Rodrigues Alves (1902-1906) – 5º Presidente

Quinto presidente do Brasil, Francisco de Paula Rodrigues Alves comandou uma ampla transformação da capital federal entre 1902 e 1906

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Francisco de Paula Rodrigues Alves - Imagem gerada por IA | HiperHistória

Rodrigues Alves foi presidente do Brasil entre 15 de novembro de 1902 e 15 de novembro de 1906, durante a Primeira República. Seu governo ficou marcado pela reforma urbana do Rio de Janeiro, pela atuação do sanitarista Oswaldo Cruz no combate às epidemias e pela Revolta da Vacina, em 1904. A administração também promoveu a modernização do porto carioca e acompanhou negociações diplomáticas que alteraram as fronteiras brasileiras. Embora as obras tenham contribuído para transformar a capital, as intervenções urbanas e sanitárias provocaram conflitos com moradores pobres e setores da população que contestavam a maneira como as mudanças eram impostas.

Francisco de Paula Rodrigues Alves nasceu em 7 de julho de 1848, em Guaratinguetá, no Vale do Paraíba paulista. Filho de Domingos Rodrigues Alves e Isabel Perpétua Alves, cresceu em uma região ligada à produção agrícola e à expansão da economia cafeeira. Estudou no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e depois cursou Direito na Faculdade de Direito de São Paulo, onde se formou em 1870. Trabalhou como promotor público e advogado antes de construir uma carreira política que atravessaria o final do Império e as primeiras décadas republicanas.

Sua atuação pública começou durante a monarquia, quando integrou o Partido Conservador e exerceu mandatos legislativos em São Paulo. Em 1887, assumiu a presidência da província paulista, cargo equivalente ao de governador, permanecendo na função até 1888. Após a Proclamação da República, em 1889, adaptou sua carreira ao novo regime e ocupou posições no Legislativo e no governo federal. Também foi ministro da Fazenda durante as administrações de Floriano Peixoto e Prudente de Morais, experiência que lhe deu familiaridade com os problemas financeiros e administrativos do país.

Da política paulista à Presidência da República

Rodrigues Alves ganhou influência no Partido Republicano Paulista (PRP), organização que reunia setores importantes das elites políticas e econômicas de São Paulo. Em 1900, voltou a governar o estado, com uma administração voltada para a agricultura, a imigração e questões sanitárias. Naquele período, epidemias de febre amarela e peste bubônica preocupavam autoridades e comerciantes, especialmente em áreas portuárias e regiões de circulação de pessoas. Sua experiência administrativa em São Paulo fortaleceu sua candidatura à Presidência, que recebeu o apoio do então presidente Campos Sales.

Eleito em março de 1902, Rodrigues Alves tomou posse em novembro do mesmo ano, tendo Afonso Pena como vice-presidente. A escolha de sua equipe indicava as prioridades da nova administração: o barão do Rio Branco assumiu o Ministério das Relações Exteriores, enquanto o engenheiro Pereira Passos foi nomeado prefeito do Distrito Federal e o médico Oswaldo Cruz passou a dirigir os serviços federais de saúde pública. Lauro Müller, à frente da pasta responsável por obras e transportes, também teve participação importante na modernização da infraestrutura carioca. A atuação coordenada desses agentes transformou a capital no principal foco das reformas do governo.

O Rio de Janeiro era então a capital federal, o maior centro político do país e um dos principais portos brasileiros. Suas áreas centrais apresentavam ruas estreitas, cortiços superlotados, saneamento insuficiente e epidemias recorrentes, problemas que afetavam sobretudo a população de baixa renda. A precariedade urbana também preocupava as autoridades por seus efeitos sobre o comércio exterior e a imagem internacional do Brasil. Rodrigues Alves colocou a remodelação da cidade e o saneamento entre as prioridades de seu mandato, associando saúde pública, infraestrutura e modernização econômica.

