limites da autoridade presidencial na Primeira República.

A Guerra do Contestado e a repressão aos movimentos sociais

Em 1912, Hermes da Fonseca enfrentou o início da Guerra do Contestado, conflito que se desenvolveu na região disputada pelos estados do Paraná e de Santa Catarina. A área concentrava tensões relacionadas à posse da terra, à construção da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande e à atuação de empresas que exploravam madeira e terras na região. A expulsão de famílias de suas áreas de ocupação contribuiu para o crescimento da insatisfação entre os sertanejos.

O movimento também possuía uma dimensão religiosa. Seus participantes reuniam-se em torno de lideranças conhecidas como monges, especialmente José Maria, que morreu no primeiro confronto armado de Irani, em outubro de 1912. A crença na chegada de um período de transformação espiritual e a organização de comunidades sertanejas deram ao conflito características messiânicas. Os governos estaduais e federal interpretaram o movimento como uma ameaça à ordem política e à propriedade.

Durante a Presidência de Hermes, as forças governamentais começaram a combater os agrupamentos sertanejos, mas a guerra continuou depois do término de seu mandato. A repressão mais intensa ocorreu durante o governo de Venceslau Brás, entre 1914 e 1915. O conflito terminou com milhares de mortos, embora as estimativas variem conforme os estudos. A Guerra do Contestado permanece associada à concentração fundiária, à exclusão social e à violência empregada pelo Estado contra comunidades rurais.

As tensões também alcançaram os centros urbanos. Em 1913, manifestações operárias e protestos contra a expulsão de sindicalistas estrangeiros desafiaram o governo. A Lei Adolfo Gordo, de 1907, permitia a expulsão de estrangeiros considerados uma ameaça à ordem pública, sendo utilizada contra militantes envolvidos em movimentos trabalhistas. Em outubro de 1913, Hermes decretou estado de sítio no Distrito Federal, medida que ampliou os poderes de repressão às manifestações e às organizações operárias.

Economia, modernização militar e vida pessoal

Nos primeiros anos do governo, a economia brasileira apresentou condições relativamente favoráveis, impulsionada pelas exportações de café e borracha e pela entrada de capitais estrangeiros. Entretanto, as dificuldades financeiras e as mudanças no mercado internacional começaram a afetar o desempenho econômico a partir de 1912. O governo precisou administrar problemas orçamentários e enfrentar as limitações de uma economia dependente da exportação de produtos primários.

Na área militar, Hermes deu continuidade aos projetos de modernização iniciados quando ocupava o Ministério da Guerra. Em 1913, foi inaugurada a Escola Brasileira de Aviação, iniciativa relacionada à incorporação de novas tecnologias às Forças Armadas. No ano seguinte, criou-se a Escola de Guerra Naval, destinada ao aperfeiçoamento da formação dos oficiais da Marinha. Essas instituições integravam o esforço de modernização militar que acompanhava as transformações tecnológicas do início do século XX.

A vida pessoal do presidente também chamou atenção da sociedade brasileira. Sua primeira esposa, Orsina Francioni da Fonseca, morreu em 1912. Em 1913, Hermes casou-se com Nair de Teffé (1886–1981), artista conhecida como Rian e considerada a primeira mulher caricaturista profissional da imprensa brasileira. A diferença de idade entre os dois e a personalidade artística de Nair despertaram comentários na imprensa e nos círculos políticos.

O casamento ficou associado a episódios pouco convencionais para o ambiente presidencial da época. Nair promovia encontros culturais no Palácio do Catete e ajudou a aproximar a residência oficial de manifestações artísticas populares. Em uma dessas ocasiões, apresentou o Corta-Jaca, composição de Chiquinha Gonzaga, uma das principais representantes da música brasileira. A execução da peça provocou críticas de setores conservadores, que consideravam inadequada a apresentação daquele gênero musical em um ambiente oficial.

O fim do governo e os últimos anos de Hermes da Fonseca

Hermes da Fonseca encerrou seu mandato em 15 de novembro de 1914, quando transmitiu a Presidência a Venceslau Brás, eleito naquele ano. O novo governo procurou reconstruir entendimentos com as principais oligarquias estaduais e reduzir as tensões provocadas pelas intervenções federais. A saída de Hermes do Palácio do Catete não significou, entretanto, seu afastamento imediato da vida política e militar brasileira.

Em 1915, depois do assassinato de Pinheiro Machado, importante liderança do Partido Republicano Conservador, Hermes deixou o Brasil e passou a residir na Europa. Afastou-se da atividade militar e permaneceu fora do país até 1920, quando retornou ao Rio de Janeiro. Em 1923, foi transferido para a reserva no posto de marechal, encerrando oficialmente sua trajetória no serviço ativo do Exército.

Hermes Rodrigues da Fonseca morreu em 9 de setembro de 1923, em Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, aos 68 anos. Sua administração permaneceu associada a alguns dos episódios mais importantes da Primeira República, especialmente a Revolta da Chibata e a política das salvações. Sua trajetória também permite compreender a influência dos militares na política nacional e as dificuldades enfrentadas pelo regime republicano diante das desigualdades sociais e das disputas regionais.

Uma particularidade da passagem de Hermes pela Presidência está relacionada à música que sua esposa levou ao Palácio do Catete. O Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga, era uma composição ligada ao maxixe, gênero musical que enfrentava resistência em determinados círculos da elite brasileira. Em novembro de 1914, durante um discurso no Senado, Rui Barbosa criticou a apresentação da peça no palácio presidencial. O episódio entrou para a memória cultural da República como um exemplo das disputas entre os padrões artísticos considerados respeitáveis pelas elites e as manifestações populares que conquistavam espaço na sociedade brasileira.

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