A fundação de Roma, datada tradicionalmente no ano de 753 a.C. pelo historiador Marco Terêncio Varrão, baseia-se em uma complexa narrativa mitológica. A lenda central relata a história dos gêmeos Rômulo e Remo, estabelecidos na região do Lácio, na península Itálica. Esses personagens mitológicos materializam a explicação ideológica criada pelos antigos habitantes para justificar a origem divina da sua civilização. O relato mescla fatos arqueológicos sobre os primeiros assentamentos no Monte Palatino com a crença em deuses do panteão latino.
A genealogia dos irmãos conecta a península Itálica aos heróis da Guerra de Troia, especificamente a Eneias. Segundo a tradição registrada pelo poeta Virgílio na obra “Eneida”, os gêmeos possuíam ascendência real na cidade de Alba Longa. O avô dos meninos, o rei Numitor, sofreu um golpe de Estado orquestrado por seu próprio irmão, Amúlio. Para evitar reivindicações ao trono, o usurpador forçou a filha de Numitor, Reia Sílvia, a se tornar uma sacerdotisa vestal, obrigada ao celibato absoluto.
O plano de Amúlio falhou quando o deus da guerra, Marte, engravidou a sacerdotisa Reia Sílvia. Ao descobrir o nascimento de Rômulo e Remo, o rei ilegítimo ordenou o assassinato imediato dos recém-nascidos. Um servo real colocou as crianças em um cesto de vime e lançou o recipiente nas águas do rio Tibre. A correnteza fluvial, no entanto, depositou a cesta em segurança nas margens rasas perto do Monte Palatino, na base de uma figueira sagrada.
O resgate pela loba Capitolina e a origem de Roma
O choro dos bebês famintos atraiu uma loba que habitava a região florestal próxima ao rio Tibre. O animal selvagem levou as crianças para a caverna de Lupercal, localizada na base do Monte Palatino. Lá, a loba amamentou e protegeu os gêmeos, recebendo a ajuda de um pica-pau, ave também consagrada ao deus Marte. Esse momento de intervenção divina e animal garantiu a sobrevivência física dos fundadores do futuro império.
O período de proteção animal terminou quando o pastor de ovelhas Fáustulo encontrou os gêmeos na caverna. O trabalhador levou as crianças para a sua casa, entregando-as aos cuidados de sua esposa, Aca Larência. O casal de camponeses criou os meninos até a fase adulta, ocultando a sua verdadeira identidade real. Durante a juventude, Rômulo e Remo trabalharam como pastores e demonstraram habilidades naturais de liderança entre os jovens da região.
A revelação sobre a linhagem nobre ocorreu após um conflito local envolvendo os pastores de Amúlio e Numitor. Remo acabou capturado e levado perante o seu avô destituído, momento em que a identidade dos gêmeos foi finalmente descoberta. Os irmãos organizaram uma rebelião armada, mataram o usurpador Amúlio e restauraram Numitor ao trono de Alba Longa. Após a vitória política, os jovens decidiram fundar a sua própria cidade no local exato onde a loba os havia salvado.
A disputa entre os irmãos e o augúrio divino
A escolha do local exato para a construção da nova cidade gerou o primeiro grande conflito entre os irmãos. Rômulo desejava estabelecer o assentamento no Monte Palatino, área associada à caverna de Lupercal e ao resgate na infância. Remo, discordando da preferência fraterna, defendia a fortificação no vizinho Monte Aventino, alegando vantagens estratégicas de defesa. A incapacidade de alcançar um acordo diplomático forçou os gêmeos a buscarem a resposta por meio da interpretação da vontade dos deuses.
Os irmãos recorreram à prática etrusca do augúrio, método que consistia em observar o voo dos pássaros para tomar decisões políticas. Remo posicionou-se no Monte Aventino e avistou seis abutres primeiro, reivindicando a vitória divina pela primazia temporal. Rômulo, observando do Monte Palatino momentos depois, avistou doze abutres, exigindo o direito de governar devido à superioridade numérica das aves. A ambiguidade no resultado do augúrio intensificou a rivalidade, eliminando qualquer possibilidade de uma governança compartilhada.
O fratricídio e a ascensão do primeiro rei
Rômulo iniciou a demarcação da nova cidade traçando um sulco sagrado no solo com um arado, conhecido como pomerium. Essa fronteira religiosa estabelecia o limite inviolável do assentamento, punindo com a morte qualquer pessoa que a cruzasse sem permissão. Remo, em um ato de zombaria e desprezo pelas fortificações incipientes, saltou por cima do muro rudimentar desenhado pelo irmão. Enfurecido com a profanação do espaço sagrado, Rômulo assassinou Remo com um golpe de espada, consolidando o seu poder absoluto.
A consolidação da mitologia na sociedade romana
O fratricídio marcou o início oficial da monarquia romana em 21 de abril de 753 a.C., com Rômulo assumindo o título de primeiro rei. O novo governante precisou atrair habitantes para povoar as terras delimitadas, criando um refúgio para exilados, fugitivos e escravos no Monte Capitolino. Essa política de asilo forneceu a força de trabalho e o contingente militar necessários para a sobrevivência do núcleo urbano nascente. A cidade recebeu o nome do seu fundador, estabelecendo a base militar e territorial que originaria a República séculos mais tarde.
A carência de mulheres na nova população gerou o famoso episódio do Rapto das Sabinas. Rômulo organizou um festival religioso e convidou a tribo vizinha dos sabinos, sequestrando as mulheres jovens durante as celebrações. O conflito armado subsequente terminou apenas quando as próprias mulheres sabinas intervieram no campo de batalha, exigindo a paz entre seus pais e novos maridos. O acordo diplomático unificou as duas populações sob o governo conjunto de Rômulo e do rei sabino Tito Tácio.
A arqueologia moderna e a linguística revelam perspectivas fascinantes sobre as origens do mito de fundação de Roma. A palavra latina “lupa”, além de designar a fêmea do lobo, era o termo comum utilizado na Antiguidade para identificar prostitutas. Diversos historiadores clássicos, incluindo Tito Lívio, sugeriram que Aca Larência, a mãe adotiva dos gêmeos, exercia a prostituição na região do Lácio. Essa ambiguidade linguística permitiu que a figura humana marginalizada fosse gradativamente substituída pela loba selvagem na mitologia estatal da capital italiana.