A exumação de Dom Pedro I e suas esposas

Entenda o que os cientistas encontraram ao abrir os túmulos de Dom Pedro I, Leopoldina e Amélia na cripta imperial de São Paulo, em 2012

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A exumação de Dom Pedro I e de suas duas esposas, Leopoldina e Amélia, ocorreu em sigilo entre fevereiro e setembro de 2012, quase 180 anos depois da morte do primeiro imperador do Brasil. A pesquisa revelou que o corpo de Dom Pedro I nunca foi cremado, ao contrário do que boa parte da população acreditava: o que está guardado na cripta imperial é sua ossada completa, não cinzas. Os exames também esclareceram detalhes sobre as roupas usadas no sepultamento, o grau de preservação de cada corpo e as causas reais das três mortes. A investigação foi conduzida pela arqueóloga e historiadora Valdirene do Carmo Ambiel, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).

Dom Pedro I governou o Brasil entre 1822 e 1831, ano em que abdicou do trono em favor do filho, Dom Pedro II, e retornou a Portugal. Ele morreu em 24 de setembro de 1834, aos 36 anos, no Palácio de Queluz, próximo a Lisboa, vítima de tuberculose. Suas duas esposas, a arquiduquesa austríaca Maria Leopoldina de Habsburgo e a duquesa francesa Amélia de Leuchtenberg, também estão sepultadas na mesma cripta, no Monumento à Independência, às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo.

A exumação de 2012 exigiu autorização da Prefeitura de São Paulo, da Igreja Católica e de descendentes da Família Imperial brasileira, processo que a pesquisadora Valdirene Ambiel começou a negociar em 2010. Os resultados completos só foram divulgados publicamente em fevereiro de 2013, quando o jornal O Estado de S. Paulo publicou reportagem exclusiva sobre a defesa de mestrado de Ambiel no MAE-USP. Cada um dos três corpos guardava informações diferentes sobre saúde, hábitos e circunstâncias de morte da família imperial.

Como os restos de Dom Pedro I e das duas esposas foram parar na cripta do Ipiranga

A cripta imperial do Monumento à Independência começou a ser construída em 1952, mais de um século depois da morte de Dom Pedro I. Em 1954, ela recebeu seu primeiro ocupante: o esqueleto da imperatriz Leopoldina, transferido do Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro, onde estava desde sua morte, em 1826. Até esse momento, os restos de Dom Pedro I permaneciam em Portugal, sepultados no Panteão dos Braganças, em Lisboa, ao lado de outros membros da monarquia portuguesa.

Os restos mortais de Dom Pedro I só chegaram ao Brasil em 1972, trazidos de Portugal como parte das comemorações do Sesquicentenário da Independência, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici. O corpo do imperador foi transportado dentro de um caixão externo de pinho com ferragens de prata que traziam dragões, espadas e os brasões de Brasil e Portugal, símbolos escolhidos para reforçar a ligação entre as duas nações naquele momento político. Dona Amélia, a segunda esposa, só teve seus restos transferidos para a cripta paulistana em 1984, doze anos depois de Dom Pedro I.

O que a exumação revelou sobre a morte e as roupas de Dom Pedro I

Ao abrir o caixão de Dom Pedro I, os pesquisadores confirmaram que ele foi sepultado com o uniforme e as insígnias de Dom Pedro IV, título que usava como rei de Portugal, e não como imperador do Brasil. Todos os símbolos encontrados junto à ossada eram portugueses, incluindo uma coroa, o que reforça a interpretação histórica de que, ao morrer, ele era reconhecido oficialmente, sobretudo pelo papel que exerceu na monarquia portuguesa. A ausência de qualquer referência ao Brasil na roupa original de sepultamento contrasta com a forte identidade brasileira construída em torno de sua figura décadas depois.

