O Colégio de Cardeais formou-se a partir do clero de Roma, especialmente dos padres das igrejas titulares da cidade e dos bispos das dioceses vizinhas, chamadas suburbicárias, que assistiam o papa no governo da Igreja. O termo “cardeal” vem do latim cardo, que significa “dobradiça” ou “eixo”, indicando uma posição central na estrutura eclesiástica, como conselheiros e colaboradores diretos do bispo de Roma. Ao longo dos séculos, esses prelados passaram de simples assistentes locais a figuras de projeção universal, responsáveis pela eleição do papa e por funções administrativas na Cúria Romana. Hoje, o Colégio de Cardeais é composto por cardeais-bispos, cardeais-presbíteros e cardeais-diáconos, mas sua origem está diretamente ligada aos padres e bispos que rodeavam o papa na cidade de Roma e em seu entorno imediato.
Nos primeiros séculos da Igreja, quando ocorria a morte do pontífice, o clero de Roma reunia-se para eleger o novo papa, em um processo dominado pelo presbitério romano, pelos diáconos e pelos bispos das dioceses próximas. Esse grupo incluía os 25 presbíteros das igrejas titulares de Roma, os 7 diáconos regionais responsáveis pela assistência aos pobres e os 7 bispos das sés suburbicárias, dioceses localizadas no entorno da cidade. A tradição afirma que o título de cardeal foi reconhecido pela primeira vez durante o pontificado de Silvestre I (314–335), embora só tenha se consolidado como designação específica mais tarde. Esses religiosos formavam um senado presbiteral, um conselho que auxiliava o bispo de Roma nas decisões administrativas, litúrgicas e disciplinares.
A transformação desses assistentes em prelados de destaque começou no século VI, quando os presbíteros das 28 igrejas paroquiais de Roma passaram a ser chamados de “presbyteri cardinales” ou “incardinati”, indicando que estavam vinculados de forma estável a uma igreja titular. Os bispos das dioceses suburbicárias, como Ostia, Velletri, Porto, Santa Rufina, Frascati, Palestrina, Albano e Sabina, também passaram a ser identificados como cardeais-bispos, por sua proximidade física e funcional com o papa. Essa estrutura tripartida — bispos, padres e diáconos — refletia a organização do clero romano e acabou se tornando a base das três ordens do Colégio de Cardeais. Com o tempo, esses cargos deixaram de ser apenas funções locais e passaram a simbolizar uma dignidade hierárquica superior, associada ao governo central da Igreja.
Formação do Colégio de Cardeais e papel dos bispos suburbicários
O Colégio dos Cardeais, anteriormente chamado de Sacro Colégio, foi formalmente constituído em sua forma atual em 1150, sob o pontificado do Papa Eugênio III, com um decano e um camerlengo responsável pela administração dos bens da Igreja durante o período de sé vacante. Antes dessa data, o grupo de cardeais já exercia funções importantes, mas foi no século XII que se consolidou como corpo colegial com regras próprias e papel definido na eleição papal. O Sínodo de Roma de 769, durante o pontificado de Estêvão III, já havia decidido que o romano pontífice deveria ser eleito entre os diáconos e os padres cardeais, ampliando a participação do clero romano na escolha do papa. Essa decisão marcou o início da transição de um processo eleitoral dominado pelo povo e pela aristocracia romana para um sistema controlado pelo clero cardinalício.
Os bispos suburbicários tiveram papel central nesse processo, pois eram os prelados de maior antiguidade e prestígio no entorno de Roma. Originalmente, o título de cardeal-bispo era reservado àqueles escolhidos para presidir uma das sete sés suburbicárias, dioceses localizadas nas imediações da cidade, como Ostia, Velletri, Porto, Santa Rufina, Frascati, Palestrina, Albano e Sabina. Esses bispos participavam das cerimônias litúrgicas na basílica de São João de Latrão e na basílica de São Pedro, e eram consultados pelo papa em questões doutrinárias e disciplinares. Com o fortalecimento do papado medieval, eles passaram a integrar o núcleo de poder da Cúria Romana, acumulando funções administrativas e judiciais além de suas responsabilidades diocesanas.
A importância dos bispos suburbicários cresceu ainda mais após o decreto do Papa Nicolau II, em 1059, que estabeleceu que o colégio de cardeais seria o único responsável pela escolha de um novo papa. Essa reforma retirou das mãos da aristocracia romana e do imperador germânico a influência direta sobre a eleição papal, concentrando o poder no grupo cardinalício. Os cardeais-bispos suburbicários passaram a liderar o processo eleitoral, atuando como eleitores privilegiados e como conselheiros do papa em questões de governo da Igreja. Essa mudança consolidou o Colégio de Cardeais como órgão central na estrutura de poder da Igreja Católica, com funções que iam além da assistência litúrgica e administrativa ao bispo de Roma.
