Os povos indígenas dos Estados Unidos formavam, antes da chegada dos colonizadores europeus a partir de 1492, centenas de nações distintas, com línguas, organizações políticas e territórios próprios distribuídos por todo o continente norte-americano. Atualmente, o governo federal dos Estados Unidos reconhece 574 tribos indígenas, número que representa apenas uma fração das centenas de povos que existiam antes da colonização britânica, francesa e espanhola. Essas nações se concentravam em regiões específicas, como o Nordeste, o Sudeste, as Grandes Planícies e o Sudoeste americano, cada uma desenvolvendo formas próprias de organização social e subsistência. A partir do século XVII, o avanço da colonização europeia e, posteriormente, da expansão territorial dos Estados Unidos, provocou a dizimação ou a assimilação forçada da maior parte desses povos indígenas.
Entre os principais povos indígenas dos Estados Unidos estão a Confederação Iroquesa, no nordeste; os chamados Cinco Povos Civilizados, no sudeste; os Sioux, Cheyenne e Comanche, nas Grandes Planícies; e os Navajo, Apache e povos Pueblo, no sudoeste americano. Cada um desses grupos manteve conflitos prolongados com o governo dos Estados Unidos ao longo do século XIX, resultando em tratados frequentemente violados, guerras, remoções forçadas e confinamento em reservas. A localização geográfica de cada povo definiu, em grande medida, o tipo de recurso natural disputado pelos colonizadores, seja a terra agrícola no sudeste, o ouro nas Grandes Planícies ou a água no sudoeste árido.
O processo de dizimação dos povos indígenas dos Estados Unidos combinou três fatores principais: epidemias de doenças trazidas pelos europeus, para as quais os povos nativos não possuíam imunidade; conflitos militares diretos com colonos e com o Exército dos Estados Unidos; e políticas governamentais de remoção e assimilação forçada aplicadas a partir do século XIX. Historiadores como Alfred Crosby documentaram que doenças como varíola, sarampo e gripe dizimaram populações indígenas inteiras já nos primeiros séculos de contato, antes mesmo da maioria dos conflitos armados relatados na história dos Estados Unidos. Esses três fatores se sobrepuseram ao longo de gerações, resultando na perda de território, população e autonomia política da maioria das nações indígenas do continente.
Os principais povos indígenas do nordeste e sudeste dos Estados Unidos
A Confederação Iroquesa, também chamada Haudenosaunee, reunia as nações Mohawk, Oneida, Onondaga, Cayuga e Seneca, às quais se juntou posteriormente a nação Tuscarora, formando as chamadas Seis Nações no território que hoje corresponde ao estado de Nova York. Essa confederação, organizada politicamente séculos antes da chegada europeia, é reconhecida por historiadores como um dos sistemas de governo participativo mais antigos da América do Norte, com influência documentada sobre debates políticos durante a formação dos Estados Unidos no século XVIII. Após a Revolução Americana, concluída em 1783, a maior parte das terras iroquesas foi progressivamente confiscada, restando às Seis Nações pequenas reservas fragmentadas no estado de Nova York e na província canadense de Ontário.
No sudeste dos Estados Unidos, os povos Cherokee, Choctaw, Chickasaw, Creek, também chamados Muscogee, e Seminole ficaram conhecidos como os Cinco Povos Civilizados, denominação atribuída por colonizadores brancos em referência à adoção parcial de costumes agrícolas e políticos europeus por essas nações. Em 1830, o presidente Andrew Jackson sancionou a Lei de Remoção Indígena, que autorizou o governo federal a forçar essas cinco nações a deixar suas terras ancestrais no sudeste em direção ao chamado Território Indígena, hoje o estado de Oklahoma. Esse processo, conhecido como Trilha das Lágrimas, deslocou à força cerca de 60 mil indígenas entre 1830 e 1850, e apenas na remoção Cherokee de 1838 morreram entre três mil e quatro mil pessoas, de um total estimado entre quinze mil e dezesseis mil, vítimas de fome, doenças e exposição durante o trajeto.
Os povos indígenas das Grandes Planícies e do sudoeste americano
Nas Grandes Planícies, os povos Sioux, divididos nos ramos Lakota, Dakota e Nakota, junto com os Cheyenne e os Comanche, desenvolveram uma cultura fortemente baseada na caça ao bisão e no uso do cavalo, introduzido pelos espanhóis séculos antes. O conflito entre os Sioux e o Exército dos Estados Unidos se intensificou após a descoberta de ouro nas Colinas Negras, em Dakota do Sul, em 1874, território garantido aos Lakota pelo Tratado de Fort Laramie de 1868. Essa disputa culminou na Batalha de Little Bighorn, em Montana, em junho de 1876, quando forças lakota, cheyenne e arapaho derrotaram o Sétimo Regimento de Cavalaria comandado pelo general George Armstrong Custer, e terminou, catorze anos depois, no Massacre de Wounded Knee, em Dakota do Sul, quando soldados norte-americanos mataram cerca de trezentos lakotas em dezembro de 1890. Os Comanche, dominantes nas planícies do sul, mantiveram resistência prolongada sob a liderança do chefe Quanah Parker até se renderem em 1875, após a Guerra do Rio Vermelho.
