Getúlio Vargas e a crise que levou ao suicídio

Em agosto de 1954, uma crise que reunia oposição política, conflitos militares, pressão da imprensa e o atentado contra Carlos Lacerda colocou o governo Vargas diante de uma ruptura. Em poucos dias, a pressão das Forças Armadas chegou ao ponto de exigir o afastamento definitivo do presidente

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Foto: Arquivo Nacional/ Domínio Público

Getúlio Vargas enfrentava, em 1954, uma crise política que vinha se agravando desde o início de seu segundo governo, iniciado em 1951. A oposição da União Democrática Nacional (UDN), de setores da imprensa, de grupos empresariais e de parcelas das Forças Armadas se combinava com disputas em torno da política econômica e do nacionalismo defendido pelo presidente. O atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, em 5 de agosto, no qual morreu o major-aviador Rubens Vaz, transformou essa tensão em uma crise político-militar que terminaria com o suicídio de Vargas, em 24 de agosto.

A crise não começou na rua Tonelero. Nos meses anteriores, o governo já sofria forte desgaste. Em fevereiro, a divulgação do chamado Manifesto dos Coronéis, assinado por 81 oficiais superiores do Exército, expressou insatisfação com as condições materiais das Forças Armadas e com a proposta de dobrar o salário mínimo. O episódio contribuiu para a substituição do ministro da Guerra, general Ciro do Espírito Santo Cardoso, pelo general Zenóbio da Costa e evidenciou o crescimento da oposição militar a Vargas.

Ao mesmo tempo, o governo enfrentava uma oposição civil organizada. Carlos Lacerda, jornalista e dirigente da UDN, utilizava o jornal Tribuna da Imprensa como uma das principais plataformas de combate a Vargas. A partir de 1953, a oposição também se intensificou no Congresso e na imprensa, enquanto denúncias envolvendo o governo alimentavam tentativas de afastamento do presidente. A CPI da Última Hora, em 1953, por exemplo, investigara acusações de favorecimento ao jornalista Samuel Wainer na obtenção de financiamentos do Banco do Brasil.

O ambiente político e a perda de apoio militar

A relação entre Vargas e setores das Forças Armadas tornou-se particularmente difícil durante seu segundo governo. Em maio de 1954, a vitória da Cruzada Democrática nas eleições do Clube Militar reforçou a presença de grupos oposicionistas na instituição. A corrente havia obtido 65% dos votos, e sua vitória foi seguida, naquele mesmo ano, por uma nova eleição de orientação oposicionista para a direção do Clube. O conflito político, portanto, também atravessava as organizações militares.

A política trabalhista agravava parte dessas tensões. Em 1954, o governo defendia um aumento expressivo do salário mínimo, associado ao ministro do Trabalho João Goulart. Os críticos argumentavam que a medida teria consequências econômicas e políticas negativas, enquanto os defensores a apresentavam como parte da política trabalhista do governo. O Manifesto dos Coronéis transformou a discussão salarial em uma questão de insatisfação militar mais ampla, envolvendo também as condições materiais do Exército.

A imprensa teve papel importante na escalada da crise. Jornais como Diário Carioca, Diário de Notícias, O Estado de S. Paulo e Correio da Manhã faziam oposição ao governo e, depois do atentado contra Lacerda, passaram a cobrar sua renúncia. Outros veículos adotaram posições diferentes: segundo o CPDOC, O Globo, O Jornal e Folha da Manhã mantiveram inicialmente uma cobertura menos acusatória e não atribuíram diretamente a Vargas a responsabilidade pelo atentado.

O atentado da rua Tonelero

Na madrugada de 5 de agosto de 1954, Carlos Lacerda foi atacado quando chegava à sua residência, na rua Tonelero, em Copacabana, acompanhado do filho Sérgio e do major-aviador Rubens Florentino Vaz. Lacerda sofreu um ferimento no pé, mas Vaz foi atingido e morreu. O episódio ficou conhecido como Atentado da Tonelero e mudou radicalmente a dimensão da crise, sobretudo porque Vaz integrava um grupo de oficiais da Aeronáutica que fazia a segurança de Lacerda.

