A eleição do papa Júlio II em 1503

Sua eleição ocorreu poucas semanas após a morte de Pio III, em um conclave marcado pela influência dos cardeais espanhóis e pelo destino de César Bórgia

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Júlio, de Raffaello Sanzio da Urbino, na Missa em Bolsena. Ilustração gerada por IA | HiperHistória

A eleição de Júlio II, em 1º de novembro de 1503, encerrou um dos períodos mais turbulentos da política pontifícia do Renascimento. O escolhido foi o cardeal italiano Giuliano della Rovere, então decano do Sacro Colégio, que chegou ao papado depois de enfrentar a influência da família Bórgia e disputar o poder com importantes grupos políticos europeus. Seu caminho até a tiara foi resultado de negociações, alianças e compromissos entre cardeais que buscavam preservar seus interesses em uma Itália dividida por conflitos territoriais.

O conclave aconteceu no Vaticano, em Roma, após a morte de Pio III, ocorrida em 18 de outubro de 1503, apenas 26 dias depois de sua eleição. A curta duração daquele pontificado obrigou os cardeais a se reunirem novamente em poucas semanas. Della Rovere já havia disputado o trono pontifício em outras ocasiões e, dessa vez, conseguiu reunir apoio suficiente para ser escolhido praticamente sem oposição. A votação ocorreu em um cenário no qual a influência dos Bórgia ainda representava um fator decisivo.

Para compreender a eleição, é necessário considerar a rivalidade entre Giuliano della Rovere e Rodrigo Bórgia, o papa Alexandre VI, morto em agosto de 1503. Durante o pontificado de Alexandre VI, Della Rovere havia se afastado de Roma e buscado proteção junto à monarquia francesa. A morte do pontífice e o enfraquecimento político de seu filho, César Bórgia, abriram uma oportunidade para o cardeal retornar à disputa pelo comando da Igreja Católica.

A família Della Rovere e a ascensão de Giuliano

Giuliano della Rovere nasceu em 5 de dezembro de 1443, em Albisola, nas proximidades de Savona, na atual região italiana da Ligúria. Era filho de Raffaello della Rovere e Teodora Manerola, integrantes de uma família de recursos modestos. Sua trajetória eclesiástica ganhou impulso por meio de seu tio Francesco della Rovere, franciscano que se tornou papa em 1471, adotando o nome de Sisto IV.

Sob a proteção do tio, Giuliano ingressou na Ordem Franciscana e estudou em Perugia, onde recebeu formação em direito. A eleição de Sisto IV abriu caminho para sua rápida ascensão na hierarquia eclesiástica. Em outubro de 1471, recebeu o arcebispado de Carpentras e, em dezembro daquele ano, foi criado cardeal com o título de São Pedro Acorrentado. Posteriormente, acumulou dioceses, benefícios e funções diplomáticas que ampliaram sua influência dentro e fora da Cúria Romana.

A família Della Rovere também se beneficiou da política de favorecimento de parentes praticada por Sisto IV. O pontífice promoveu membros da família a posições de destaque e fortaleceu sua presença nos territórios italianos. Giuliano tornou-se uma das figuras mais poderosas do Colégio Cardinalício, com rendimentos elevados, influência diplomática e capacidade de mobilizar recursos militares. Sua trajetória demonstra como as relações familiares e as alianças políticas tinham peso significativo na organização do poder pontifício renascentista.

Em 1484, após a morte de Sisto IV, Giuliano participou decisivamente do conclave que elegeu Inocêncio VIII. Na ocasião, transferiu seu apoio e os votos de cardeais aliados ao candidato Giovanni Battista Cibo, contribuindo para sua escolha. Durante o novo pontificado, Della Rovere manteve grande influência sobre os assuntos da Igreja. A experiência consolidou sua capacidade de negociar eleições e construir coalizões dentro do Sacro Colégio.

