Quilombos foram comunidades formadas principalmente por africanos e afrodescendentes escravizados que fugiam de fazendas, engenhos e minas do Brasil colonial. Esses agrupamentos construíram formas próprias de organização social, econômica e política e se tornaram importantes espaços de resistência à escravidão entre os séculos XVI e XIX.
A palavra “quilombo” tem origem no termo banto kilombo, associado a acampamentos, fortalezas e formas de organização social entre povos de língua bantu, especialmente em regiões da atual Angola. No Brasil, os colonizadores passaram a usar a palavra para identificar comunidades formadas por pessoas escravizadas que fugiam em busca de liberdade.
Em 1740, o Conselho Ultramarino português definiu quilombo como “toda habitação de negros fugidos que passasse de cinco, em parte despovoada, ainda que não tivesse ranchos construídos nem pilões”. Essa definição serviu de base para a repressão colonial por mais de um século. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registra essa formulação e destaca que o conceito de quilombo foi ressignificado após a Constituição de 1988.
Os quilombos não eram todos iguais. Alguns reuniam poucas famílias e existiam por períodos curtos; outros cresceram, estabeleceram redes de comércio e desenvolveram estruturas políticas e militares complexas.
Como os quilombolas viviam?
A vida nos quilombos combinava diferentes heranças africanas com adaptações ao ambiente brasileiro. As comunidades costumavam ocupar áreas de difícil acesso, como matas, serras, margens de rios e regiões afastadas dos centros coloniais.
Entre as principais atividades estavam:
- Agricultura de subsistência, com o cultivo de mandioca, milho, feijão e outros alimentos.
- Caça e pesca para complementar a alimentação.
- Produção de ferramentas, armas, utensílios e moradias.
- Trocas comerciais com moradores de vilas próximas.
- Práticas religiosas e culturais influenciadas por diferentes povos africanos.
A liderança geralmente ficava sob responsabilidade de uma autoridade reconhecida pela comunidade. Essa pessoa podia coordenar a defesa, distribuir tarefas, organizar alianças e negociar com grupos externos. Em comunidades maiores, existiam diferentes níveis de liderança entre os mocambos, nome dado a muitos dos assentamentos quilombolas.
A resistência armada era frequente. Tropas coloniais e capitães-do-mato atacavam os quilombos para capturar seus moradores e destruir suas plantações e construções.
Principais quilombos coloniais
A historiografia brasileira registra diversos quilombos em diferentes regiões do país. Entre os mais conhecidos estão:
- Quilombo do Ambrósio: localizado na região do atual estado de Minas Gerais, durante a primeira metade do século XVIII.
- Quilombo do Quariterê: situado na região do atual Mato Grosso, destacou-se pela liderança de Teresa de Benguela, segundo relatos da época, até ser destruído em 1770.
- Quilombo do Carlota: localizado no atual Mato Grosso e ativo entre o final do século XVIII e o início do século XIX.
- Quilombo de Manuel Congo: formado na região de Vassouras, no Rio de Janeiro, e destruído em 1839, durante o crescimento da cafeicultura escravista.
Nenhum desses quilombos, porém, alcançou a extensão territorial, a duração e a organização política atribuídas ao Quilombo dos Palmares.
O Quilombo dos Palmares
Palmares localizava-se na Serra da Barriga, área que atualmente pertence ao município de União dos Palmares, em Alagoas, próxima à divisa com Pernambuco. O quilombo começou a se formar por volta do início do século XVII, a partir da fuga de pessoas escravizadas dos engenhos de açúcar.
A região oferecia vantagens estratégicas: o terreno acidentado dificultava os ataques, a vegetação densa favorecia a defesa e os rios garantiam acesso à água e a alimentos. Durante décadas, Palmares cresceu e se transformou em uma confederação de mocambos espalhados pela serra.
Por isso, Palmares não deve ser entendido apenas como uma aldeia. Tratava-se de uma organização política formada por vários assentamentos, que possuíam lideranças próprias e se subordinavam a uma autoridade central. Estudos de historiadores como Décio Freitas e Flávio dos Santos Gomes ressaltam essa complexidade.
