Por que a viúva-negra devora o macho?

O canibalismo sexual da viúva-negra intriga biólogos há décadas e envolve estratégias reprodutivas distintas entre aranhas e louva-a-deus

HiperHistória
Imagem gerada por IA | HiperHistória

A viúva-negra, nome popular para aranhas do gênero Latrodectus, é conhecida por um comportamento em que a fêmea mata e devora o macho durante ou logo após a cópula, fenômeno chamado pelos biólogos de canibalismo sexual. Esse comportamento foi documentado com mais detalhe na aranha-costas-vermelhas (Latrodectus hasselti), espécie nativa da Austrália, em estudo publicado em 1996 na revista Science pela bióloga canadense Maydianne Andrade, hoje professora na Universidade de Toronto Scarborough. Andrade descreveu que o macho, durante a cópula, realiza uma cambalhota que posiciona seu abdômen diretamente sobre as quelíceras da fêmea, facilitando o próprio consumo, comportamento que ela classificou como forma extrema de investimento reprodutivo masculino. O gênero Latrodectus reúne mais de trinta espécies distribuídas por regiões tropicais e temperadas de vários continentes, e a intensidade do canibalismo sexual varia consideravelmente entre elas.

A explicação biológica mais aceita para o canibalismo sexual na viúva-negra está ligada à teoria do investimento parental e à competição espermática, conceito que descreve a disputa entre espermatozoides de machos diferentes para fertilizar os óvulos de uma mesma fêmea. Quando o macho é devorado durante a cópula, a duração da transferência de esperma tende a aumentar, e a fêmea se torna menos receptiva a acasalar novamente com outros machos, o que reduz a competição espermática e favorece a paternidade do macho consumido. Machos de Latrodectus hasselti possuem dois pedipalpos, órgãos copuladores emparelhados, o que permite que o segundo órgão ainda seja utilizado mesmo que o macho seja parcialmente devorado durante a primeira transferência de esperma. Essa característica anatômica sustenta a hipótese de que o sacrifício, em certas condições, pode aumentar o sucesso reprodutivo do macho em vez de representar apenas uma perda evolutiva.

Nem todo episódio de canibalismo sexual em viúvas-negras ocorre da mesma forma observada em laboratório, e essa distinção gerou debate acadêmico relevante. Os zoólogos australianos Mark Elgar, da Universidade de Melbourne, e Jutta Schneider, da Universidade de Hamburgo, publicaram revisões sobre o tema, apontando que experimentos em ambientes confinados, sem espaço para o macho escapar após a cópula, tendem a superestimar a frequência do canibalismo observada na natureza. Em condições de campo, com maior disponibilidade de fuga e menor densidade populacional, muitos machos de Latrodectus conseguem se afastar da fêmea após a cópula e sobreviver para acasalar novamente com outras parceiras.

O canibalismo sexual em outras espécies de aranhas

O comportamento não se restringe ao gênero Latrodectus e aparece, com variações consideráveis, em diversas famílias de aranhas ao redor do mundo. Na aranha-de-teia-dourada do gênero Nephila, encontrada em regiões tropicais da Ásia e da Oceania, fêmeas consideravelmente maiores que os machos ocasionalmente os consomem antes mesmo da cópula ser concluída, comportamento associado ao forte dimorfismo sexual de tamanho característico do grupo. Já na aranha-lobo, família Lycosidae, estudos indicam que o canibalismo sexual tende a ocorrer mais quando a fêmea está com baixa reserva energética, sugerindo motivação nutricional além da estratégia reprodutiva, achado discutido por pesquisadores que comparam diferentes gêneros de aracnídeos. Essa variação entre espécies mostra que o canibalismo sexual não segue um padrão único no mundo das aranhas e depende de fatores como tamanho relativo dos sexos, disponibilidade de alimento e estrutura do habitat.

O caso da aranha-viúva americana (Latrodectus mactans)

A viúva-negra americana, espécie Latrodectus mactans, encontrada principalmente no sul e no leste dos Estados Unidos, apresenta taxas de canibalismo sexual mais baixas em condições naturais do que a espécie australiana estudada por Andrade. Machos dessa espécie desenvolveram estratégias para reduzir o risco de serem devorados, como cortar parte dos fios da teia da fêmea antes da aproximação, comportamento que reduz vibrações e a chance de a fêmea confundir o parceiro com uma presa capturada na teia. Pesquisadores que estudam o gênero Latrodectus, incluindo trabalhos publicados em periódicos de comportamento animal, indicam que essa diferença comportamental entre a espécie americana e a australiana reforça a ideia de que o canibalismo sexual evoluiu de forma distinta dentro do próprio gênero, e não como característica fixa compartilhada por todas as viúvas-negras.

O comportamento das fêmeas de louva-a-deus

O louva-a-deus é o outro grupo de insetos mais associado popularmente ao canibalismo sexual, embora o fenômeno funcione de maneira distinta da observada em aranhas. A bióloga americana Katherine Barry, então na Universidade de Melbourne, e colaboradores publicaram em 2008, na revista Behavioral Ecology, estudo com o louva-a-deus-chinês (Tenodera sinensis) demonstrando que fêmeas bem alimentadas apresentam taxa de canibalismo sexual significativamente menor do que fêmeas mantidas com restrição alimentar em laboratório. Esse resultado indica que, ao menos nessa espécie, o consumo do macho está mais relacionado à necessidade nutricional imediata da fêmea do que a uma estratégia reprodutiva deliberada equivalente à descrita para a viúva-negra australiana. O biólogo americano William Brown, da Universidade de Buffalo, também conduziu pesquisas de campo com louva-a-deus mostrando que, em condições naturais com fartura de presas, o canibalismo sexual ocorre com frequência bem menor do que sugeriam observações antigas feitas exclusivamente em cativeiro.

Quando o canibalismo ocorre no louva-a-deus, o momento mais comum não é durante a cópula em si, mas antes ou depois do acasalamento completo, diferente do padrão descrito para a viúva-negra australiana, em que o consumo acontece durante a própria transferência de esperma. Estudos sobre a espécie europeia Mantis religiosa mostram que, quando a fêmea devora o macho após o acasalamento bem-sucedido, o valor nutricional do macho pode aumentar o número e a qualidade dos ovos produzidos, beneficiando indiretamente a prole gerada por aquele próprio acasalamento. Esse aspecto aproxima o comportamento do louva-a-deus da lógica reprodutiva observada em algumas aranhas, ainda que os mecanismos comportamentais que levam ao canibalismo sejam diferentes entre os dois grupos de artrópodes. A comparação entre viúva-negra e louva-a-deus, portanto, revela que o canibalismo sexual surgiu de forma independente em linhagens evolutivas distintas, fenômeno que biólogos classificam como evolução convergente.

Uma curiosidade pouco divulgada sobre a viúva-negra envolve justamente o macho da espécie australiana Latrodectus hasselti: por ser cerca de cem vezes menor que a fêmea, ele frequentemente já nasce condenado a viver poucas semanas como adulto, de modo que o sacrifício reprodutivo descrito por Maydianne Andrade em 1996 representa, na prática, quase o único momento em que esse macho consegue contribuir geneticamente para a geração seguinte.

Seguir:
HiperHistória revive os fatos mais importantes da história, um verdadeiro museu virtual das grandes curiosidades do presente e do passado.
Nenhum comentário