A guerra é definida pelas ciências sociais e políticas como um conflito armado organizado entre grupos, geralmente Estados, que envolve o uso sistemático da violência para impor objetivos políticos, territoriais ou ideológicos. O conceito foi formalizado pelo general e teórico militar prussiano Carl von Clausewitz, autor da obra “Da Guerra” (Vom Kriege), publicada postumamente em 1832. Clausewitz definiu a guerra como “a continuação da política por outros meios”, ideia que ainda hoje fundamenta a teoria política sobre conflitos armados. Essa definição separa a guerra de episódios de violência espontânea, ao vinculá-la diretamente a decisões políticas deliberadas.
O historiador britânico Eric Hobsbawm, na obra “Era dos Extremos: O Breve Século XX” (1994), descreveu o período entre 1914 e 1991 como uma sequência marcada por conflitos de escala inédita, incluindo as duas Guerras Mundiais. Já a filósofa política Hannah Arendt, em “Sobre a Violência” (1970), distinguiu poder político de violência instrumental, argumentando que a guerra representa o uso extremo da força quando os mecanismos políticos de negociação fracassam. O sociólogo Charles Tilly, em artigo de 1985 sobre formação de Estados, resumiu a relação entre guerra e política com a frase “a guerra fez o Estado, e o Estado fez a guerra”, apontando que os conflitos armados historicamente moldaram as estruturas administrativas e fiscais das nações.
Este artigo aborda a guerra sob três perspectivas complementares: o conceito nas teorias social e política, os critérios acadêmicos que diferenciam guerra de outros tipos de conflito, e a origem histórica dos confrontos armados, incluindo o contexto das duas Guerras Mundiais do século XX. Cada seção reúne referências de historiadores e cientistas políticos reconhecidos, com datas, locais e instituições identificados. O objetivo é oferecer uma explicação completa sobre por que certos conflitos são classificados como guerra e outros não.
O conceito de guerra na teoria social e política
Nas ciências políticas, a guerra é tratada como um fenômeno institucional, não apenas como violência descontrolada. Autores como o cientista político Kenneth Waltz, em “Man, the State, and War” (1959), analisaram as causas da guerra em três níveis: o indivíduo, o Estado e o sistema internacional. Waltz argumentou que a ausência de uma autoridade central acima dos Estados, condição chamada de anarquia internacional, cria incentivos estruturais para conflitos armados. Essa abordagem influenciou diretamente a chamada teoria realista das relações internacionais, ainda utilizada para explicar rivalidades entre potências.
Do ponto de vista sociológico, a guerra também é analisada como fator de coesão interna. O sociólogo alemão Georg Simmel observou, no início do século XX, que conflitos externos tendem a reforçar a identidade e a unidade de grupos internos, fenômeno posteriormente estudado por cientistas políticos sob o termo “efeito bandeira”, associado ao aumento temporário de apoio popular a governos durante crises militares. Esse mecanismo social ajuda a explicar por que líderes políticos, em diversos períodos históricos, recorreram a conflitos externos para consolidar poder interno. A Guerra das Malvinas, travada entre Argentina e Reino Unido em 1982, é frequentemente citada como exemplo desse fenômeno.
A guerra, portanto, não é apenas um evento militar, mas um processo social que reorganiza instituições, economias e identidades coletivas. Governos em guerra costumam expandir a arrecadação fiscal, criar exércitos permanentes e fortalecer burocracias estatais, processo descrito por Charles Tilly como formação do Estado moderno europeu entre os séculos XVI e XIX. Esse processo é observável na centralização administrativa da França sob Luís XIV e na unificação da Prússia sob Otto von Bismarck no século XIX. A guerra funcionou, nesses casos, como instrumento de construção institucional, e não apenas como destruição.
Guerra e outros tipos de conflito: as diferenças acadêmicas
Nem todo conflito armado é classificado como guerra pelas ciências sociais. O Correlates of War Project, iniciativa acadêmica fundada em 1963 pelos cientistas políticos J. David Singer e Melvin Small, na Universidade de Michigan, estabeleceu um critério quantitativo amplamente usado: um conflito é considerado guerra quando resulta em pelo menos 1.000 mortes diretamente relacionadas a combates em um período de doze meses. Confrontos abaixo desse limite são classificados como conflitos armados menores, distúrbios civis ou incidentes militares isolados. Esse critério permite comparações históricas entre diferentes períodos e regiões do mundo.
Outra distinção acadêmica importante separa guerra interestatal, guerra civil e guerrilha. A guerra interestatal envolve exércitos regulares de dois ou mais Estados soberanos, como ocorreu na Guerra Franco-Prussiana de 1870 e 1871. A guerra civil, por sua vez, ocorre dentro das fronteiras de um único Estado, como a Guerra Civil dos Estados Unidos, travada entre 1861 e 1865. Já a guerrilha caracteriza-se por táticas irregulares, geralmente empregadas por grupos com menor poder militar, como demonstrou o conflito no Vietnã entre as forças norte-vietnamitas e os Estados Unidos, de 1955 a 1975.
