Cacau no Brasil: história e expansão da cultura

Introduzido na Bahia no século XVIII, o cacau transformou o sul do estado em uma das principais regiões produtoras do país e ajudou a formar cidades, fortunas e identidades culturais. Hoje, a produção também tem forte presença na Amazônia

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O cacau no Brasil tem uma história ligada às populações indígenas da Amazônia, à economia colonial e à transformação do sul da Bahia em uma importante região agrícola. O cacaueiro é originário das florestas tropicais da América do Sul, com ocorrência natural associada às bacias dos rios Amazonas e Orinoco. No território brasileiro, o cultivo ganhou importância inicialmente na Amazônia e, a partir do século XVIII, chegou à Bahia, onde encontraria condições favoráveis para uma expansão que mudaria profundamente a economia de Ilhéus e de municípios vizinhos.

Há registros de cultivo autorizado oficialmente no Brasil desde o século XVII, mas a introdução que marcou a história da lavoura baiana ocorreu em 1746. Segundo registros históricos reunidos pelo IBGE, sementes provenientes do Pará foram plantadas na Fazenda Cubículo, às margens do rio Pardo, na região do atual município de Canavieiras. A cultura demorou a prosperar inicialmente, mas encontrou no sul da Bahia clima quente e úmido, disponibilidade de terras e condições ambientais adequadas ao desenvolvimento do cacaueiro.

A expansão ganhou força durante o século XIX, especialmente em Ilhéus e nas áreas próximas aos rios Almada e Cachoeira. A região passou gradualmente de uma economia voltada à produção de alimentos, extração e abastecimento interno para uma economia de exportação, na qual o cacau ocupou posição crescente. A partir da segunda metade do século XIX, a cultura ganhou características de monocultura comercial e atraiu investimentos, trabalhadores e comerciantes de diferentes partes do Brasil e do exterior.

A formação da região cacaueira da Bahia

O crescimento da produção esteve relacionado a fatores ambientais e econômicos. A região tradicional de cultivo do sul da Bahia possui clima quente e úmido e condições que favoreceram a implantação do cacaueiro, inclusive em sistemas de cultivo sombreado. A disponibilidade de terras também facilitou a expansão da fronteira agrícola, enquanto a valorização do produto no mercado internacional aumentou o interesse de proprietários e comerciantes.

A demanda internacional cresceu, especialmente na segunda metade do século XIX. A expansão do consumo de chocolate na Europa e nos Estados Unidos ampliou o mercado para as amêndoas de cacau e contribuiu para a valorização do produto. Comerciantes de Salvador e investidores de outras localidades passaram a aplicar recursos na região, enquanto trabalhadores pobres provenientes da Bahia e de outros estados nordestinos migraram para o sul baiano em busca de oportunidades.

A sociedade formada em torno da lavoura era, entretanto, mais complexa do que a imagem posterior de uma região povoada apenas por grandes fazendeiros. Pesquisas históricas identificaram a participação de trabalhadores escravizados na economia cacaueira de Ilhéus durante o século XIX, contrariando uma narrativa construída posteriormente por parte das elites locais, segundo a qual suas fortunas teriam sido formadas exclusivamente pelo trabalho livre. A documentação analisada por historiadores demonstra a presença do trabalho africano escravizado na região.

Ilhéus e a chamada “civilização do cacau”

No início do século XX, Ilhéus havia se transformado no principal centro urbano da região cacaueira. O porto facilitava o escoamento da produção e a chegada de mercadorias, enquanto o crescimento das exportações estimulava comércio, construção urbana e serviços. A partir de 1904, o cacau passou a superar o fumo em valor de exportação e tornou-se o principal produto de exportação da Bahia, posição que manteve por décadas.

A prosperidade criou uma elite econômica poderosa, frequentemente associada na memória regional aos chamados coronéis do cacau. As disputas entre grupos tradicionais e os chamados “novos ricos” fizeram parte da política de Ilhéus nas primeiras décadas republicanas. A riqueza também financiou mudanças urbanas, estabelecimentos comerciais, residências e formas de lazer que ajudaram a construir a imagem de uma Ilhéus próspera e cosmopolita.

