Cândido Rondon: o marechal dos sertões

Militar, engenheiro e indigenista, Rondon liderou expedições pelo Centro-Oeste e pela Amazônia, implantou linhas telegráficas e participou da criação da política indigenista brasileira

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Cândido Mariano da Silva Rondon, conhecido como Marechal Rondon, foi um militar, engenheiro e sertanista brasileiro que teve papel importante na integração territorial do país entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Nascido em 5 de maio de 1865, em Mimoso, no então Mato Grosso, dedicou grande parte da vida à implantação de linhas telegráficas, ao levantamento geográfico de regiões pouco conhecidas pelas autoridades e ao contato com diferentes povos indígenas. Também dirigiu o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), criado em 1910, e participou de expedições científicas que produziram registros sobre a geografia, a fauna, a flora e as populações do interior brasileiro.

Sua trajetória começou em uma família de recursos modestos. Ficou órfão ainda criança e foi criado por parentes, entre eles um tio de sobrenome Rondon, que posteriormente incorporou ao próprio nome. Estudou em Cuiabá, onde se preparou para o magistério, mas decidiu seguir a carreira militar. A formação em matemática, ciências físicas e naturais e engenharia militar forneceu os conhecimentos técnicos que seriam fundamentais para suas atividades no interior do Brasil.

A atuação de Rondon coincidiu com um período em que o governo republicano procurava ampliar sua presença sobre regiões distantes dos principais centros políticos e econômicos. A construção de linhas telegráficas, a definição de fronteiras e o reconhecimento de territórios tinham importância estratégica para a administração federal. Nesse processo, o militar estabeleceu contato com comunidades indígenas e desenvolveu uma política de aproximação que se tornou uma das marcas de sua biografia, embora suas ideias sobre integração indígena também estivessem ligadas às concepções positivistas de sua geração.

A formação militar e o início das expedições

Em 1881, Rondon concluiu sua formação para o magistério no Liceu Cuiabano e seguiu para o Rio de Janeiro, então capital do Império, com o objetivo de ingressar na Escola Militar. Estudou na Escola Militar da Praia Vermelha e recebeu influência intelectual de Benjamin Constant, professor e importante articulador do movimento republicano. O positivismo, corrente filosófica que valorizava a ciência, a organização racional da sociedade e o progresso, exerceu influência duradoura sobre seu pensamento.

Durante a juventude, Rondon participou dos movimentos abolicionista e republicano. Em 1888, envolveu-se com os grupos militares favoráveis à implantação da República, ocorrida em 15 de novembro de 1889. No ano seguinte, concluiu sua formação superior, obtendo os títulos relacionados à matemática e às ciências físicas e naturais, além de formação em engenharia militar. A carreira no Exército abriu caminho para sua participação em projetos de infraestrutura e reconhecimento territorial.

Em 1890, Rondon ingressou na Comissão Construtora de Linhas Telegráficas, inicialmente responsável pela ligação entre Cuiabá e a região do Araguaia. A comissão era chefiada pelo então major Gomes Carneiro, e seu trabalho exigia a abertura de caminhos, a instalação de postes, a construção de estações e o enfrentamento de dificuldades geográficas e climáticas. Rondon participou dessas atividades e, posteriormente, assumiu funções de chefia. A experiência permitiu que conhecesse extensas áreas do Mato Grosso e estabelecesse relações com comunidades indígenas da região.

Em 1892, casou-se com Francisca Xavier e assumiu novas responsabilidades na administração das linhas telegráficas em Mato Grosso. Durante os anos seguintes, trabalhou na ampliação da rede de comunicação e na ligação entre localidades afastadas. Também participou de levantamentos geográficos e atividades de reconhecimento territorial. Para o governo republicano, o telégrafo representava um instrumento de administração, defesa e integração nacional, pois permitia transmitir informações com maior rapidez entre regiões distantes.

A Comissão Rondon e a integração do território brasileiro

A partir de 1900, Rondon assumiu a chefia de uma nova comissão encarregada de ampliar as comunicações telegráficas em Mato Grosso. O trabalho ganhou outra dimensão em 1907, quando o presidente Afonso Pena confiou-lhe a missão de estender as linhas até o Amazonas e o Acre. A região acreana havia sido incorporada ao território brasileiro pelo Tratado de Petrópolis, assinado em 1903, e sua integração administrativa era uma preocupação do governo federal. A expedição passou a ser conhecida como Comissão Rondon, embora sua denominação oficial fosse Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas.