Ascensão dos cardeais na hierarquia da Igreja
A ascensão dos cardeais na hierarquia da Igreja está diretamente ligada ao fortalecimento do papado entre os séculos XI e XIII, período em que o bispo de Roma passou a exercer autoridade crescente sobre a Igreja ocidental. Os cardeais deixaram de ser apenas clérigos romanos e passaram a ser enviados como legados papais a diferentes regiões da Europa, representando o papa em concílios, negociações políticas e questões disciplinares. Essa expansão de funções fez com que o título de cardeal se tornasse uma dignidade universal, associada não apenas à cidade de Roma, mas ao governo central da Igreja Católica. A partir do século XII, o papa começou a nomear cardeais originários de outras regiões da Itália e, posteriormente, de outros países, ampliando a representatividade do Colégio.
O processo de centralização do poder papal foi acompanhado pela criação de cargos e tribunais na Cúria Romana, muitos dos quais passaram a ser ocupados por cardeais. Eles assumiram a direção de congregações, tribunais e secretarias, tornando-se responsáveis por áreas como doutrina, liturgia, disciplina clerical e relações com governos civis. Essa concentração de funções administrativas e judiciais nas mãos dos cardeais reforçou sua posição como prelados de primeira linha na hierarquia eclesiástica, logo abaixo do papa. A reforma do Papa Paulo VI, em 1965, pelo motu proprio Ad purpuratorum patrum, ampliou ainda mais o Colégio, ao incluir os patriarcas das Igrejas Católicas Orientais na ordem dos cardeais-bispos, ao lado dos cardeais-bispos suburbicários.
A evolução do Colégio de Cardeais também refletiu mudanças políticas e sociais na Europa e no mundo. Durante a Idade Média, os cardeais foram frequentemente envolvidos em disputas entre papas e imperadores, como no conflito entre o Papa Gregório VII e o imperador Henrique IV, no século XI. No período moderno, o Colégio tornou-se um espaço de negociação entre as grandes potências católicas, como França, Espanha e Áustria, que buscavam influenciar a eleição papal por meio de cardeais de sua nacionalidade. Essa dinâmica política contribuiu para que o título de cardeal fosse visto não apenas como uma dignidade religiosa, mas também como um instrumento de poder temporal, ligado às relações entre a Igreja e os Estados.
Reformas e mudanças no Colégio Cardinalício
As reformas do Colégio de Cardeais ao longo dos séculos alteraram sua composição e funções, sem eliminar sua origem ligada aos bispos suburbicários e aos padres romanos. Em 1962, o Papa João XXIII, pelo decreto Suburbicarii sedis, transformou os bispos cardeais em bispos titulares das sés suburbicárias e previu a nomeação de bispos diocesanos residenciais separados para Velletri-Segni, Porto-Santa-Rufina, Frascati, Palestrina, Albano e Sabina. Essa medida desvinculou, em parte, a função de cardeal-bispo da administração direta dessas dioceses, mantendo o título como honraria e função colegial no Colégio. O Papa Paulo VI, em 1965, ampliou a ordem dos cardeais-bispos ao incluir os patriarcas das Igrejas Católicas Orientais elevados ao Colégio Cardinalício, que passaram a integrar essa ordem imediatamente após os cardeais-bispos suburbicários.
Essas reformas refletiram a necessidade de adaptar o Colégio de Cardeais a uma Igreja mais globalizada, com presença significativa fora da Europa. O número de cardeais aumentou consideravelmente no século XX, e o Papa Paulo VI estabeleceu o limite de 120 cardeais eleitores, com idade inferior a 80 anos, para participar do conclave. Essa regra foi mantida pelos pontífices seguintes, embora o número total de cardeais, incluindo os não eleitores, tenha continuado a crescer, ultrapassando 200 membros em consistórios recentes. A diversidade geográfica e cultural do Colégio tornou-se uma marca do período pós-Concílio Vaticano II, refletindo a universalidade da Igreja Católica contemporânea.
Uma curiosidade histórica ligada aos cardeais é que, até o século XI, o direito de eleger o papa não era exclusivo do Colégio de Cardeais, mas compartilhado com o clero romano, a aristocracia da cidade e, em alguns períodos, com o imperador do Sacro Império Romano-Germânico. O decreto do Papa Nicolau II, em 1059, que reservou a eleição aos cardeais, foi uma resposta direta às interferências políticas e às disputas faccionais que marcaram o papado nos séculos anteriores. Essa mudança transformou o Colégio de Cardeais em guardião da sucessão papal, função que permanece até hoje, mesmo com as reformas que ampliaram sua composição e diversificaram sua origem geográfica.