A rivalidade com Alexandre VI e a disputa pelo papado

A morte de Inocêncio VIII, em julho de 1492, abriu outra disputa pelo trono pontifício. Giuliano della Rovere apresentou sua candidatura e contava com apoio francês e de aliados italianos. Entretanto, Rodrigo Bórgia, então vice-chanceler da Igreja, conseguiu reunir votos suficientes e foi eleito papa em 11 de agosto, adotando o nome de Alexandre VI. A eleição foi cercada por acusações de simonia, isto é, compra de votos e benefícios eclesiásticos, embora os detalhes dos acordos permaneçam objeto de análise histórica.

A rivalidade entre os dois cardeais tornou-se particularmente intensa durante o pontificado de Alexandre VI. Della Rovere temia o fortalecimento político dos Bórgia e se opunha à expansão territorial de César Bórgia, filho do papa, que construía um domínio na região da Romanha. Em 1494, Giuliano apoiou a intervenção militar do rei Carlos VIII da França na Itália, esperando que o monarca promovesse a deposição de Alexandre VI por meio de um concílio. O projeto não prosperou, e o cardeal permaneceu afastado de Roma durante parte significativa do pontificado.

A relação entre Della Rovere e os Bórgia sofreu novo desgaste a partir de 1500, quando César Bórgia conquistou o Ducado de Urbino, território governado por Guidobaldo de Montefeltro, parente próximo de Giuliano. O cardeal também se opôs à transferência de territórios para o patrimônio de Lucrécia Bórgia, irmã de César. Diante da crescente hostilidade, refugiou-se em Savona, onde permaneceu até a morte de Alexandre VI, em 18 de agosto de 1503.

A eleição de Pio III, em setembro de 1503, representou uma primeira tentativa de reorganização da Igreja após a morte de Alexandre VI. O escolhido foi Francesco Todeschini Piccolomini, sobrinho do papa Pio II, que recebeu o apoio de Giuliano della Rovere. Entretanto, Pio III morreu em 18 de outubro, depois de apenas 26 dias de pontificado. A nova vacância abriu espaço para uma segunda disputa eleitoral em menos de dois meses e devolveu Della Rovere ao centro das negociações.

O conclave de outubro e novembro de 1503

O segundo conclave de 1503 começou em 31 de outubro, no Palácio Apostólico do Vaticano. Participaram 38 cardeais, muitos dos quais já haviam estado reunidos no conclave anterior. A proximidade entre as duas eleições facilitou a reunião, pois os integrantes do Sacro Colégio ainda estavam em Roma. Antes do início dos trabalhos, as forças armadas das diferentes facções foram pressionadas a deixar a cidade, embora César Bórgia permanecesse protegido no Castelo de Santo Ângelo, uma posição que lhe conferia influência política e militar.

O ambiente eleitoral era marcado pela disputa entre os interesses franceses, espanhóis e italianos. O cardeal francês Georges d’Amboise, ministro do rei Luís XII, havia sido apontado como possível candidato ao pontificado, mas enfrentava resistência de parte do Sacro Colégio. A eleição de um francês poderia ampliar a influência da monarquia francesa sobre os Estados Pontifícios. Della Rovere, por sua vez, representava uma alternativa italiana com relações políticas consolidadas com a França, mas também capaz de negociar com os cardeais ligados à Espanha.

O principal obstáculo à candidatura de Giuliano era a influência dos cardeais espanhóis associados aos Bórgia. César Bórgia ainda controlava posições militares e territórios na Romanha, além de exercer influência sobre parte dos representantes espanhóis no Colégio Cardinalício. Della Rovere precisava conquistar esse grupo para impedir que seus adversários bloqueassem sua eleição. Durante as semanas que antecederam o conclave, realizou negociações com César e outros cardeais, oferecendo garantias sobre a preservação dos interesses do duque.

O acordo de Júlio II com César Bórgia

O entendimento entre Della Rovere e César Bórgia foi decisivo para o resultado eleitoral. O cardeal prometeu inicialmente preservar os domínios territoriais de César e manter sua posição como comandante das forças pontifícias. Em troca, recebeu o apoio dos cardeais espanhóis ligados à família Bórgia. A negociação permitiu que um antigo adversário de Alexandre VI chegasse ao papado com a colaboração de integrantes do grupo político que havia combatido durante anos.