A reforma urbana e a Revolta da Vacina

A reforma urbana conduzida por Pereira Passos promoveu demolições de edifícios, abertura e alargamento de ruas, construção de avenidas e mudanças na circulação pela cidade. As intervenções ficaram popularmente associadas à expressão “Bota-Abaixo”, em referência à derrubada de construções antigas, incluindo numerosos cortiços. A abertura da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, e as obras de modernização portuária alteraram profundamente a paisagem da capital. Entretanto, muitas famílias desalojadas não receberam alternativas habitacionais adequadas e tiveram de procurar moradia em áreas periféricas ou em encostas, contribuindo para o deslocamento de populações pobres para regiões menos valorizadas.

As mudanças urbanas foram acompanhadas por campanhas de saúde pública lideradas por Oswaldo Cruz. A administração procurou combater a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, doenças que causavam mortes e comprometiam as condições sanitárias da cidade. As ações incluíam medidas contra mosquitos transmissores, controle de ratos e campanhas de vacinação. Embora respondessem a problemas reais de saúde coletiva, as intervenções eram frequentemente executadas de forma coercitiva, com entrada de agentes em residências e pouca participação da população nas decisões.

O conflito atingiu seu ponto mais intenso em novembro de 1904, quando a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola provocou protestos que ficaram conhecidos como Revolta da Vacina. A resistência não se explicava apenas pela oposição à imunização: também refletia a insatisfação com as demolições, a violência das ações sanitárias, a falta de informação e a imposição de medidas sobre a vida privada. Manifestações, barricadas e confrontos com as forças de segurança paralisaram partes do Rio de Janeiro. O movimento também se cruzou com disputas políticas e uma tentativa de insurreição militar contra o presidente.

Rodrigues Alves decretou estado de sítio e mobilizou forças militares e policiais para reprimir o levante. O governo suspendeu a obrigatoriedade da vacinação, mas manteve o combate às epidemias por outros meios. A repressão deixou mortos, feridos e centenas de presos, alguns dos quais foram enviados para o Acre. Apesar do conflito, as campanhas sanitárias produziram resultados importantes no controle de doenças, embora a experiência tenha demonstrado os limites de políticas públicas impostas sem diálogo social. A Revolta da Vacina tornou-se, assim, um episódio central para compreender as tensões entre modernização, saúde coletiva e direitos individuais na Primeira República.

Diplomacia, economia e os últimos anos de Rodrigues Alves

Na política externa, o governo registrou um resultado importante com o Tratado de Petrópolis, assinado em 17 de novembro de 1903. Negociado sob a liderança do barão do Rio Branco, o acordo encerrou a disputa entre Brasil e Bolívia pelo território do Acre, cuja população incluía numerosos brasileiros envolvidos na exploração da borracha. O Brasil incorporou a região ao seu território e, em contrapartida, assumiu compromissos financeiros e territoriais, incluindo o pagamento de dois milhões de libras esterlinas e a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. A ferrovia deveria facilitar o transporte e contornar trechos difíceis dos rios da região, embora sua construção enfrentasse enormes obstáculos ambientais e humanos.

A economia brasileira também foi favorecida pela expansão da borracha amazônica e pela demanda internacional por café, principal produto de exportação do país. O governo investiu na infraestrutura portuária e na reorganização da capital para facilitar a circulação de mercadorias e melhorar as condições do comércio. Em 1906, já no final do mandato, representantes de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro firmaram o Convênio de Taubaté, destinado a sustentar os preços do café por meio da compra e estocagem de excedentes. Rodrigues Alves se opunha à participação direta do governo federal nesse mecanismo, e o acordo avançou com apoio político dos estados envolvidos e do Congresso.

Ao encerrar seu mandato, em novembro de 1906, Rodrigues Alves transmitiu a Presidência a Afonso Pena. Em seguida, retornou à política paulista e voltou a governar o estado entre 1912 e 1916. Em 1918, foi eleito novamente presidente da República, mas não chegou a tomar posse: gravemente enfermo, teve a posse adiada e morreu no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1919. O vice-presidente eleito, Delfim Moreira, assumiu interinamente a Presidência, conforme as regras constitucionais então vigentes. Rodrigues Alves entrou para a história republicana também por esse fato singular: foi o único presidente eleito para um segundo mandato não consecutivo que morreu antes de assumir o novo período de governo.

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