Angela Ro Ro: carreira, sucessos e legado

A cantora e compositora carioca se tornou um dos nomes mais marcantes da MPB por sua voz rouca e personalidade irreverente

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Angela Ro Ro foi uma das vozes mais singulares da música popular brasileira. Cantora, compositora e pianista, ela construiu uma carreira marcada por canções de forte carga emocional, uma voz rouca e inconfundível e uma personalidade que desafiou os padrões de seu tempo. Nascida Angela Maria Diniz Gonsalves, em 5 de dezembro de 1949, no Rio de Janeiro, a artista morreu em 8 de setembro de 2025, aos 75 anos, na mesma cidade.

Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, Angela Ro Ro transitou entre a MPB, a música romântica e a canção autoral, tornando-se conhecida por interpretar sentimentos como paixão, abandono, desejo e sofrimento com grande intensidade. Também foi uma das artistas brasileiras que mais cedo assumiram publicamente sua homossexualidade, em uma época em que a visibilidade LGBTQIA+ ainda era bastante limitada no país.

Antes da fama, Angela Ro Ro estudou piano clássico e começou a se apresentar em bares do Rio de Janeiro, especialmente na região de Ipanema, no início dos anos 1970. Em 1971, durante a ditadura militar, mudou-se para Londres. Na Inglaterra, trabalhou em diferentes atividades para sobreviver e continuou se apresentando musicalmente. O período no exterior antecedeu seu retorno ao Brasil e o início da fase mais importante de sua carreira.

A origem do apelido “Ro Ro” não é apresentada de maneira uniforme nas biografias. Algumas fontes relacionam o nome à característica rouca e grave de sua voz, enquanto registros biográficos em inglês atribuem a origem a uma onomatopeia inspirada em sua própria risada. Independentemente da explicação, o apelido acabou se tornando inseparável da identidade artística da cantora.

Quais são os maiores sucessos de Angela Ro Ro?

O grande momento de virada aconteceu em 1979, quando Angela Ro Ro lançou seu primeiro álbum, chamado simplesmente “Angela Ro Ro”. O disco apresentou ao público algumas das canções que se tornariam mais conhecidas de sua trajetória, entre elas “Amor, Meu Grande Amor“, “Tola Foi Você” e “A Mim e a Mais Ninguém”.

O álbum de estreia teve impacto imediato e ajudou a estabelecer Angela Ro Ro como uma das novas vozes importantes da música brasileira. A relevância do trabalho seria reconhecida também posteriormente: a revista Rolling Stone Brasil incluiu o disco entre os maiores álbuns da música brasileira.

O sucesso inicial abriu caminho para uma sequência de trabalhos durante a década de 1980. Em 1980, Angela Ro Ro lançou “Só Nos Resta Viver”, que trouxe a faixa-título e “Tango da Bronquite”. No ano seguinte, apresentou “Escândalo!”, álbum que reforçou a imagem provocadora que acompanhava sua carreira e que também se relacionava às experiências amorosas e aos conflitos pessoais da cantora.

Em 1982, o disco “Simples Carinho” apresentou a canção de mesmo nome, composta por João Donato e Abel Silva. A música se transformou em um dos grandes sucessos associados à intérprete e ajudou a ampliar seu reconhecimento junto ao público.

A importância de Angela Ro Ro, entretanto, não estava apenas em suas próprias gravações. Suas composições também foram interpretadas por grandes nomes da MPB. Maria Bethânia gravou “Gota de Sangue” no álbum “Mel”, de 1979, e posteriormente registrou “Fogueira”, composição de Angela Ro Ro, no disco “Ciclo”, de 1983.

A própria Angela Ro Ro só gravaria “Fogueira” no ano seguinte, em 1984, no álbum “A Vida É Mesmo Assim”. O fato de suas composições serem escolhidas por artistas consagrados ajudou a consolidar sua reputação como uma compositora de destaque, para além de sua atuação como intérprete. Entre os artistas que se aproximaram de sua obra ao longo da carreira estão nomes como Maria Bethânia, Cazuza, Luiz Melodia e Ney Matogrosso. Essa circulação de suas músicas entre diferentes intérpretes contribuiu para ampliar a presença de Angela Ro Ro na história da música brasileira.

Por que Angela Ro Ro foi importante para a música brasileira?

A importância de Angela Ro Ro não pode ser medida apenas pela quantidade de discos ou pelo sucesso de suas canções. Sua trajetória também representa uma mudança de comportamento na música brasileira. Em uma sociedade ainda profundamente conservadora, a cantora levou sua vida afetiva e sua personalidade para o espaço público sem esconder aspectos que poderiam prejudicar sua carreira.

Angela Ro Ro tornou-se uma das primeiras cantoras brasileiras de projeção nacional a assumir publicamente sua homossexualidade. Seu relacionamento com Zizi Possi, encerrado de maneira conturbada no início dos anos 1980, ganhou repercussão e acabou também refletido em sua produção artística.