As expedições enfrentavam obstáculos consideráveis. Os integrantes precisavam atravessar florestas, rios, áreas alagadas e regiões de difícil acesso, além de lidar com doenças tropicais e problemas de abastecimento. A equipe instalava estações telegráficas, abria caminhos e realizava levantamentos topográficos para orientar a construção da infraestrutura. O trabalho também produzia informações sobre rios, relevo, vegetação, animais e comunidades indígenas que habitavam os territórios percorridos.

A Comissão Rondon ultrapassou a função de instalar equipamentos de comunicação. Naturalistas, cartógrafos e outros especialistas participaram das atividades, produzindo estudos científicos que ampliaram o conhecimento sobre o interior brasileiro. Entre os pesquisadores associados às expedições estavam o antropólogo Edgar Roquette-Pinto e o zoólogo Alípio de Miranda Ribeiro. Os registros reunidos incluíam fotografias, mapas, descrições linguísticas e informações etnográficas, constituindo um acervo relevante para diferentes áreas do conhecimento.

As linhas telegráficas também tinham uma dimensão geopolítica. Ao estabelecer postos de comunicação em regiões afastadas, o governo pretendia fortalecer sua presença administrativa e estratégica nas fronteiras com países vizinhos. O reconhecimento territorial ajudava a produzir mapas mais precisos e a identificar áreas de interesse econômico e militar. A expansão das comunicações, portanto, estava relacionada à consolidação do Estado republicano e à ocupação institucional do interior.

O contato com os povos indígenas

Durante as expedições, Rondon estabeleceu relações com diferentes povos indígenas, entre eles os Bororo, Terena, Nambikwara e grupos que habitavam áreas da Amazônia. Defendia que os contatos deveriam evitar confrontos armados e procurava estabelecer aproximações por meio de presentes, gestos e negociações. Sua orientação ficou associada à frase “Morrer, se preciso for; matar, nunca”, que expressava o princípio de evitar a violência contra as populações encontradas.

Essa atuação contribuiu para que Rondon se tornasse uma referência na defesa da proteção indígena. Entretanto, sua concepção de indigenismo estava ligada ao positivismo e à ideia de que os povos indígenas seriam gradualmente incorporados à sociedade nacional. A política de proteção defendida por ele não correspondia à noção contemporânea de autonomia dos povos originários, que reconhece o direito à preservação de suas culturas, línguas, territórios e formas próprias de organização. Por isso, sua trajetória precisa ser compreendida considerando tanto as iniciativas de proteção quanto os limites da visão assimilacionista predominante nas instituições de seu período.

Em algumas regiões, Rondon atuou para impedir conflitos entre indígenas e fazendeiros, buscando o reconhecimento de territórios tradicionalmente ocupados. Os levantamentos realizados em áreas habitadas por comunidades Terena, especialmente em Ipegue e Cachoeirinha, contribuíram para o reconhecimento de direitos territoriais pelo governo de Mato Grosso. Essas iniciativas, contudo, não eliminaram os conflitos provocados pela expansão da propriedade rural e pela ocupação econômica dos territórios indígenas.

O Serviço de Proteção aos Índios e as grandes expedições

Em 1910, durante o governo de Nilo Peçanha, foi criado o Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN), posteriormente conhecido como Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Rondon assumiu a direção da instituição, cuja finalidade era estabelecer uma política federal de assistência e proteção às populações indígenas. O órgão deveria atuar na mediação de conflitos, na instalação de postos de atendimento e na aproximação entre comunidades indígenas e autoridades governamentais.

A criação do SPI representou uma mudança institucional importante, pois a questão indígena passou a contar com um organismo federal específico. Entretanto, a política oficial também pretendia integrar os indígenas à sociedade nacional e ao sistema de trabalho. Essa orientação refletia a concepção tutelar do Estado brasileiro, que não reconhecia plenamente a autonomia dos povos originários. Além disso, a atuação do serviço enfrentou dificuldades administrativas, falta de recursos e problemas relacionados à ocupação de terras indígenas.