O historiador Kenneth M. Setton, em sua obra The Papacy and the Levant (1204–1571), descreve a importância das negociações políticas que antecederam a eleição. Estudos biográficos, como o verbete de Alessandro Pastore no Dizionario Biografico degli Italiani, também registram o apoio dos cardeais espanhóis e as garantias oferecidas ao duque da Romanha. A documentação permite identificar os compromissos políticos, embora nem todos os detalhes dos entendimentos privados possam ser reconstruídos com absoluta precisão.

Na preparação do conclave, os cardeais também estabeleceram uma capitulação eleitoral, documento que reunia compromissos assumidos pelo futuro pontífice. Entre as condições estavam a continuidade da luta contra os turcos otomanos, a convocação de um concílio geral dentro de dois anos e a consulta ao Colégio Cardinalício sobre decisões importantes. Os compromissos também procuravam limitar a liberdade do futuro papa para iniciar guerras e nomear novos cardeais sem o consentimento de uma parcela expressiva do Sacro Colégio. Essas capitulações refletiam a tentativa dos eleitores de controlar politicamente o exercício do poder pontifício.

A eleição ocorreu em 1º de novembro de 1503, depois de um processo extremamente rápido. Giuliano della Rovere recebeu os votos de todos os cardeais presentes, com exceção do próprio voto, que não poderia ser atribuído a si mesmo. A unanimidade demonstrava o sucesso das negociações anteriores e a ausência de uma alternativa capaz de reunir apoio semelhante. Ao aceitar a eleição, o cardeal escolheu o nome de Júlio II, dando início a um pontificado que duraria pouco mais de nove anos.

Os primeiros atos do pontificado de Júlio II

Júlio II foi coroado em 26 de novembro de 1503, quase quatro semanas depois da eleição. Nos primeiros dias, procurou preservar a aparência de cumprimento dos compromissos assumidos com os cardeais espanhóis e com César Bórgia. Entretanto, a relação com o antigo aliado começou a se deteriorar rapidamente. Em 2 de dezembro, as cidades controladas pelo duque na Romanha passaram novamente à autoridade pontifícia, e César acabou preso no Castelo de Santo Ângelo.

O novo papa pretendia recuperar territórios que considerava pertencentes à Igreja e reduzir o poder dos governantes que haviam construído domínios independentes na Itália central. César Bórgia representava um obstáculo importante a esse projeto. Sua prisão e o posterior enfraquecimento militar demonstraram que os acordos eleitorais não garantiam a manutenção das alianças depois da escolha do pontífice. O antigo adversário dos Bórgia havia conseguido o apoio da família para chegar ao poder e, em seguida, passou a desmontar parte de seu domínio político.

O pontificado de Júlio II ficou marcado pela atuação militar na política italiana, pela recuperação de territórios dos Estados Pontifícios e pelo fortalecimento da autoridade papal. O papa participou pessoalmente de campanhas militares e recebeu o apelido de Il Papa Guerriero, ou Papa Guerreiro. Também patrocinou importantes projetos artísticos e arquitetônicos, incluindo a reconstrução da Basílica de São Pedro e os trabalhos de Michelangelo na Capela Sistina. Sua atuação política e cultural fez dele uma das figuras mais influentes do Renascimento italiano.

Uma particularidade do conclave de 1503 está no local da votação. Embora a Capela Sistina já existisse e tenha sido utilizada pelos cardeais durante os preparativos, a eleição propriamente dita ocorreu na antiga Capela de São Nicolau, no complexo do Palácio Apostólico, segundo o relato histórico reconstruído por Kenneth M. Setton. O episódio ajuda a distinguir as práticas eleitorais daquele período das cerimônias realizadas na atual Capela Sistina, que se tornou o espaço tradicional dos conclaves posteriores.

A trajetória de Giuliano della Rovere pode ser consultada no verbete biográfico publicado pela Enciclopédia Treccani, enquanto o registro oficial do Vaticano identifica Júlio II como o 216º papa da Igreja Católica e estabelece 1º de novembro de 1503 como o início de seu pontificado.

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