O Vale do São Francisco reúne hoje um dos polos de fruticultura irrigada mais importantes do Brasil, com destaque para manga e uva produzidas para exportação. A transformação da região semiárida em área agrícola de alta produtividade resultou de um processo iniciado pelo governo federal na década de 1950, com estudos sobre o aproveitamento das águas do rio São Francisco. Os municípios de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, tornaram-se o centro dessa produção. O rio São Francisco, que nasce em Minas Gerais e atravessa cinco estados até o Oceano Atlântico, forneceu a base hídrica para todo o projeto.
A Comissão do Vale do São Francisco (CVSF), criada em 1948, foi o primeiro órgão federal dedicado ao planejamento da região. Ao longo da década de 1950, a CVSF patrocinou estudos sociais e ambientais em parceria com a Escola Livre de Sociologia e Política e com o Institute of Social Anthropology, ligado à Smithsonian Institution, dos Estados Unidos. O sociólogo norte-americano Donald Pierson coordenou parte dessas pesquisas, que resultaram em três volumes publicados apenas em 1972, pela Superintendência do Vale do São Francisco. Esses levantamentos mapearam as manchas de solo irrigáveis ao longo do rio, informação que orientaria decisões posteriores sobre onde instalar os perímetros de irrigação.
Esses estudos iniciais definiram as bases técnicas para transformar a caatinga, vegetação típica do semiárido nordestino, em áreas agricultáveis. Sem esse mapeamento, a escolha dos primeiros perímetros de irrigação teria sido feita sem critérios técnicos sobre solo, disponibilidade de água e viabilidade econômica. A década de 1950 funcionou como fase de planejamento, anterior à implantação física das primeiras estruturas de irrigação, que só ganhariam corpo na década seguinte.
A cooperação técnica de Israel e Hungria na irrigação do São Francisco
Na década de 1960, técnicos internacionais chegaram ao semiárido nordestino para orientar a implantação prática dos primeiros sistemas de irrigação no Vale do São Francisco. Especialistas de Israel, país com longa experiência em agricultura em clima árido, e da Hungria, nação com tradição em engenharia hidráulica, participaram do desenho dos primeiros perímetros irrigados da região. Essa cooperação técnica internacional ajudou o governo brasileiro a adaptar métodos testados em outros climas semiáridos às condições específicas do rio São Francisco.
Entre 1963 e 1964, o governo federal instalou estações experimentais em Petrolina e em Juazeiro, cidades separadas apenas pelo rio São Francisco. Esses núcleos testaram técnicas de irrigação, adubação e manejo de solo antes de qualquer investimento em larga escala. Os resultados obtidos orientaram diretamente a escolha dos primeiros perímetros públicos de irrigação, construídos ainda na mesma década.
A criação da Codevasf e a expansão dos perímetros irrigados
Em 1967, a CVSF foi substituída pela Superintendência do Vale do São Francisco (Suvale), órgão que ampliou o alcance das políticas de irrigação na região. Sete anos depois, em 1974, o governo federal criou a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), que assumiu a responsabilidade direta pela construção de canais, barragens e infraestrutura pública de apoio à agricultura irrigada. A criação da Codevasf marcou a transição de uma fase de estudos para uma fase de obras concretas.
A Codevasf herdou os projetos-piloto testados na década anterior e passou a construir perímetros de irrigação em escala industrial. Em 1979, o Congresso Nacional aprovou a Lei nº 6.662, primeira legislação brasileira específica sobre irrigação, regulamentada apenas em 1984 pelo Decreto nº 89.496. Essa base legal deu segurança jurídica aos investimentos públicos e privados que se seguiriam nas décadas seguintes ao longo do Vale do São Francisco.
Os perímetros de Bebedouro, Mandacaru e Nilo Coelho
O perímetro de Bebedouro, em Petrolina, tornou-se o primeiro projeto de irrigação construído no polo Petrolina-Juazeiro, em 1968. Ele funcionou, junto ao perímetro de Mandacaru, em Juazeiro, como laboratório para testar a viabilidade econômica da fruticultura irrigada no semiárido. Os resultados positivos desses dois projetos justificaram, nas décadas seguintes, novos investimentos federais na região.
O perímetro Senador Nilo Coelho, hoje o maior e mais produtivo da região, começou a funcionar apenas em 1984, dez anos depois da criação da Codevasf. Outros perímetros, como Curaçá, Maniçoba, Tourão e Salitre, complementaram a rede pública de irrigação ao longo do rio São Francisco. Juntos, esses projetos consolidaram Petrolina e Juazeiro como o principal polo de fruticultura irrigada do semiárido brasileiro.
Da fruticultura de subsistência à exportação global de frutas
Nos primeiros anos, os perímetros irrigados do Vale do São Francisco produziam sobretudo culturas de ciclo curto, como cebola, melão e tomate, destinadas ao mercado interno. A partir da década de 1980, produtores passaram a investir em culturas permanentes de maior valor agregado, como manga e uva, voltadas à exportação. O primeiro grande esforço de exportação de frutas da região ocorreu em 1987, quando empresas do polo Petrolina-Juazeiro passaram a enviar uva de mesa para mercados internacionais.
A viticultura também deu origem a uma indústria vinícola no Vale do São Francisco, hoje reconhecida como uma das regiões produtoras de vinhos finos mais próximas da linha do Equador no mundo. O primeiro vinho fino da região, produzido sob a marca Boticelli, saiu em 1984, antes mesmo da consolidação das exportações de uva de mesa. Vinícolas como Fazenda Milano e Fazenda Ouro Verde reforçaram, nas décadas de 1980 e 1990, essa vocação vitivinícola do semiárido irrigado.
Atualmente, a Codevasf administra 39 perímetros de irrigação distribuídos por Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, responsáveis por um valor bruto de produção superior a R$ 8 bilhões por ano no Vale do São Francisco. Uma curiosidade histórica pouco lembrada é que dez desses perímetros, reunidos no chamado Sistema Itaparica, foram implantados pela Companhia Hidroelétrica do São Francisco na década de 1990, para reassentar famílias deslocadas pela formação do lago da usina de Luiz Gonzaga, em Pernambuco — um capítulo que liga a história da energia elétrica à da fruticultura irrigada no rio São Francisco.