As autoridades coloniais enviaram diversas expedições contra Palmares. O quilombo resistiu a mais de vinte campanhas militares antes de ser derrotado no final do século XVII.
Ganga Zumba e Zumbi
Ganga Zumba liderou Palmares durante a década de 1670. Em 1678, negociou com o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, o Tratado de Cucaú. O acordo previa liberdade para os nascidos em Palmares, mas exigia a entrega de pessoas que fugissem posteriormente e a submissão à autoridade portuguesa.
A proposta dividiu a comunidade. Uma parte dos moradores aceitou os termos e se transferiu para o Vale do Cucaú. Outro grupo, liderado por Zumbi, rejeitou o acordo por considerá-lo uma forma de capitulação.
Zumbi assumiu a liderança de Palmares por volta de 1680, após a morte de Ganga Zumba. As circunstâncias dessa morte continuam sendo discutidas pela historiografia, embora alguns relatos mencionem a possibilidade de envenenamento por opositores do tratado.
Sob o comando de Zumbi, Palmares retomou a resistência armada e enfrentou as tropas coloniais por mais de uma década. A figura de Zumbi tornou-se, posteriormente, um dos principais símbolos da luta contra o racismo e pela liberdade no Brasil.
A destruição de Palmares
Depois de décadas de resistência, o governo de Pernambuco contratou o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho para comandar uma nova ofensiva. Sua tropa era formada principalmente por indígenas e mestiços e contava com armas de fogo e artilharia.
Em 6 de fevereiro de 1694, após cerca de 22 dias de cerco, as forças coloniais destruíram o Cerco do Macaco, principal fortificação de Palmares. O ataque encerrou a existência do quilombo como território politicamente organizado, embora grupos de resistência continuassem atuando na região.
Como recompensa, Domingos Jorge Velho recebeu terras e privilégios concedidos pelas autoridades coloniais. A expedição ficou marcada pela violência contra os moradores de Palmares e pela destruição de suas moradias e plantações.
Zumbi permaneceu escondido por quase dois anos e continuou liderando grupos remanescentes. Ele foi capturado e morto em 20 de novembro de 1695, na região da Serra Dois Irmãos. Sua cabeça foi levada a Recife e exposta publicamente para intimidar outras pessoas escravizadas e impedir novas rebeliões.
O significado do dia 20 de novembro
A data da morte de Zumbi tornou-se um símbolo da luta antirracista e da valorização da história afro-brasileira. Em 2003, a Lei 10.639 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas.
Em 2023, a Lei 14.759 transformou o dia 20 de novembro em feriado nacional para celebrar o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. citeturn0search1 Zumbi também é reconhecido como herói nacional pela Lei 12.519, de 2011. A data representa a resistência da população negra e a importância de combater o racismo no presente.
Quilombos depois da abolição
A escravidão foi abolida legalmente no Brasil em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea. No entanto, as comunidades quilombolas continuaram existindo como formas de organização territorial, cultural e comunitária.
A Constituição de 1988 reconheceu, no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, o direito à propriedade definitiva das terras ocupadas por remanescentes de comunidades quilombolas. Atualmente, a Fundação Cultural Palmares certifica comunidades quilombolas, enquanto o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária conduz os processos de reconhecimento e titulação territorial.
Esse reconhecimento jurídico mostra que a história dos quilombos não terminou com a abolição. As comunidades quilombolas continuam relacionadas a disputas pela terra, à preservação cultural e às políticas de reparação histórica.
A origem do nome Palmares
Segundo relatos de cronistas holandeses do século XVII, como Gaspar Barléu, o nome Palmares estaria relacionado à grande quantidade de palmeiras existentes na região. As árvores forneciam frutos, palmito e fibras, usados na alimentação e na construção de moradias.
A presença das palmeiras revela como a geografia contribuiu para a sobrevivência da comunidade. Durante quase um século, o ambiente da Serra da Barriga ofereceu recursos naturais e proteção para a população de Palmares.