Refrigerante: origem, riscos à saúde e novas fórmulas

Criado a partir das experiências científicas com água gaseificada, o refrigerante conquistou o mundo e se transformou em uma das bebidas mais consumidas

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O refrigerante surgiu da combinação entre descobertas químicas, experiências farmacêuticas e interesses comerciais. Sua origem está relacionada ao desenvolvimento da água carbonatada no século XVIII, quando cientistas europeus descobriram maneiras de dissolver dióxido de carbono na água. A bebida que inicialmente despertava interesse medicinal e científico transformou-se em um produto industrial de consumo mundial.

A popularização dos refrigerantes ocorreu principalmente a partir do século XIX, com o crescimento das farmácias que mantinham fontes de água gaseificada e ofereciam xaropes aromatizados. Com o desenvolvimento das técnicas de engarrafamento, essas bebidas deixaram de depender dos estabelecimentos comerciais e passaram a chegar diretamente às residências. No século XX, campanhas publicitárias, distribuição em larga escala e expansão internacional consolidaram o setor.

Entretanto, o sucesso comercial trouxe questionamentos sobre seus efeitos na alimentação. Refrigerantes tradicionais apresentam quantidades elevadas de açúcar, fornecem energia sem oferecer nutrientes essenciais em proporções significativas e estão associados a problemas metabólicos e odontológicos. Diante das preocupações de profissionais de saúde e consumidores, fabricantes passaram a investir em versões com menos açúcar, adoçantes alternativos e novas combinações de ingredientes.

A origem do refrigerante e a descoberta da água gaseificada

A etapa científica começou em 1767, quando o químico inglês Joseph Priestley (1733–1804) descobriu uma maneira de incorporar dióxido de carbono à água. Ele realizou experiências utilizando o gás produzido durante a fermentação da cerveja. Em 1772, publicou o trabalho Directions for Impregnating Water with Fixed Air, no qual apresentou seu método de produção de água gaseificada. O experimento contribuiu para o desenvolvimento das bebidas carbonatadas.

A produção comercial ganhou impulso com o farmacêutico Thomas Henry, de Manchester, que fabricava águas minerais artificiais na década de 1770. Outro personagem decisivo foi o relojoeiro suíço Jacob Schweppe, que aperfeiçoou os métodos de carbonatação e fundou, em 1783, uma empresa dedicada à comercialização de água gaseificada em Genebra. A marca Schweppes tornou-se uma referência nesse mercado e ajudou a popularizar as bebidas com gás na Europa.

Inicialmente, a água carbonatada era associada às propriedades medicinais atribuídas às fontes minerais naturais. Farmácias e estabelecimentos especializados ofereciam a bebida misturada a xaropes de frutas e outros ingredientes aromáticos. Esses locais ficaram conhecidos como soda fountains, ou fontes de refrigerante, e se transformaram em importantes espaços de consumo e sociabilidade, especialmente nos Estados Unidos durante o século XIX. A combinação de água gaseificada e xaropes açucarados estabeleceu as bases do refrigerante moderno.

Da farmácia às grandes marcas internacionais

A expansão comercial dos refrigerantes ganhou um símbolo em 1886, quando o farmacêutico norte-americano John Stith Pemberton (1831–1888) criou a fórmula da Coca-Cola, em Atlanta, no estado da Geórgia. A bebida começou a ser comercializada em 8 de maio daquele ano, na Jacobs’ Pharmacy, onde era servida com água gaseificada. Seu primeiro ano registrou uma média de aproximadamente nove copos vendidos por dia.

A fórmula original da Coca-Cola continha extratos de folhas de coca e noz-de-cola, ingrediente que fornecia cafeína. A bebida também foi inicialmente divulgada com apelos relacionados às propriedades tônicas e medicinais, algo comum no mercado de preparados farmacêuticos daquele período. O nome foi sugerido pelo contador e sócio de Pemberton, Frank Robinson, responsável também pela escrita característica da marca. A empresa Coca-Cola foi fundada em 1892, depois que o empresário Asa Griggs Candler adquiriu os direitos comerciais do produto.

A industrialização e o aperfeiçoamento das embalagens permitiram que os refrigerantes alcançassem consumidores distantes das fontes e farmácias. Em 1894, Joseph Biedenharn começou a engarrafar Coca-Cola em sua fábrica de Mississippi, nos Estados Unidos. Cinco anos depois, um acordo com empresários de Chattanooga estabeleceu as bases de um sistema de engarrafamento e distribuição em escala maior. Durante o século XX, a publicidade, o crescimento dos supermercados e a expansão das multinacionais transformaram a bebida em um produto de consumo cotidiano.

Por que o refrigerante pode prejudicar a saúde?

O principal problema nutricional dos refrigerantes tradicionais é a elevada concentração de açúcares livres, geralmente adicionados durante a fabricação na forma de sacarose ou xarope de glicose e frutose. Esses ingredientes fornecem calorias, mas não oferecem quantidades relevantes de vitaminas, fibras ou proteínas. Como são bebidas de consumo fácil e rápido, podem contribuir para uma ingestão energética excessiva, especialmente quando substituem água ou outras opções sem açúcar.

