É muito comum associarmos a rapadura diretamente à identidade nacional, especialmente à cultura nordestina e caipira. No entanto, a verdade histórica é um pouco mais abrangente: embora a rapadura tenha encontrado no Brasil o seu maior palco cultural, a sua certidão de nascimento não é brasileira.
A origem desse doce rústico e energético remonta às Ilhas Canárias (Espanha) e ao Arquipélago da Madeira (Portugal). Durante o século XVI, no alvorecer da Era dos Descobrimentos, os navegadores ibéricos precisavam de alimentos que resistissem a meses no mar sem estragar. O açúcar em pó umedecia e se perdia facilmente nos porões dos navios; a solução foi ferver o caldo de cana até que ele se tornasse um bloco sólido, durável e fácil de transportar.
De “raspadura” a combustível do Brasil Colonial
O próprio nome do doce revela a sua natureza humilde. Nos primeiros séculos de colonização, o açúcar branco e cristalizado era o “ouro doce”, destinado exclusivamente às mesas ricas da Europa. O que restava grudado nas paredes dos enormes tachos de cobre após a fervura do caldo era literalmente raspado, fervido novamente e colocado em formas de tijolo. Nascia assim a “raspadura”, que com o uso popular perdeu o “s” e virou rapadura.
Se para o mercado externo ela era um subproduto de menor valor, para o mercado interno brasileiro ela se tornou essencial. Por ser nutritiva, calórica e não perecível, a rapadura virou o alimento de sobrevivência e a “barra de energia” de diferentes grupos:
- Trabalhadores e Escravizados: Distribuída como ração diária nas senzalas e lavouras.
- Bandeirantes e Tropeiros: Carregada nos alforjes durante as longas expedições de desbravamento rumo ao Sudeste e Centro-Oeste do país, pois não derretia com o calor.
- Sertanejos: Combinada com farinha de mandioca, garantiu a subsistência de vaqueiros e populações locais durante os períodos de seca severa no Nordeste.
O que dizem as fontes históricas?
Para compreender a trajetória da rapadura com precisão, a historiografia e a sociologia brasileiras contam com obras fundamentais que documentaram esse processo. Abaixo, destaco as principais fontes que embasam a origem e a importância do doce:
- Luís da Câmara Cascudo — História da Alimentação no Brasil (1967): Considerada a “bíblia” da nossa culinária, esta obra atesta de forma categórica que a rapadura foi inventada nas Ilhas Canárias. Cascudo documenta como ela chegou ao Brasil e se transformou no “pão doce do sertanejo”.
- André João Antonil — Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas (1711): O jesuíta italiano serve como uma testemunha ocular e fonte primária valiosíssima. Em seu livro, ele descreve detalhadamente o cotidiano e a arquitetura dos primeiros engenhos de açúcar da Bahia, relatando as fornalhas e a feitura dos blocos sólidos a partir do melaço menos purificado.
- Gilberto Freyre — Açúcar: Algumas Receitas de Doces e Bolos dos Engenhos do Nordeste (1939) e Casa-Grande & Senzala (1933): O sociólogo pernambucano explora o impacto profundo da economia açucareira na formação da sociedade brasileira. Freyre destaca como a rapadura, ao lado da carne-seca e da farinha, formou a base nutricional que permitiu a colonização dos trópicos.
Hoje, a rapadura é um patrimônio afetivo irrevogável do Brasil. Ela nos mostra como uma técnica importada por necessidade marítima foi moldada pelo nosso clima, pelos engenhos e pelas mãos dos trabalhadores para se tornar um ícone genuíno da nossa história.