No sudoeste americano, os povos Navajo, autodenominados Diné, e os Apache ocuparam territórios hoje correspondentes ao Arizona, Novo México e Utah, junto com os povos Pueblo, que mantinham aldeias agrícolas fixas na mesma região desde séculos antes da colonização espanhola. Em 1864, o Exército dos Estados Unidos forçou cerca de dez mil Navajo e quinhentos Apache Mescalero a caminhar mais de 480 quilômetros até o campo de internamento de Bosque Redondo, no Novo México, episódio conhecido como Longa Caminhada, no qual até três mil e quinhentas pessoas morreram de fome e doença ao longo de quatro anos de confinamento. Os Apache Chiricahua, liderados pelo chefe Gerônimo, mantiveram a última resistência armada organizada contra o governo dos Estados Unidos, rendendo-se apenas em 1886, no Arizona.
A dizimação do bisão e o colapso das Grandes Planícies
Entre as décadas de 1870 e 1880, caçadores comerciais e o próprio Exército dos Estados Unidos promoveram a matança sistemática de bisões nas Grandes Planícies, reduzindo uma população estimada em dezenas de milhões de animais para poucas centenas de exemplares em poucas décadas. Diversos oficiais militares reconheceram publicamente, em relatórios da época, que a destruição dos rebanhos de bisões representava uma estratégia deliberada para eliminar a principal fonte de alimento, vestuário e abrigo dos povos das planícies, forçando sua rendição e dependência das reservas administradas pelo governo federal. Essa política atingiu diretamente os Sioux, Cheyenne e Comanche, cuja economia e organização social dependiam quase inteiramente da caça ao bisão. O colapso da população de bisões acelerou, na prática, o fim da resistência armada indígena nas planícies durante a década de 1880.
Como os povos indígenas dos Estados Unidos foram exterminados ou assimilados
Após o fim dos principais conflitos armados, o governo dos Estados Unidos aprovou, em 1887, a Lei Dawes, que fragmentou as terras coletivas das reservas indígenas em lotes individuais, distribuindo parcelas a famílias nativas e declarando as terras remanescentes “excedentes”, disponíveis para venda a colonos não indígenas. Essa política reduziu drasticamente o território sob controle indígena nos Estados Unidos, de aproximadamente 56 milhões de hectares em 1887 para cerca de 19 milhões de hectares até a década de 1930, segundo levantamentos históricos do próprio governo federal. A Lei Dawes também condicionava a cidadania norte-americana à aceitação individual dos lotes de terra, rompendo deliberadamente com as estruturas de propriedade coletiva tradicionais da maioria dos povos indígenas.
Paralelamente à perda de terras, o governo dos Estados Unidos implementou, a partir de 1879, um sistema de internatos indígenas obrigatórios, inaugurado pela Carlisle Indian Industrial School, na Pensilvânia, fundada pelo oficial do Exército Richard Henry Pratt. Nessas instituições, crianças indígenas eram retiradas à força de suas famílias, proibidas de falar suas línguas nativas e obrigadas a adotar vestimentas, nomes e costumes considerados “americanos”, em uma política de assimilação cultural que perdurou até meados do século XX. Em 1924, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei de Cidadania Indígena, concedendo cidadania plena a todos os indígenas nascidos no território nacional, medida que, embora simbolicamente relevante, não revertia as perdas territoriais e culturais já consolidadas. A combinação entre epidemias, guerras, remoções forçadas, fragmentação de terras e assimilação cultural explica por que a maioria dos povos indígenas dos Estados Unidos sobrevive hoje como pequenas comunidades organizadas em reservas, distantes dos territórios originais que ocupavam antes da colonização.
Delegados como Benjamin Franklin estudaram diretamente o sistema político das Seis Nações durante o século XVIII, e historiadores constitucionais debatem até hoje até que ponto essa estrutura confederativa indígena influenciou os debates que resultaram na Constituição dos Estados Unidos, promulgada em 1787, mais de um século antes de a Lei de Cidadania Indígena reconhecer plenamente os descendentes desses mesmos povos como cidadãos do país que ajudaram a inspirar.