Nabucodonosor II foi o segundo e mais poderoso rei do Império Neobabilônico, governando a Babilônia entre 605 e 562 a.C., um reinado de 43 anos. Filho de Nabopolassar, fundador da dinastia caldeia, ele assumiu o trono após vencer o faraó egípcio Necau II na Batalha de Carquemis, travada às margens do rio Eufrates, na atual Síria, em 605 a.C. Governou a partir da cidade da Babilônia, situada às margens do rio Eufrates, na região onde hoje fica o Iraque, e ficou conhecido tanto por suas conquistas militares quanto por suas obras arquitetônicas. Este artigo reúne o que fontes cuneiformes, textos bíblicos e autores clássicos revelam sobre seu governo, sua morte e a lenda de sua transformação em animal, narrada no Livro de Daniel.
O Império Neobabilônico nasceu da revolta liderada por Nabopolassar contra o domínio assírio, que controlava a Mesopotâmia havia quase um século. Aliado aos medos, Nabopolassar destruiu Nínive, capital assíria, em 612 a.C., e consolidou um novo reino com centro na Babilônia. Nabucodonosor, ainda príncipe herdeiro, comandou tropas ao lado do pai nessas campanhas, adquirindo experiência militar que usaria para expandir o território depois de assumir o trono.
Os dados sobre o reinado de Nabucodonosor vêm de três tipos de fontes: inscrições cuneiformes em tabuletas de argila e tijolos de construção, as Crônicas Babilônicas, que registram eventos ano a ano, e textos bíblicos, sobretudo os livros de Reis, Jeremias e Daniel. Autores clássicos posteriores, como o sacerdote babilônico Beroso, do século III a.C., cujos escritos sobrevivem em citações do historiador judeu Flávio Josefo, também contribuíram com relatos sobre o rei. Quando essas fontes divergem em detalhes, historiadores modernos costumam priorizar os registros cuneiformes contemporâneos aos eventos.
Quem foi Nabucodonosor e como ele conquistou Jerusalém
Nabucodonosor consolidou o domínio babilônico sobre a Síria e a Palestina em campanhas sucessivas após 605 a.C., subjugando reinos vassalos que antes pagavam tributo ao Egito. O reino de Judá, com capital em Jerusalém, teve sua elite deportada para a Babilônia em três momentos distintos: em 605 a.C., logo após Carquemis; em 597 a.C., quando o rei Joaquim foi deposto e substituído por Zedequias; e em 586 a.C., quando Jerusalém foi destruída após a revolta final de Zedequias. Nesse último cerco, o exército babilônico incendiou o Templo de Salomão e deportou grande parte da população judaica para a Babilônia, evento conhecido como cativeiro babilônico.
O reinado de Nabucodonosor se estendeu por 43 anos, um dos mais longos entre os monarcas mesopotâmicos documentados, até sua morte em 562 a.C. As fontes cuneiformes e bíblicas não registram violência nem doença súbita associada ao fim de sua vida, o que leva historiadores a considerar que ele morreu de causas naturais, já idoso para os padrões da época. Sucedeu-o o filho Amel-Marduque, citado na Bíblia como Evil-Merodaque (2Reis 25:27-30), que governou por apenas dois anos antes de ser assassinado em uma disputa palaciana, episódio que marcou o início da instabilidade que levaria à queda do Império Neobabilônico em 539 a.C.
O governo de Nabucodonosor na Babilônia
Na administração interna, Nabucodonosor manteve uma burocracia centralizada que arrecadava tributos, coordenava obras públicas e supervisionava o comércio ao longo do Eufrates e do Tigre. Ele investiu na restauração de templos dedicados a divindades locais em diversas cidades da Babilônia, política que reforçava sua legitimidade religiosa perante o clero, sobretudo o culto ao deus Marduk, principal divindade do panteão babilônico. Inscrições em tijolos encontradas por arqueólogos registram doações a santuários e a reconstrução de canais de irrigação essenciais para a agricultura da região.