Critérios que distinguem uma guerra de um confronto menor
Para ser formalmente classificado como guerra, um conflito precisa atender simultaneamente a critérios de escala, organização e continuidade. A escala refere-se ao número de vítimas e à extensão territorial envolvida. A organização exige que os grupos combatentes possuam comando centralizado, hierarquia definida e capacidade de sustentar operações prolongadas, o que diferencia exércitos regulares de milícias dispersas. A continuidade implica que o confronto se mantenha ativo por período relevante, não apenas em episódios isolados de violência.
O historiador militar britânico John Keegan, autor de “A History of Warfare” (1993), reforçou que a guerra também exige um componente cultural e simbólico ausente em conflitos menores. Segundo Keegan, sociedades desenvolvem rituais, hierarquias militares e códigos de conduta específicos para a guerra, elementos que a diferenciam de brigas comunitárias ou disputas locais por recursos. Rebeliões pontuais, motins urbanos e conflitos entre facções criminosas, por exemplo, normalmente não atendem aos critérios de organização militar contínua exigidos pela definição acadêmica de guerra. Essa distinção é relevante para historiadores ao classificar eventos como a Revolta dos Boxers, na China, entre 1899 e 1901, considerada por muitos pesquisadores uma guerra híbrida, com características tanto de rebelião interna quanto de confronto internacional.
Primeira e Segunda Guerra Mundial: origem e evolução dos conflitos armados
A Primeira Guerra Mundial começou em 28 de julho de 1914, após o assassinato do arquiduque austro-húngaro Francisco Ferdinando em Sarajevo, na Bósnia, em 28 de junho daquele ano, e terminou em 11 de novembro de 1918, com o Armistício de Compiègne, assinado na França. O conflito envolveu as potências da Tríplice Entente, formada por França, Reino Unido e Rússia, contra as Potências Centrais, lideradas pelo Império Alemão e o Império Austro-Húngaro. Estima-se que o conflito tenha causado entre 15 e 20 milhões de mortes, somando militares e civis, segundo levantamentos históricos consolidados. O Tratado de Versalhes, assinado em 28 de junho de 1919, impôs pesadas sanções econômicas e territoriais à Alemanha, fator que historiadores como Hobsbawm relacionam diretamente ao surgimento de condições políticas para a Segunda Guerra Mundial.
A Segunda Guerra Mundial teve início em 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pela Alemanha nazista sob comando de Adolf Hitler, e terminou em 2 de setembro de 1945, com a rendição formal do Japão a bordo do encouraçado USS Missouri, na Baía de Tóquio. O conflito opôs os Aliados, liderados por Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e China, contra as potências do Eixo, formadas por Alemanha, Itália e Japão. É considerada a guerra mais letal da história humana, com estimativas que variam entre 70 e 85 milhões de mortos, incluindo o Holocausto, no qual o regime nazista exterminou cerca de seis milhões de judeus europeus entre 1941 e 1945.
As duas Guerras Mundiais diferem de conflitos regionais anteriores pela escala industrial da destruição e pelo caráter global da mobilização militar. Pela primeira vez na história, países de diferentes continentes foram simultaneamente envolvidos em operações militares coordenadas, com uso intensivo de tecnologia bélica desenvolvida especificamente para o confronto, como armas químicas na Primeira Guerra e armas nucleares na Segunda, empregadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945. Essa característica industrial e tecnológica é o principal fator que separa as Guerras Mundiais de conflitos regionais como as Guerras Napoleônicas, ocorridas entre 1803 e 1815, que, apesar de sua extensão territorial, não alcançaram o mesmo grau de mobilização econômica total observado no século XX.
A origem dos conflitos armados na história humana é debatida entre arqueólogos e antropólogos. O historiador militar Lawrence Keeley, em “War Before Civilization” (1996), argumentou que a violência organizada entre grupos humanos antecede o surgimento dos Estados, contrariando a ideia de que a guerra seria invenção exclusiva de sociedades civilizadas. Essa tese foi reforçada por escavações no sítio arqueológico de Nataruk, no Quênia, analisadas por Marta Mirazón Lahr e equipe em estudo publicado na revista Nature em 2016, que identificaram esqueletos de aproximadamente dez mil anos com marcas de violência coletiva, consideradas por parte da comunidade acadêmica como evidência de um dos primeiros confrontos armados documentados da pré-história.
O cientista político israelense Azar Gat, autor de “War in Human Civilization” (2006), defende que a guerra tem raízes evolutivas ligadas à competição por recursos entre grupos de caçadores-coletores. Segundo Gat, a organização social necessária para a guerra se desenvolveu antes da agricultura e da formação dos primeiros Estados, datados por arqueólogos em cerca de 3.100 a.C., com o surgimento do Antigo Egito sob o rei Narmer. Essa perspectiva contraria interpretações anteriores, como a do antropólogo Jean-Jacques Rousseau, que associava a guerra ao surgimento da propriedade privada e das sociedades organizadas. A divergência entre essas correntes historiográficas permanece um dos temas mais debatidos na antropologia da guerra.
Uma curiosidade histórica ilustra bem a complexidade do tema: a Primeira Guerra Mundial teve, tecnicamente, seu fim oficial adiado por décadas. O Tratado de Versalhes previa o pagamento de reparações de guerra pela Alemanha, e a última parcela dessa dívida só foi quitada em 3 de outubro de 2010, quando o governo alemão realizou o pagamento final de juros pendentes desde 1919, encerrando formalmente as obrigações financeiras derivadas de um conflito iniciado quase um século antes.