A cajuína é uma bebida não alcoólica produzida a partir do suco do caju, que passa por um cuidadoso processo artesanal até chegar ao consumidor. Tudo começa com a separação do tanino natural da fruta, feita por meio da adição de um agente precipitador. Esse suco é então coado diversas vezes em redes ou funis de pano — técnica conhecida como clarificação — até ficar completamente límpido. Em seguida, o suco clarificado é envasado em garrafas de vidro e cozido em banho-maria, o que carameliza seus açúcares e confere à bebida seu sabor característico. Esse método tradicional permite que a cajuína seja armazenada por períodos de até dois anos, sem perder qualidade.
Aperfeiçoamento da cajuína
Esse modo de produção foi sendo aperfeiçoado ao longo do tempo pelas famílias piauienses. Embora o processo seja semelhante nos diversos núcleos produtores espalhados por todo o estado do Piauí, cada região desenvolveu melhorias e técnicas específicas, que resultam em diferenças sutis no produto final. Mais do que uma receita, o fazer da cajuína envolve práticas culturais profundamente ligadas aos rituais de hospitalidade: as garrafas, hoje também comercializadas, eram tradicionalmente oferecidas a conhecidos ou servidas a visitas, e ainda marcavam presença em aniversários, casamentos e outras comemorações familiares.
A produção da bebida segue a safra do caju, que ocorre entre os meses de agosto e outubro, reunindo famílias em torno do trabalho coletivo. Com o intuito de tornar o produto mais competitivo, a Universidade Federal do Piauí, em parceria com o SEBRAE, realizou atividades de melhoramento da cajuína, introduzindo certa mecanização. Apesar disso, a maior parte da cajuína produzida no Piauí ainda vem do chamado “fundo do quintal”, preservando seu caráter artesanal e afetivo.
A trajetória histórica e o reconhecimento oficial da cajuína
A história da cajuína remonta aos tempos dos povos indígenas, que já utilizavam o caju para preparar bebidas. No entanto, foi no início do século XX que a bebida ganhou notoriedade comercial, pelas mãos do farmacêutico baiano Rodolfo Marcos Teófilo (1853-1932), poeta e escritor que criou a cajuína como um substituto para a cachaça. Desde então, a bebida se consolidou como um ícone cultural do Nordeste brasileiro.
Em maio de 2014, a cajuína foi registrada pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil. Esse reconhecimento foi conquistado após uma longa disputa com uma grande fabricante multinacional de bebidas, que tentava registrar o nome “cajuína” como propriedade exclusiva e comercializá-la mundialmente, o que descaracterizaria seu modo artesanal e tradicional de fabricação. A vitória nessa batalha jurídica reafirmou a importância da cajuína como bem imaterial e símbolo da identidade piauiense.
Como a cajuína é consumida
Atualmente, milhões de garrafas são consumidas anualmente no Piauí, em festas, comemorações e no dia a dia — seja na hora do almoço, do lanche ou no barzinho. A relação do piauiense com a bebida é tão forte que, em Teresina, capital do estado, ela dá nome a uma avenida e a uma importante competição esportiva: a Volta da Cajuína. Mais do que uma bebida, a cajuína é sabor, história e pertencimento.