A capital recebeu o maior programa de obras da história babilônica: a Porta de Ishtar, decorada com touros e dragões em tijolos vitrificados, dava acesso à Via Processional, que levava ao zigurate de Etemenanki, dedicado a Marduk e associado por alguns estudiosos ao relato bíblico da Torre de Babel. Autores clássicos, como o já citado Beroso, atribuem a Nabucodonosor a construção dos Jardins Suspensos, uma das sete maravilhas do mundo antigo segundo a tradição grega, mas nenhuma inscrição babilônica contemporânea menciona essa obra. A historiadora britânica Stephanie Dalley defende, em pesquisa publicada em 2013, que os jardins descritos pelos autores antigos podem ter sido erguidos não na Babilônia, mas em Nínive, pelo rei assírio Senaqueribe, um século antes de Nabucodonosor — hipótese que ainda divide especialistas.
Nabucodonosor no Livro de Daniel
No Livro de Daniel, Nabucodonosor aparece como o rei que exilou o profeta Daniel e seus companheiros Sadraque, Mesaque e Abede-Nego para a Babilônia, servindo de pano de fundo para episódios como o sonho da estátua de metais (Daniel 2) e a fornalha ardente (Daniel 3). A maioria dos especialistas em crítica bíblica, incluindo o pesquisador norte-americano John J. Collins, data a redação final do livro do século II a.C., durante a perseguição do Império Selêucida ao povo judeu, ainda que o texto se ambiente três séculos antes, no período de Nabucodonosor. Essa distância temporal entre a composição do texto e os eventos narrados é citada por historiadores para explicar por que o livro mistura dados históricos verificáveis com elementos de caráter literário e didático.
A lenda de Nabucodonosor virando bicho: mito ou memória histórica?
O quarto capítulo do Livro de Daniel narra que Nabucodonosor, após um sonho interpretado por Daniel como advertência contra sua arrogância, foi afastado do convívio humano por “sete tempos”, período tradicionalmente interpretado como sete anos. Durante essa fase, o texto descreve que o rei passou a comer capim como um boi, teve o corpo molhado pelo orvalho, e seus cabelos e unhas cresceram como penas de águia e garras de aves. Ao final do período, segundo o relato, Nabucodonosor recuperou a razão, reconheceu a soberania divina e voltou a governar a Babilônia com autoridade restaurada.
Nenhuma inscrição babilônica contemporânea menciona um episódio de loucura ou afastamento do trono envolvendo Nabucodonosor. Historiadores associam essa lenda a um manuscrito descoberto em Qumrã em 1952, conhecido como “Oração de Nabonido”, que descreve um sofrimento semelhante vivido não por Nabucodonosor, mas por Nabonido, último rei da Babilônia, afastado por sete anos no oásis de Tema, na Arábia, entre 552 e 545 a.C. A hipótese aceita por parte dos especialistas em manuscritos de Qumrã é que o autor do Livro de Daniel, escrevendo séculos depois, teria transferido essa tradição sobre Nabonido para Nabucodonosor, rei mais célebre e já conhecido pelos leitores judeus do período helenístico.
Uma tradição confirmada pela arqueologia, sem relação com a lenda bíblica, diz que milhares de tijolos usados nas construções de Nabucodonosor na Babilônia trazem estampada a mesma inscrição cuneiforme: “Eu sou Nabucodonosor, rei da Babilônia“. Muitos desses tijolos, escavados pelo arqueólogo alemão Robert Koldewey entre 1899 e 1917, ainda podem ser vistos nas ruínas da cidade, no atual Iraque, e em museus como o Pergamon, em Berlim. O próprio nome do rei, Nabu-kudurri-usur em acádio, significa “Nabu, protege meu herdeiro”, referência ao deus da sabedoria cultuado na Babilônia.