Essa franqueza ajudou a transformar a cantora em uma referência para diferentes gerações. Sua obra demonstrava que experiências pessoais, inclusive aquelas consideradas controversas pela sociedade da época, poderiam ocupar o centro de uma canção popular.

A personalidade forte também esteve presente em sua relação com a imprensa e com o público. Humor ácido, declarações provocadoras e uma postura pouco preocupada em agradar contribuíram para a construção da imagem de uma artista irreverente. O próprio título “Escândalo” seria posteriormente aproveitado no programa musical que ela apresentou no Canal Brasil entre 2004 e 2005.

A carreira de Angela Ro Ro depois dos anos 1980

Depois do período de maior sucesso comercial, Angela Ro Ro enfrentou fases de instabilidade profissional e pessoal. Mesmo com as mudanças ocorridas na indústria fonográfica brasileira durante as décadas de 1990 e 2000, ela permaneceu ligada à música e continuou realizando apresentações e lançando trabalhos.

No final dos anos 1990, após a morte dos pais, a cantora passou por uma importante transformação pessoal. Enfrentou problemas relacionados à obesidade e à dependência do álcool e perdeu cerca de 40 quilos. Sua vida pessoal, muitas vezes exposta publicamente, tornou-se parte inseparável da percepção que o público tinha de sua trajetória. Em 2006, lançou “Compasso”, mantendo sua produção musical mesmo em um cenário dominado por novos estilos e tendências comerciais. Seu último álbum de estúdio foi “Selvagem”, lançado em 2017.

A longevidade artística é um dos aspectos mais importantes de sua trajetória. Angela Ro Ro conseguiu permanecer relevante mesmo quando os gêneros que dominavam o mercado brasileiro haviam mudado completamente. Sua obra continuou associada principalmente à força das letras, à interpretação intensa e à personalidade incomum de sua autora.

Angela Ro Ro morreu de quê?

Angela Ro Ro morreu em 8 de setembro de 2025, aos 75 anos, após permanecer internada por quase três meses no Rio de Janeiro. A cantora estava hospitalizada desde 17 de junho daquele ano na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Silvestre, no Cosme Velho, em razão de uma grave infecção pulmonar.

Durante a internação, Angela Ro Ro passou por uma traqueostomia e posteriormente foi submetida a uma cirurgia. Seu estado de saúde, entretanto, se agravou após o procedimento. Ela apresentou uma queda severa de pressão arterial e sofreu uma parada cardíaca.

Além dos problemas de saúde, os últimos meses de sua vida foram marcados por dificuldades financeiras. Segundo informações divulgadas por seu advogado, a cantora não recebia aposentadoria oficial e não havia acumulado recursos suficientes para garantir sua estabilidade financeira. Antes da internação, ela chegou a pedir ajuda aos fãs por meio de doações via Pix.

A morte da cantora encerrou uma trajetória de mais de 40 anos dedicada à música, mas não interrompeu a circulação de sua obra. Suas canções continuam sendo lembradas, interpretadas e redescobertas por diferentes gerações.

Qual é o legado de Angela Ro Ro?

O legado de Angela Ro Ro está na combinação de três características que raramente apareceram juntas na música brasileira: uma voz imediatamente reconhecível, uma produção autoral marcada pela intensidade emocional e uma postura pessoal que desafiava convenções.

Entre suas influências estavam a cantora norte-americana Ella Fitzgerald, a brasileira Maysa Matarazzo e o compositor belga Jacques Brel. Sua interpretação, carregada de dramaticidade e personalidade, chegou a ser comparada pela crítica à voz de Janis Joplin.

Angela Ro Ro também construiu uma carreira que ultrapassou a música. Participou do especial “Pirlimpimpim”, produzido pela TV Globo a partir da obra de Monteiro Lobato, no qual emprestou sua voz à personagem Cuca, a conhecida bruxa do universo de “Sítio do Picapau Amarelo”. A participação em uma produção infantil revela uma dimensão menos lembrada de sua carreira. A mesma artista, associada a canções passionais, declarações polêmicas e uma vida pública transgressora, também conseguiu participar de um dos universos infantis mais conhecidos da televisão brasileira.

Mais do que uma cantora de sucessos como “Amor, Meu Grande Amor” e “Simples Carinho”, Angela Ro Ro deixou uma trajetória marcada pela autenticidade. Sua música transformou experiências íntimas em canções que alcançaram grandes intérpretes e diferentes gerações.

Por isso, sua importância para a história da música brasileira vai além dos números de vendas ou das posições em paradas musicais. Angela Ro Ro ajudou a ampliar os limites do que uma cantora poderia dizer, cantar e assumir publicamente. Sua voz e sua obra permanecem como parte de uma história da MPB construída também por artistas que escolheram não se encaixar.

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