A história do movimento neopentecostal

HiperHistória
Pregação das 95 teses de Lutero - Pintura de Julius Hübner (Domínio público)

O neopentecostalismo é a vertente mais recente do Pentecostalismo, surgida na segunda metade do século XX dentro do cristianismo protestante. A corrente se diferencia do pentecostalismo clássico por concentrar sua pregação em três eixos: prosperidade financeira, guerra espiritual contra forças demoníacas e uso estratégico de rádio, televisão e internet. No Brasil, o marco fundador ocorreu em 1977, no Rio de Janeiro, com a criação da Igreja Universal do Reino de Deus pelo bispo Edir Macedo. O sociólogo Ricardo Mariano, da Universidade de São Paulo (USP), é uma das principais referências acadêmicas para compreender essa transformação religiosa, descrita em seu livro “Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil“.

Para entender a origem do neopentecostalismo, é necessário recuar à ruptura entre protestantismo e catolicismo romano, iniciada em 1517 pela Reforma Protestante. Martinho Lutero, monge alemão que fixou suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, deu início ao processo de contestação da autoridade papal. João Calvino, em Genebra, e Ulrico Zuínglio, em Zurique, ampliaram a ruptura ao proporem novas formas de organização eclesiástica e de interpretação bíblica. A Reforma não gerou diretamente o pentecostalismo, mas abriu caminho para a pluralidade de igrejas protestantes que, séculos depois, tornaria possível o surgimento de movimentos como o pentecostal.

O protestantismo chegou à América do Norte no século XVII, levado por comunidades como os puritanos ingleses, que buscavam liberdade para praticar sua fé fora do controle das igrejas estatais europeias. Esse ambiente de pluralismo religioso, somado à ausência de uma igreja oficial nos Estados Unidos, favoreceu o surgimento de novas denominações ao longo dos séculos XVIII e XIX. Movimentos de avivamento espiritual, como o chamado Grande Despertamento, reforçaram a ênfase na experiência religiosa individual e na conversão pessoal. Foi nesse terreno cultural e religioso que o pentecostalismo nasceria no início do século seguinte.

Pentecostalismo nasceu nos Estados Unidos no início do século XX

O pentecostalismo propriamente dito surgiu nos Estados Unidos em 1906, tendo como marco fundador o avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles. O movimento foi liderado pelo pregador afro-americano William J. Seymour, filho de pais que haviam nascido escravizados, reunia fiéis de diferentes origens étnicas em um contexto de forte segregação racial. Os cultos na Rua Azusa se caracterizavam por manifestações consideradas sobrenaturais, como a glossolalia, conhecida como “falar em línguas”, além de relatos de curas físicas e profecias. O historiador americano Vinson Synan documentou esse episódio como o ponto de partida do pentecostalismo moderno em obras de referência sobre a tradição holiness-pentecostal.

A partir da Rua Azusa, missionários pentecostais levaram a nova doutrina a diferentes países, incluindo o Brasil. Em 1910, chegou ao país o sueco Luís Francescon, que fundou a Congregação Cristã no Brasil, em São Paulo. Em 1911, os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren desembarcaram em Belém, no Pará, e fundaram a Assembleia de Deus, hoje a maior denominação pentecostal do país. O sociólogo Paul Freston, um dos principais estudiosos do protestantismo brasileiro, descreve essa fase inicial como a “primeira onda” do pentecostalismo nacional, marcada pelo rigor comportamental e pelo distanciamento da vida política e cultural.

Décadas depois, uma “segunda onda” pentecostal chegou ao Brasil com características distintas. A Igreja do Evangelho Quadrangular, fundada nos Estados Unidos em 1923 pela pregadora Aimee Semple McPherson, iniciou suas atividades no Brasil em 1953, por meio do missionário Harold Williams. Nesse mesmo período, surgiram igrejas nacionais como a Igreja Pentecostal Deus é Amor, fundada em 1962 por David Miranda, e a Igreja O Brasil para Cristo, fundada em 1955 por Manoel de Mello. Segundo Freston, essa segunda fase manteve boa parte do rigor moral da primeira onda, mas passou a adotar métodos de evangelização mais próximos da cultura popular urbana.

Neopentecostalismo: a terceira onda do pentecostalismo no Brasil

A “terceira onda” do pentecostalismo brasileiro, identificada por Paul Freston, corresponde ao que hoje se chama de neopentecostalismo. Segundo Ricardo Mariano, essa corrente se distingue das duas ondas anteriores por abandonar exigências comportamentais rígidas, como restrições de vestimenta e lazer, e por concentrar a pregação na Teologia da Prosperidade e na guerra espiritual contra entidades demoníacas. As igrejas neopentecostais também adotaram um modelo de gestão empresarial, com investimento pesado em concessões de rádio e televisão. Essa combinação de elementos permitiu um crescimento acelerado a partir da década de 1970, especialmente nos grandes centros urbanos brasileiros.

