Formigas, abelhas e cupins estão entre os exemplos mais complexos de organização social dos insetos. Suas colônias apresentam divisão de trabalho, cuidado cooperativo da prole e indivíduos especializados em reprodução, defesa e manutenção do grupo.
Esse sistema é chamado de eussocialidade. Ele envolve três características centrais: reprodução dividida entre os membros da colônia, gerações sobrepostas e cuidado cooperativo dos jovens. Apesar dessas semelhanças, os três grupos desenvolveram estruturas sociais diferentes.
Nas formigas, a colônia normalmente é formada por rainhas reprodutivas, machos e operárias. Em algumas espécies, também existem soldados especializados na defesa. As operárias são fêmeas e realizam tarefas como buscar alimento, cuidar das larvas, construir o ninho e proteger a colônia.
Nas abelhas, a divisão básica envolve rainha, operárias e zangões. A rainha é a principal fêmea reprodutiva. As operárias, também fêmeas, executam praticamente todas as atividades da colmeia. Os zangões são machos e têm como principal função reprodutiva fecundar rainhas.
Os cupins apresentam uma diferença fundamental. Tanto machos quanto fêmeas podem integrar as castas reprodutivas e não reprodutivas. O casal real é formado por um rei e uma rainha, enquanto operários e soldados podem ser de ambos os sexos.
Como as castas são determinadas?
Formigas e abelhas pertencem à ordem Hymenoptera e apresentam determinação sexual haplodiploide. Ovos não fertilizados originam machos haploides, enquanto ovos fertilizados originam fêmeas diploides.
Rainhas e operárias, portanto, são geneticamente fêmeas. A diferenciação entre essas castas envolve fatores como alimentação, desenvolvimento larval, hormônios e condições ambientais.
Nos cupins, o sistema é diferente. Eles pertencem à ordem Blattodea, a mesma que inclui as baratas, e machos e fêmeas são diploides. A formação das castas depende de sinais hormonais, ambientais e sociais durante o desenvolvimento.
Outra característica importante dos cupins é sua relação com microrganismos intestinais. Esses simbiontes permitem que eles aproveitem a celulose presente na madeira e em outros materiais vegetais. A digestão desse alimento seria impossível ou muito limitada sem essa comunidade microbiana.
Como ocorre a reprodução?
Em muitas espécies de formigas, uma jovem rainha realiza um voo nupcial e acasala com um ou vários machos. Depois, pode armazenar o esperma em uma estrutura chamada espermateca, utilizando-o durante grande parte de sua vida reprodutiva.
Nas abelhas, ocorre processo semelhante. A rainha realiza voos de acasalamento e armazena esperma para fertilizar ovos posteriormente. A quantidade e a duração do armazenamento variam conforme a espécie.
Nos cupins, o sistema é diferente. O rei permanece associado à rainha e pode fecundá-la repetidamente. Em algumas espécies, a rainha pode produzir enormes quantidades de ovos durante muitos anos.
Essa diferença reprodutiva ajuda a explicar uma característica marcante dos cupins: o casal fundador pode permanecer como núcleo reprodutivo da colônia por longos períodos, enquanto em muitas espécies de formigas e abelhas a rainha é fecundada antes de estabelecer ou assumir uma colônia.
A eussocialidade surgiu várias vezes?
Sim. A eussocialidade não possui uma única origem evolutiva entre todos esses insetos.
Formigas e abelhas pertencem a diferentes linhagens de Hymenoptera, nas quais a eussocialidade surgiu em momentos distintos da evolução. Os cupins desenvolveram esse sistema independentemente e possuem parentesco muito mais próximo com as baratas do que com formigas e abelhas.
A haplodiploidia foi proposta como um dos fatores que poderiam favorecer a evolução da cooperação em alguns himenópteros. Entretanto, ela não é uma explicação suficiente para a origem da eussocialidade, já que os cupins são diploides e também desenvolveram sociedades altamente organizadas.
Entre os fatores que podem favorecer a eussocialidade estão a necessidade de proteção coletiva, o cuidado prolongado com a prole, a permanência dos descendentes no ninho e os benefícios obtidos pela cooperação.
Por que essas colônias são tão eficientes?
A divisão de tarefas permite que diferentes indivíduos se especializem em funções específicas. Enquanto alguns buscam alimento, outros cuidam da prole, constroem o ninho ou defendem a colônia.
A comunicação também é fundamental. Formigas, abelhas e cupins utilizam diferentes sinais químicos, táteis, sonoros e comportamentais para coordenar suas atividades.
Essa organização pode produzir um comportamento coletivo complexo sem que exista um indivíduo controlando toda a colônia. Por isso, pesquisadores frequentemente utilizam o conceito de superorganismo para descrever algumas sociedades de insetos.
A mesma lógica de coordenação descentralizada também desperta interesse em áreas como robótica de enxame e estudo de sistemas complexos.
Cupins também cultivam fungos
Alguns cupins desenvolveram uma forma especializada de agricultura. Espécies da subfamília Macrotermitinae cultivam fungos do gênero Termitomyces dentro de seus ninhos.
Os cupins coletam e processam material vegetal, formando estruturas que servem de substrato para o crescimento dos fungos. Depois, utilizam esses fungos como alimento.
Essa associação entre cupins e fungos existe há milhões de anos e representa um dos exemplos mais impressionantes de agricultura praticada por animais.
Apesar de terem histórias evolutivas diferentes, formigas, abelhas e cupins chegaram a soluções semelhantes para problemas fundamentais: obter alimento, proteger o ninho e cuidar da próxima geração. É justamente essa combinação de cooperação, especialização e comunicação que tornou suas sociedades alguns dos sistemas coletivos mais sofisticados do mundo animal.