Rondon continuou envolvido em atividades científicas e de reconhecimento geográfico mesmo depois de assumir a direção do órgão. Em 1912, organizou uma seção de fotografia e cinematografia no SPI para registrar as expedições e divulgar imagens dos povos indígenas e das regiões percorridas. O material servia como documentação das atividades institucionais e também como instrumento de divulgação junto às autoridades e à sociedade brasileira. As fotografias e os filmes produzidos nesse contexto adquiriram importância histórica e antropológica.

Em 1913, Rondon recebeu a missão de acompanhar o ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt em uma expedição científica pelo interior do Brasil. Roosevelt havia deixado a Presidência dos Estados Unidos em 1909 e visitava a América do Sul quando participou da viagem organizada entre dezembro de 1913 e abril de 1914. A expedição ficou conhecida como Roosevelt-Rondon e percorreu uma região que incluía o rio Paraguai e o sistema do rio Amazonas. O objetivo era explorar o rio da Dúvida, cuja localização e extensão ainda eram pouco conhecidas.

A viagem foi marcada por dificuldades de navegação, doenças, acidentes e escassez de alimentos. O rio da Dúvida foi explorado e recebeu posteriormente o nome de rio Roosevelt, em homenagem ao visitante norte-americano. A expedição produziu informações geográficas e científicas relevantes, além de ampliar a projeção internacional de Rondon. Roosevelt relatou a experiência em seu livro Through the Brazilian Wilderness, publicado em 1914, no qual descreveu as condições enfrentadas durante a viagem e o trabalho do militar brasileiro.

A atuação política, o reconhecimento e os últimos anos

Depois das grandes expedições, Rondon continuou exercendo funções importantes no Estado brasileiro. Em 1927, assumiu a Inspetoria de Fronteiras, encarregada de inspecionar os limites territoriais do país e reunir informações sobre regiões estratégicas. A atividade envolvia levantamentos geográficos, reconhecimento de áreas fronteiriças e acompanhamento de questões relacionadas à soberania nacional. Sua experiência acumulada nas expedições anteriores contribuiu para o desempenho dessa função.

Durante a década de 1930, participou de atividades diplomáticas e institucionais. Entre 1934 e 1938, presidiu a Comissão Mista Internacional Peru-Colômbia, responsável por acompanhar a execução do acordo de paz entre os dois países após o conflito envolvendo a região de Letícia. Em 1939, tornou-se presidente do Conselho Nacional de Proteção aos Índios, organismo que participou da formulação das políticas indigenistas brasileiras. Essas funções ampliaram sua atuação para além da engenharia militar e da exploração territorial.

Em 1952, Rondon apresentou ao presidente Getúlio Vargas uma proposta de criação de uma área de proteção indígena na região do Xingu. A iniciativa contribuiu para o movimento que defendia a preservação dos territórios e das comunidades indígenas da região. O Parque Nacional do Xingu, entretanto, somente seria criado em 1961, durante o governo de Jânio Quadros, três anos depois da morte do militar. O projeto contou com a participação de outras personalidades, entre elas os irmãos Villas-Bôas.

Cândido Rondon morreu em 19 de janeiro de 1958, no Rio de Janeiro, aos 92 anos. Recebeu homenagens de instituições militares, científicas e governamentais, que reconheceram sua participação na integração territorial e na organização da política indigenista brasileira. Em 1955, o Congresso Nacional havia aprovado sua promoção ao posto de marechal do Exército. Seu nome também foi associado à criação de instituições, projetos educacionais e iniciativas de reconhecimento da diversidade cultural do país.

Uma homenagem territorial particularmente significativa ocorreu em 1956, quando o antigo Território Federal do Guaporé passou a se chamar Território Federal de Rondônia, em reconhecimento à contribuição do militar para o conhecimento e a integração daquela região. Em 1981, quando o território foi transformado em estado, a denominação foi mantida. Atualmente, Rondônia preserva no próprio nome a memória de um personagem cuja atuação esteve diretamente ligada à expansão das comunicações e às expedições pelo interior brasileiro.

Uma característica singular da trajetória de Rondon foi sua participação na construção de um acervo científico que ultrapassou os objetivos militares das expedições. Em 1928, ele visitou o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, onde reencontrou pesquisadores que haviam participado de suas atividades de reconhecimento territorial. A instituição também havia colaborado com a Comissão Rondon por meio de equipes de naturalistas, responsáveis por estudar espécies animais e vegetais encontradas nas regiões exploradas. Parte dessa documentação permanece como testemunho da contribuição das expedições para a ciência brasileira.

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