O marco fundador da terceira onda foi a criação da Igreja Universal do Reino de Deus, em 9 de julho de 1977, na cidade do Rio de Janeiro, por Edir Macedo Bezerra. A denominação surgiu em um antigo espaço de funerária no bairro da Abolição, zona norte da cidade, comprado por Macedo para abrigar os primeiros cultos. O teólogo Leonildo Silveira Campos, autor do livro “Teatro, Templo e Mercado”, analisou o modelo de organização e marketing da Universal, apontando o uso intensivo de meios de comunicação como fator central de sua expansão. A igreja se tornou proprietária da Rede Record de Televisão em 1989, consolidando um dos maiores grupos de mídia religiosa do país.

Outras denominações neopentecostais surgiram no Brasil nas décadas seguintes, ampliando a diversidade da terceira onda. Romildo Ribeiro Soares, conhecido como Missionário R. R. Soares e cunhado de Edir Macedo, fundou a Igreja Internacional da Graça de Deus em 9 de junho de 1980, no município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, após uma disputa de liderança dentro da Universal. Em fevereiro de 1992, o bispo Robson Rodovalho e Maria Lúcia Rodovalho fundaram em Brasília a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra. Já em 1998, o ex-bispo da Universal Valdemiro Santiago fundou em São Paulo a Igreja Mundial do Poder de Deus, reforçando a ênfase neopentecostal em curas e libertações espirituais.

Expansão internacional do neopentecostalismo

O modelo neopentecostal também floresceu fora do Brasil, adaptando-se a diferentes contextos culturais. Na Austrália, o casal Brian e Bobbie Houston fundou em 1983, em Sydney, a Hills Christian Life Centre, que mais tarde se tornaria a Hillsong Church, conhecida por combinar pregação carismática com música contemporânea de alcance mundial. Nos Estados Unidos, o pregador Kenneth Copeland tornou-se uma das principais lideranças ligadas à Teologia da Prosperidade por meio de seu ministério televisivo. O sociólogo britânico David Martin, autor de “Tongues of Fire: The Explosion of Protestantism in Latin America“, atribuiu essa expansão global à capacidade de adaptação cultural dessas igrejas e ao uso pioneiro de meios eletrônicos de comunicação.

Teologia da prosperidade e guerra espiritual no neopentecostalismo

A Teologia da Prosperidade, um dos pilares doutrinários do neopentecostalismo, interpreta que a fé genuína e as ofertas financeiras a Deus resultam em bênçãos materiais para o fiel. O teólogo americano Harvey Cox, autor de “Fire from Heaven: The Rise of Pentecostal Spirituality and the Reshaping of Religion in the 21st Century”, analisou como essa doutrina se popularizou em contextos de desigualdade social, oferecendo uma narrativa de ascensão pessoal por meio da fé. Igrejas protestantes históricas, como luteranas, presbiterianas e batistas tradicionais, costumam criticar essa teologia por considerá-la uma distorção da mensagem cristã original. Líderes neopentecostais, por sua vez, argumentam que a doutrina responde às necessidades concretas de populações de baixa renda.

A guerra espiritual é o segundo pilar doutrinário do movimento, baseado na crença de que problemas cotidianos, como doenças, desemprego e conflitos familiares, têm origem em forças demoníacas que devem ser combatidas por meio de oração e rituais de libertação. A antropóloga brasileira Patrícia Birman estudou os rituais de exorcismo praticados em igrejas neopentecostais, mostrando como essas práticas frequentemente estabelecem oposição simbólica a religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé. Essa dimensão de confronto religioso gerou controvérsias públicas e processos judiciais envolvendo lideranças neopentecostais ao longo das últimas décadas. A prática de “descarrego”, ritual de expulsão de espíritos considerados malignos, tornou-se um dos elementos mais característicos dos cultos dessas igrejas.

A relação entre o neopentecostalismo e outras tradições protestantes permanece marcada por tensões teológicas. Embora compartilhem a origem comum na Reforma do século XVI, denominações históricas frequentemente acusam as igrejas neopentecostais de praticarem uma religiosidade excessivamente espetacular e comercial. Paul Freston documentou como esse conflito se estendeu também ao campo político, com o crescimento da chamada bancada evangélica no Congresso Nacional a partir da década de 1980. Segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2010, os evangélicos representavam 22,2% da população brasileira, um salto expressivo em relação aos 15,4% registrados no censo de 2000, crescimento atribuído em grande parte à expansão neopentecostal.

O neopentecostalismo ocupa hoje posição relevante na política, na mídia e na cultura popular brasileira, com denominações como a Universal, a Internacional da Graça de Deus e a Mundial do Poder de Deus mantendo redes próprias de rádio e televisão. Essa presença institucional consolidou o Pentecostalismo, em suas diferentes ondas, como uma das forças religiosas de maior crescimento no cristianismo global ao longo do século 20 e início do 21. Uma curiosidade histórica ilustra bem essa trajetória: o templo original do avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles, funcionava em um antigo galpão que havia servido como estábulo e depósito de uma igreja metodista, um espaço modesto que, décadas depois, seria reconhecido por historiadores como o berço de um movimento hoje praticado por centenas de milhões de pessoas em todos os continentes.

Seguir:
HiperHistória revive os fatos mais importantes da história, um verdadeiro museu virtual das grandes curiosidades do presente e do passado.