O exoplaneta K2-18 b concentra hoje um dos debates científicos mais intensos sobre a possibilidade de vida fora do Sistema Solar. Trata-se de um sub-Netuno — planeta maior que a Terra e menor que Netuno — que orbita a estrela anã vermelha K2-18, na constelação de Leão Menor. A discussão em torno de K2-18 b ganhou força depois que o Telescópio Espacial James Webb (JWST) detectou moléculas de carbono em sua atmosfera e, posteriormente, indícios ainda contestados de um possível gás associado a processos biológicos.
K2-18 b fica a cerca de 38 parsecs da Terra, o equivalente a aproximadamente 124 anos-luz, e sua existência foi relatada pela primeira vez em 2015 por Foreman-Mackey e colaboradores, com base em dados da missão K2 do telescópio Kepler. A confirmação do planeta veio no mesmo ano, por meio do trabalho de Benjamin Montet e sua equipe, complementado depois por observações de velocidade radial conduzidas por Ryan Cloutier e outros pesquisadores entre 2017 e 2019. Esses estudos estabeleceram os parâmetros orbitais básicos do planeta, que orbita sua estrela a cada 32,9 dias, a uma distância de apenas 0,16 unidade astronômica — bem mais próximo do que Mercúrio está do Sol.
Apesar dessa proximidade, K2-18 b recebe da sua estrela uma quantidade de radiação parecida com a que a Terra recebe do Sol, já que anãs vermelhas emitem muito menos energia que estrelas como a nossa. Essa característica coloca o planeta dentro da chamada zona habitável, faixa orbital em que a temperatura permitiria a existência de água líquida na superfície de um planeta rochoso. Por causa disso, K2-18 b tornou-se o principal candidato para testar a hipótese dos mundos “Hyceanos”, termo proposto em 2021 pelo astrônomo Nikku Madhusudhan, da Universidade de Cambridge, para descrever planetas cobertos por oceanos globais sob uma atmosfera espessa rica em hidrogênio.
Composição atmosférica: metano, dióxido de carbono e a hipótese do oceano
Antes da era do James Webb, observações do Telescópio Espacial Hubble já haviam sugerido a presença de vapor de água na atmosfera de K2-18 b, em estudos publicados por Björn Benneke e por Angelos Tsiaras em 2019. Análises posteriores mostraram, porém, que o sinal atribuído à água poderia ser confundido com o de metano, já que as duas moléculas produzem assinaturas espectrais semelhantes na faixa de comprimento de onda observada pelo Hubble — um problema técnico conhecido como degenerescência espectral.
Essa ambiguidade só foi resolvida em 2023, quando a equipe liderada por Nikku Madhusudhan usou o James Webb para detectar metano com confiança estatística de 5 sigma e dióxido de carbono com 3 sigma na atmosfera rica em hidrogênio do planeta. Essa confiança estatística indica o quanto um resultado científico é improvável de ter surgido por acaso: 5 sigma corresponde a um padrão de certeza normalmente exigido para anunciar descobertas de grande impacto na física e na astronomia. A detecção de moléculas baseadas em carbono, inéditas até então em um exoplaneta na zona habitável, reforçou a hipótese de que K2-18 b poderia abrigar um oceano sob sua atmosfera espessa. Gazeta do Povo
A controvérsia sobre o dimetilsulfeto como possível sinal de vida
Nas mesmas observações de 2023, os pesquisadores relataram um sinal mais fraco e tentativo de dimetilsulfeto (DMS), substância que na Terra é produzida majoritariamente pelo fitoplâncton marinho por meio de processos biológicos. Uma nova rodada de dados do instrumento MIRI do James Webb, divulgada por Madhusudhan e sua equipe em 2025, elevou a confiança estatística do sinal para cerca de 3 sigma e apontou também a possível presença de dissulfeto de dimetila (DMDS), com concentrações estimadas muito acima das encontradas na atmosfera terrestre. Esse anúncio repercutiu amplamente por levantar, pela primeira vez, a hipótese de uma bioassinatura gasosa fora do Sistema Solar.
Por que cientistas contestam a detecção de DMS em K2-18 b
A confiança de 3 sigma é significativamente menor que o padrão de 5 sigma normalmente exigido para descobertas robustas, o que abriu espaço para reanálises independentes dos mesmos dados. Pesquisadores como Luis Welbanks, Jake Taylor e Kevin Stevenson, em estudos publicados em 2025, não encontraram evidência estatisticamente significativa de DMS nos dados do James Webb, enquanto Måns Schmidt e colaboradores conseguiram reproduzir apenas a detecção de metano, sem confirmar DMS ou dióxido de carbono. Uma análise conjunta de dados dos instrumentos NIRISS, NIRSpec e MIRI, conduzida por Rafael Luque e sua equipe, concluiu que não há evidência suficiente para DMS ou DMDS, já que outras moléculas com estrutura química semelhante explicam igualmente bem o espectro observado.
Outro fator reduziu a força da hipótese biológica: o próprio DMS foi identificado em ambientes sem vida, como o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, em estudo de Nora Hänni publicado em 2024, e no meio interestelar, segundo trabalho de Miguel Sanz-Novo divulgado em 2025. Em paralelo, a equipe liderada por Renyu Hu, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, analisou quatro novas observações de trânsito feitas com o instrumento NIRSpec e confirmou de forma robusta a presença de metano e dióxido de carbono, mas encontrou apenas evidência marginal de DMS, além de identificar possíveis rotas químicas não biológicas para sua formação. Diante desse conjunto de reanálises, a comunidade científica hoje trata a suposta bioassinatura como não confirmada, embora o debate sobre a composição atmosférica do planeta continue aberto.
O que ainda falta descobrir sobre a atmosfera e o interior de K2-18 b
O estudo de Renyu Hu e sua equipe, publicado em 2025, indicou que K2-18 b provavelmente possui um interior rico em água, resultado consistente com a hipótese de um mundo Hyceano, mesmo sem confirmação da bioassinatura de DMS. A espectroscopia de trânsito, técnica usada em todas essas observações, revela apenas a composição das camadas superiores da atmosfera do planeta, deixando praticamente inacessíveis as condições em profundidade ou na hipotética superfície oceânica.
Essa limitação técnica explica por que cientistas de diferentes equipes, usando os mesmos dados brutos do James Webb, chegam a conclusões distintas sobre a presença ou ausência de determinadas moléculas: pequenas escolhas nos modelos estatísticos de análise podem alterar significativamente o resultado final. Por isso, praticamente todos os grupos de pesquisa envolvidos no debate concordam que novas observações, com maior precisão espectral, são necessárias antes de qualquer conclusão definitiva sobre biossinaturas em K2-18 b.
Mesmo distante do consenso sobre sinais de vida, K2-18 b já rendeu uma descoberta curiosa pouco divulgada: o mesmo composto químico — o dimetilsulfeto — que gerou manchetes como possível prova de vida no planeta também foi detectado flutuando no gelo do cometa 67P, um corpo rochoso e gelado sem qualquer atividade biológica, prova de que substâncias associadas à vida na Terra também podem se formar por processos puramente químicos no espaço.