O consumo frequente de bebidas açucaradas está associado ao aumento do risco de sobrepeso, obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. O excesso de açúcar também favorece o desenvolvimento de cáries, pois as bactérias presentes na boca utilizam esses carboidratos e produzem ácidos que atacam o esmalte dentário. Estudos epidemiológicos e orientações de instituições de saúde identificam essas bebidas como uma importante fonte de açúcar adicionado na alimentação. CDC+2

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que adultos e crianças reduzam o consumo de açúcares livres para menos de 10% da ingestão energética diária. A entidade considera que uma redução adicional, abaixo de 5%, pode proporcionar benefícios complementares, especialmente para a saúde bucal. Em uma alimentação de 2.000 calorias, esses percentuais correspondem, respectivamente, a menos de 50 gramas e aproximadamente 25 gramas de açúcar por dia. O limite considera todos os alimentos e bebidas consumidos, não somente os refrigerantes.

Outro problema está relacionado à acidez dessas bebidas. Muitos refrigerantes contêm ácido fosfórico ou ácido cítrico, utilizados para proporcionar sabor e controlar características da formulação. A exposição frequente aos ácidos pode provocar erosão dentária, processo químico que desgasta o esmalte dos dentes. Esse risco não depende exclusivamente da presença de açúcar: bebidas gaseificadas sem açúcar também podem apresentar acidez suficiente para contribuir para o desgaste dental.

A cafeína também merece atenção em determinadas formulações, especialmente nas bebidas de cola e nos refrigerantes energéticos. Quando consumida em excesso, pode provocar alterações no sono, agitação e palpitações em pessoas mais sensíveis. Crianças e adolescentes exigem cuidados adicionais, pois a ingestão frequente de bebidas muito açucaradas pode favorecer a formação de hábitos alimentares inadequados durante o desenvolvimento. O problema, portanto, envolve tanto a composição dos produtos quanto a frequência e a quantidade consumidas.

Como a indústria tenta produzir refrigerantes mais saudáveis?

A pressão de consumidores, profissionais de saúde e autoridades sanitárias estimulou fabricantes a desenvolver produtos com menor concentração de açúcar. Uma das principais estratégias consiste em substituir parte ou a totalidade do açúcar por adoçantes de alta intensidade, que proporcionam sabor doce em quantidades muito menores. Entre as substâncias utilizadas estão aspartame, sucralose, acessulfame de potássio e glicosídeos de esteviol, extraídos da planta conhecida como estévia.

Um exemplo conhecido é a Coca-Cola Zero Açúcar, desenvolvida para oferecer o sabor característico da marca sem adicionar açúcar à formulação. A empresa também reformulou o produto para aproximar seu sabor daquele encontrado na versão tradicional. Outra estratégia é ampliar a oferta de bebidas com diferentes níveis de açúcar, permitindo que o consumidor escolha versões convencionais, com redução de açúcar ou sem esse ingrediente. The Coca-Cola Company+1

No mercado brasileiro, a FYS, marca pertencente ao Grupo Heineken, apresenta refrigerantes com sabores como laranja-pera, limão-siciliano e guaraná com 50% menos açúcar em comparação com a média de mercado indicada pela fabricante. A empresa também comercializa uma versão de água tônica sem açúcar e calorias. A proposta demonstra outra possibilidade de reformulação: diminuir a quantidade de açúcar sem eliminar completamente o ingrediente. Fys

A redução de açúcar, entretanto, não significa necessariamente que o produto tenha se transformado em uma bebida nutritiva. A OMS publicou, em 2023, uma diretriz que recomenda não utilizar adoçantes sem açúcar como estratégia de controle de peso ou prevenção de doenças crônicas. A orientação é condicional e não representa uma declaração de que todos esses ingredientes sejam tóxicos ou proibidos. A avaliação da segurança de cada substância segue critérios próprios, incluindo limites de ingestão estabelecidos por autoridades sanitárias.

Outra frente de inovação envolve a reformulação dos ingredientes, o desenvolvimento de bebidas com menor teor calórico e a ampliação de produtos sem adição de açúcar. Algumas empresas também investem em bebidas com fibras, ingredientes vegetais e outros componentes associados à nutrição. Entretanto, a presença de vitaminas, fibras ou extratos naturais não transforma automaticamente um refrigerante em alimento saudável. É necessário avaliar a composição completa, a quantidade de açúcar, os adoçantes utilizados e o valor nutricional efetivo do produto.

Uma particularidade da história industrial merece atenção: a primeira Coca-Cola foi vendida por apenas cinco centavos de dólar, em 1886, na Jacobs’ Pharmacy, em Atlanta. O estabelecimento não era uma fábrica de bebidas, mas uma farmácia com fonte de refrigerantes, em que os clientes podiam experimentar diferentes preparações gaseificadas. Aquele balcão comercial marcou o início de uma marca que se tornaria uma das mais reconhecidas do planeta.

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