Os exames também confirmaram a tuberculose como causa da morte de Dom Pedro I, hipótese reforçada por indícios de problemas respiratórios encontrados em tomografias dos ossos. A pesquisa afastou a hipótese, difundida por boatos populares, de que o imperador teria morrido de sífilis, doença associada à fama de vida amorosa intensa que ele carregava. Estudos complementares sobre documentos médicos localizados em 2022 na Alemanha, pela pesquisadora Cláudia Thomé Witte, mostraram ainda que Dom Pedro I foi submetido a pelo menos quatorze tratamentos nas últimas semanas de vida, incluindo sangrias, sanguessugas e doses de ópio e morfina para aliviar a dor.

As roupas, os botões e os objetos encontrados no caixão do imperador

A túnica usada no sepultamento de Dom Pedro I era provavelmente marrom, combinada com calça branca, e somava 54 botões ao todo, a maioria de metal e decorados com o brasão da coroa portuguesa em alto-relevo. As botas do imperador quase se desfizeram completamente por causa da umidade da cripta, restando apenas dois saltos de couro e duas esporas de metal como evidência do calçado original. Havia também botões de osso, material comum na época para peças íntimas, o que sugere que parte das roupas de baixo do imperador também foi preservada, ainda que de forma fragmentada.

O exame ósseo revelou ainda que Dom Pedro I fraturou quatro costelas do lado esquerdo ao longo da vida, lesões associadas a dois acidentes a cavalo ocorridos no Rio de Janeiro, em 1823 e 1829, um deles envolvendo a queda de uma carruagem. Segundo a pesquisa conduzida na Faculdade de Medicina da USP, essas fraturas antigas inutilizaram parcialmente um dos pulmões do imperador, o que pode ter agravado o quadro de tuberculose que o levou à morte em 1834. Essa relação entre os acidentes e o agravamento da doença é uma interpretação médica baseada nos ossos, e não um fato registrado em documentos do século XIX.

Os corpos de Leopoldina e Amélia: preservação e causas da morte

O corpo da imperatriz Leopoldina, ao ser aberto em 2012, apresentava-se como esqueleto, sem qualquer fratura óssea constatada pelos exames do Instituto de Radiologia da USP. Esse resultado contraria diretamente uma tradição popular segundo a qual Dom Pedro I teria empurrado a esposa durante uma discussão, provocando uma fratura no fêmur que teria contribuído para sua morte. A ausência de fratura nos ossos analisados enfraquece essa versão, embora historiadores ainda divirjam sobre as circunstâncias exatas do falecimento de Leopoldina, ocorrido em 11 de dezembro de 1826.

A versão historiográfica mais aceita atribui a morte de Leopoldina a complicações após a perda de uma gravidez, no Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. A exumação de 2012 não conseguiu confirmar nem afastar totalmente essa hipótese, já que problemas de saúde ligados a uma gestação interrompida nem sempre deixam marcas identificáveis em um esqueleto examinado quase dois séculos depois. O caso de Leopoldina mostra um limite importante da arqueologia forense: nem toda causa de morte pode ser comprovada apenas pelo exame dos ossos.

Já o corpo de Dona Amélia de Leuchtenberg surpreendeu os pesquisadores por seu estado de conservação: diferentemente dos restos ósseos de Dom Pedro I e Leopoldina, a segunda esposa do imperador estava mumificada, com cílios e cabelos ainda preservados. Ela foi sepultada inteiramente de preto, em contraste com o uniforme militar usado por Dom Pedro I. Amélia sobreviveu ao marido por décadas, já que ele morreu em 1834 e ela só faleceu em 1873, o que também explica por que seus restos chegaram à cripta paulistana apenas em 1984, muito depois dos de Dom Pedro I e Leopoldina.

Uma curiosidade pouco conhecida da história de Dom Pedro I é que seu corpo nunca esteve completo em nenhum dos dois países. O coração do imperador permanece guardado desde 1834 na Igreja da Lapa, na cidade do Porto, em Portugal, separado do restante do corpo por vontade expressa em testamento, como forma de manter um vínculo simbólico com a terra onde nasceu, mesmo depois de seus ossos terem sido transferidos ao Brasil, em 1972.

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