A Aeronáutica decidiu conduzir sua própria investigação por meio de um inquérito policial-militar instalado na Base Aérea do Galeão. A investigação passou a ser conhecida como República do Galeão, expressão relacionada ao poder que o inquérito adquiriu durante a crise. Os investigadores chegaram a pessoas ligadas à guarda pessoal de Vargas, comandada por Gregório Fortunato, e a descoberta de seu envolvimento com o caso aumentou a pressão sobre o presidente.

Da investigação à exigência de renúncia

O envolvimento de integrantes da guarda pessoal de Vargas não significava, por si só, prova de que o presidente tivesse ordenado o atentado. Politicamente, porém, a associação foi devastadora. Gregório Fortunato era uma figura muito próxima de Vargas e já era alvo de acusações relacionadas a favorecimento e práticas clientelísticas; com o caso Tonelero, sua posição passou a representar, para os adversários do governo, um símbolo dos problemas atribuídos ao Palácio do Catete.

A crise atingiu o próprio governo. Em 16 de agosto, o ministro da Aeronáutica, Nero Moura, deixou o cargo. Dois dias depois, Vargas convidou o brigadeiro Epaminondas Gomes dos Santos para substituí-lo, escolha que foi interpretada por setores da oposição como uma provocação, devido às posições anteriores de Epaminondas em favor do governo. Enquanto isso, oficiais da Aeronáutica aumentavam a pressão pelo afastamento do presidente.

Nos dias 22 e 23 de agosto, a crise chegou ao alto comando das Forças Armadas. A Aeronáutica e a Marinha passaram a exigir a renúncia de Vargas. Na mesma conjuntura, 37 dos 80 generais do Exército que exerciam funções de comando no Rio de Janeiro assinaram um memorial favorável ao afastamento do presidente. A adesão de setores importantes das três Forças reduziu drasticamente a capacidade de Vargas de permanecer no cargo apoiado apenas pela autoridade constitucional de seu mandato.

Na noite de 23 de agosto, Vargas convocou uma reunião ministerial de emergência no Palácio do Catete. Diante da pressão militar, discutiu-se uma saída para a crise. Segundo o CPDOC, o presidente concordou em se licenciar temporariamente, desde que a medida não representasse sua renúncia definitiva. A solução, contudo, não encerrou o impasse: na madrugada de 24 de agosto, a pressão militar evoluiu para a exigência de afastamento definitivo.

A madrugada de 24 de agosto

Nas primeiras horas de 24 de agosto, Vargas permaneceu no Palácio do Catete enquanto seus aliados tentavam encontrar uma solução política. A situação militar havia se tornado crítica, e a possibilidade de deposição era concreta. Pouco depois, no interior de seus aposentos, o presidente disparou contra o próprio peito e morreu. O suicídio ocorreu 19 dias depois do atentado da rua Tonelero.

Vargas deixou uma Carta-Testamento, documento que passou a ocupar lugar central na interpretação política de sua morte. No texto, apresentou seu suicídio como resposta às pressões que, segundo sua própria versão, eram dirigidas contra seu governo e contra as políticas trabalhistas e nacionalistas que defendia. A carta foi divulgada rapidamente pelo rádio e teve forte impacto sobre a população, contribuindo para transformar a morte do presidente em um acontecimento político de grandes proporções.

A reação popular foi imediata. Manifestações ocorreram em várias cidades, e houve episódios de violência contra veículos de imprensa identificados com a oposição, além de um ataque à embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro. O vice-presidente João Café Filho assumiu a Presidência da República, enquanto o país entrava em uma nova fase de instabilidade política. Para consultar a documentação biográfica e histórica reunida pela Fundação Getulio Vargas, o CPDOC mantém um acervo específico sobre a crise de 1954.

Um detalhe ajuda a dimensionar a velocidade dos acontecimentos: entre o atentado contra Carlos Lacerda e a morte de Vargas transcorreram apenas 19 dias. Nesse curto intervalo, uma investigação conduzida pela Aeronáutica transformou-se em uma crise institucional, a Marinha aderiu à pressão pela saída do presidente e dezenas de generais defenderam seu afastamento. O episódio tornou agosto de 1954 um dos momentos mais dramáticos da história política brasileira do século XX.

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