A composição da população também mudou. Migrantes nordestinos chegaram em busca de trabalho, enquanto estrangeiros e descendentes de imigrantes participaram do comércio e de outras atividades econômicas. Sírios e libaneses, por exemplo, chegaram ao sul da Bahia entre o final do século XIX e o início do XX, atraídos pelas oportunidades econômicas da região e pelas transformações provocadas pela economia cacaueira.

O cacau além da Bahia

Embora o sul da Bahia tenha adquirido enorme importância histórica, a cultura do cacau nunca ficou restrita ao estado. A Amazônia possui papel fundamental na história da espécie, que é nativa da floresta tropical sul-americana. O Pará tornou-se, nas últimas décadas, o principal produtor brasileiro, deslocando o centro de gravidade da produção nacional para a Região Norte.

Outros estados também participam da produção. A Ceplac atua na Bahia, Espírito Santo, Pará, Amazonas, Rondônia e Mato Grosso, refletindo a distribuição territorial da cacauicultura brasileira. Em 2026, as estimativas do IBGE apontavam o Pará como responsável por cerca de metade da produção nacional de amêndoas de cacau, enquanto a Bahia aparecia em segundo lugar, com participação estimada de 42,4%.

A presença do cacau em diferentes regiões está relacionada às condições ambientais e aos sistemas de cultivo empregados. No sul da Bahia, uma característica marcante é o cultivo sombreado, muitas vezes realizado sob a cobertura de árvores da Mata Atlântica. Esse sistema dificulta a distinção entre cacauais e florestas em imagens de satélite, mas também pode contribuir para a manutenção de cobertura vegetal, biodiversidade, estoques de carbono e recursos hídricos.

A crise da vassoura-de-bruxa e a recuperação

A prosperidade da região sofreu um golpe decisivo no final do século XX. Em 1989, a doença conhecida como vassoura-de-bruxa, causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa, foi detectada nas plantações do sul da Bahia. A doença atingiu fortemente os cacaueiros justamente quando a atividade já enfrentava dificuldades relacionadas aos preços internacionais e a problemas produtivos.

Os efeitos econômicos foram profundos. Segundo dados divulgados pela Secretaria da Agricultura da Bahia, a produção anual, que havia chegado a quase 400 mil toneladas em 1983/84, caiu para cerca de 96 mil toneladas em 1999. A crise provocou endividamento e falências, reduziu a renda regional e modificou profundamente a estrutura econômica de municípios que dependiam da lavoura.

A recuperação passou pela pesquisa agrícola, pela renovação das plantações e pela adoção de novas técnicas de manejo. A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), criada em 20 de fevereiro de 1957, teve papel central nesse processo, combinando pesquisa, extensão rural e ensino. Entre as décadas de 1960 e 1980, a produção brasileira cresceu mais de 300%, segundo o Ministério da Agricultura.

A cultura também passou a buscar maior agregação de valor. No sul da Bahia, parte dos produtores e empreendedores investiu na fabricação de chocolate e em experiências de turismo ligadas às fazendas de cacau. A transformação da amêndoa em produtos de maior valor comercial criou novas possibilidades para uma região que, durante muito tempo, esteve fortemente dependente da venda da matéria-prima.

Um detalhe ajuda a explicar a força cultural adquirida pelo cacau no sul baiano: a região produziu uma memória própria, posteriormente chamada de “civilização do cacau” por autores e pesquisadores. Essa imagem foi reforçada por relatos de viajantes, pela historiografia regional e pela literatura de escritores como Jorge Amado, cuja obra Gabriela, cravo e canela, publicada em 1958, ambientou parte de sua narrativa em uma Ilhéus dos anos 1920 marcada pela riqueza e pelas tensões sociais produzidas pela economia cacaueira.

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