O violão e a carreira de Dilermando Reis

Nascido em 22 de setembro de 1916, o músico levou a tradição da seresta, do choro e da valsa às rádios, aos discos e às salas de concerto

HiperHistória
Domínio público / Acervo Arquivo Nacional

Dilermando dos Santos Reis nasceu em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, em 22 de setembro de 1916, e morreu no Rio de Janeiro em 2 de janeiro de 1977. Violonista, compositor, professor e arranjador, ele se tornou um dos principais responsáveis pela popularização do violão solo no Brasil. Sua carreira combinou repertório popular e erudito em uma linguagem marcada pelo lirismo, pela sonoridade das cordas de aço e pela tradição seresteira.

Os maiores sucessos de Dilermando Reis incluem “Magoado”, “Noite de Lua”, “Dois Destinos”, “Uma Valsa e Dois Amores” e “Se Ela Perguntar”. O músico também ficou conhecido por interpretações de “Abismo de Rosas”, de Américo Jacomino, o Canhoto, e “Sons de Carrilhões”, de João Pernambuco. Embora o prompt costume mencionar “violinistas”, o termo correto para quem toca violão é violonista; nesse campo, Dilermando se tornou referência no Brasil e alcançou admiradores em outros países.

A trajetória de Dilermando começou em um ambiente familiar ligado à música. Seu pai, Francisco dos Santos Reis, tocava violão de forma amadora, e o menino aprendeu os primeiros acordes em casa. Ainda adolescente, ele desenvolveu a capacidade de tirar músicas de ouvido e passou a estudar com maior regularidade, construindo uma técnica que uniria espontaneidade popular e disciplina musical.

A formação e a chegada ao Rio de Janeiro

Em 1931, aos 15 anos, Dilermando conheceu o violonista Levino da Conceição, que se apresentava em Guaratinguetá. Levino era cego e realizava excursões pelo país; Dilermando tornou-se seu aluno e acompanhante, experiência que ampliou seu contato com diferentes públicos e formas de apresentação. A convivência também contribuiu para que o jovem músico deixasse o ambiente de sua cidade e buscasse uma carreira profissional.

Dilermando chegou ao Rio de Janeiro em 1933, ainda muito jovem. Segundo relatos preservados em registros biográficos, ele procurou o violonista João Pernambuco e encontrou apoio para permanecer na cidade depois que Levino deixou de acompanhá-lo. Para sobreviver, deu aulas em lojas de instrumentos musicais, entre elas a Guitarra de Prata, onde entrou em contato com músicos importantes da cena carioca.

A carreira radiofônica começou a ganhar força em meados da década de 1930. O radialista Renato Murce ouviu Dilermando tocar e o convidou para participar de programas da Rádio Guanabara e da Rádio Transmissora. Em 1936, o violonista também integrou o regional de Pixinguinha, ao lado de nomes como Luperce Miranda, Tute, João da Baiana e Luiz Americano.

Na década de 1940, Dilermando passou pelo Cassino da Urca e pela Rádio Clube do Brasil, onde apresentou solos e acompanhou cantores. Ele chegou a organizar uma orquestra de dez violões, formação incomum para a época. Em 1941, lançou pela Columbia seu primeiro disco de 78 rotações, com a valsa “Noite de Lua” e o choro “Magoado”, duas composições próprias que ajudaram a estabelecer sua identidade artística.

Os sucessos que consagraram Dilermando Reis

“Magoado” tornou-se uma das obras mais reconhecidas de Dilermando Reis. O choro apresenta uma melodia expressiva e uma escrita que se adapta ao violão solo, instrumento que o compositor ajudou a levar ao centro da música popular brasileira. A peça passou a integrar o repertório de estudantes e profissionais, sendo transmitida por gravações, aulas e apresentações.

“Noite de Lua”, registrada no mesmo primeiro disco, consolidou a habilidade de Dilermando como compositor de valsas. Outras obras, como “Dois Destinos”, “Tempo de Criança”, “Doutor Sabe Tudo”, “Xodó da Baiana” e “Se Ela Perguntar”, ampliaram sua presença entre os intérpretes do violão brasileiro. Seu catálogo inclui valsas, choros, guarânias, boleros, toadas, maxixes e sambas-canção.

“Se Ela Perguntar”, composta em parceria com o letrista Jair Amorim, ganhou dimensão além do repertório instrumental. A existência de uma letra permitiu que a música circulasse também entre cantores, enquanto as interpretações de Dilermando preservaram o papel central do violão. A obra se tornou uma de suas composições mais conhecidas e contribuiu para a divulgação internacional de seu nome.

Dilermando também foi um intérprete importante de compositores que ajudaram a formar a tradição do violão brasileiro. Em 1952, gravou “Sons de Carrilhões”, de João Pernambuco, peça que se tornou um de seus maiores sucessos como instrumentista. Em 1958, registrou “Abismo de Rosas”, de Américo Jacomino, ampliando o alcance de uma valsa já consagrada no repertório do instrumento.

Rádio Nacional e a projeção do violão brasileiro

Em 1956, Dilermando passou a trabalhar na Rádio Nacional por influência do presidente Juscelino Kubitschek. Ali comandou o programa Sua Majestade, o Violão, que permaneceu no ar até 1969. O título do programa transformou-se em um de seus apelidos e sintetizou a posição que ele ocupava na cultura musical brasileira daquele período.

A rádio permitiu que o violão chegasse a ouvintes que nunca teriam acesso a um recital. Dilermando apresentava peças próprias, obras de compositores populares e arranjos de música erudita. Essa circulação ajudou a formar uma tradição de ouvintes interessados no violão solo e estimulou músicos mais jovens a estudar o instrumento.

Seu repertório não se limitava às próprias composições. Dilermando gravou obras de Pixinguinha, João Pernambuco, Ernesto Nazareth, Heitor Villa-Lobos, Francisco Tárrega, Frédéric Chopin e Claude Debussy. Em 1972, lançou Dilermando Reis interpreta Pixinguinha e, no ano seguinte, o álbum Homenagem a Ernesto Nazareth, projeto que reunia peças como “Odeon”, “Brejeiro” e “Apanhei-te, Cavaquinho”.

O estilo do violonista era romântico e cantabile, com melodias destacadas sobre acompanhamentos de baixos e acordes. Ele tocava com cordas de aço e sem palheta, utilizando vibratos e antecipações dos baixos para produzir uma sonoridade própria. Essa escolha o aproximava da tradição dos seresteiros e o diferenciava de abordagens mais ligadas ao violão clássico europeu.

A influência de Dilermando ultrapassou suas gravações. Ele transcreveu e editou dezenas de obras para violão, ampliando o material disponível para estudantes e intérpretes. Radamés Gnattali dedicou a ele o Concerto nº 1 para Violão e Orquestra, reconhecimento que aproximou ainda mais o universo popular do repertório concertístico.

Dilermando Reis morreu em 1977, mas suas obras continuam presentes no ensino e nas apresentações de violão. Uma particularidade pouco conhecida de sua produção é que ele compôs mais de cem músicas em gêneros variados, embora o público frequentemente o associe sobretudo a “Magoado” e às valsas românticas; seu nome artístico, portanto, representa apenas uma parte de um catálogo muito mais amplo.

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