Os ciganos, ou povo romani, têm origem documentada no noroeste da Índia, em uma região que corresponde atualmente aos estados de Punjab, Rajastão e Haryana. Grupos ancestrais iniciaram uma migração sistemática por volta do ano 1000 d.C.
A origem indiana é sustentada principalmente por evidências linguísticas. Análises comparativas indicam que a língua romani deriva do sânscrito clássico e compartilha cerca de 30% do vocabulário básico com línguas indo-arianas modernas, como hindi, punjabi e caxemiri.
O historiador britânico Angus Fraser, autor de The Gypsies (1992), ressalta que essas semelhanças linguísticas demonstram uma longa permanência do povo romani em território indiano, mas não permitem determinar com precisão as razões que levaram à migração iniciada no período medieval.
A rota migratória foi reconstruída por linguistas e historiadores a partir de empréstimos lexicais incorporados ao romani. O percurso inclui a Pérsia (atual Irã), a Armênia e, posteriormente, o Império Bizantino, pela região da Ásia Menor, atual Turquia.
O linguista Ian Hancock relaciona a origem de parte desses grupos aos rajputs, uma casta guerreira do norte da Índia. Essa hipótese está associada ao período das invasões de Mahmud de Ghazni, entre 1000 e 1027 d.C., e também encontra apoio em elementos de vocabulário militar preservados na língua romani.
Termos como “vordon”, relacionado a carroça de guerra, e “baxt”, associado à sorte em batalha, são apontados como exemplos. Como os ciganos não produziram registros escritos próprios antes do século XIX, grande parte da história anterior à chegada à Europa precisa ser reconstruída por meio da linguística e de documentos produzidos por outros povos.
Chegada dos ciganos à Europa
Os primeiros grupos ciganos chegaram aos Bálcãs e à Grécia entre os séculos XIII e XIV. Na Europa Central e Ocidental, sua presença tornou-se documentada ao longo do século XV, com registros entre 1417 e 1430.
Documentos de cidades como Zagreb, em 1378, e Hamburgo, em 1427, registram a passagem de grupos ciganos. Em alguns lugares, eles foram inicialmente recebidos como peregrinos cristãos vindos de terras distantes e portadores de salvo-condutos reais ou imperiais.
Foi nesse contexto que surgiram algumas das denominações usadas para identificar o povo romani. Em partes da Europa, acreditava-se equivocadamente que esses grupos eram originários do Egito.
Essa associação deu origem a termos como gypsy, em inglês, derivado de Egyptian, e gitano, em espanhol. A origem da palavra “cigano”, em português, também está relacionada a essa tradição de denominação. Alguns pesquisadores ainda relacionam esses termos à palavra grega athinganoi, usada para designar uma seita religiosa bizantina.
Cultura, nomadismo e organização social
O nomadismo é frequentemente associado à identidade cigana, mas nunca foi uma prática universal entre os grupos romani. Estimativas antropológicas indicam que apenas 15% a 20% dos ciganos europeus mantinham um estilo de vida plenamente nômade no século XIX.
Os diferentes grupos desenvolveram formas próprias de organização. Os calon, presentes na Península Ibérica e no Brasil desde o século XVI, e os sinti, encontrados principalmente no noroeste europeu, apresentaram diferentes níveis de mobilidade conforme as condições econômicas e as leis de cada região.
Diversos ofícios tradicionais também se adaptavam à mobilidade. Entre eles estavam a ourivesaria, a ferraria, a música, o comércio ambulante e o trabalho com animais.
Essas atividades contribuíram para a sobrevivência econômica de muitas comunidades, mas também ajudaram a alimentar estereótipos sobre os ciganos entre populações sedentárias europeias.
A organização social tradicional está ligada à família extensa e a códigos internos de conduta. Entre diferentes grupos, conceitos como romanipen e marime estão relacionados às normas culturais, à pureza ritual e às relações dentro da comunidade.
Os conflitos também podiam ser resolvidos por autoridades tradicionais, conhecidas em determinados grupos como krisnitori. Já o termo gadje é utilizado para designar pessoas que não pertencem à comunidade cigana.
A transmissão de valores ocorreu durante séculos principalmente pela oralidade. Relatos, canções, histórias familiares e normas de comportamento eram transmitidos entre gerações.
A ausência de registros escritos próprios anteriores ao século XIX faz com que essa tradição oral tenha importância especial para o estudo da história e da cultura romani.
Religião e culto a Sara-la-Kali
A dispersão dos ciganos por diferentes regiões levou à adoção predominante das religiões encontradas nos territórios onde se estabeleceram.
Entre os grupos romani estão cristãos ortodoxos na Europa Oriental, católicos na Europa Central e Ocidental e muçulmanos em áreas dos Bálcãs que estiveram sob influência otomana. A partir do século XX, também surgiram comunidades ligadas ao pentecostalismo.
A adaptação às religiões locais não eliminou práticas culturais próprias. Em diferentes comunidades, crenças relacionadas à cura, à adivinhação e aos antepassados foram incorporadas às tradições religiosas predominantes.
Um dos exemplos mais conhecidos é o culto a Sara-la-Kali, também chamada Santa Sara.
Santa Sara é venerada por ciganos católicos como padroeira. Sua principal peregrinação ocorre em Saintes-Maries-de-la-Mer, na região francesa da Camargue, entre os dias 24 e 25 de maio.
A tradição local identifica Sara como serva de Maria Salomé e Maria Jacobé, personagens do Novo Testamento que, segundo a tradição, teriam chegado à Gália por volta do ano 45 d.C.
A peregrinação reúne anualmente milhares de ciganos de países como França, Espanha e Itália.
Perseguição aos ciganos na Europa
A perseguição aos ciganos na Europa começou ainda no século XV. Reinos e cidades passaram a criar leis que restringiam ou proibiam sua permanência em determinados territórios.
Na Alemanha, medidas contra grupos ciganos foram registradas no final do século XV. Na Suíça, leis semelhantes surgiram durante o mesmo período.
Na Inglaterra, uma lei de 1554 chegou a prever pena de morte para ciganos que não deixassem o país no prazo determinado. A legislação permaneceu como instrumento de perseguição durante séculos.
Na Espanha, um dos episódios mais graves ocorreu em 1749, durante a chamada Gran Redada, também conhecida como Prisión General de Gitanos.
Em 27 de julho daquele ano, aproximadamente 9 mil a 12 mil ciganos foram presos simultaneamente em diferentes regiões espanholas. As autoridades pretendiam retirar essas populações do território e submetê-las a deportação ou trabalhos forçados.
A escravidão cigana na Valáquia e na Moldávia
A perseguição também assumiu a forma de escravidão nos principados da Valáquia e da Moldávia, territórios que atualmente fazem parte da Romênia.
Os primeiros registros da escravidão cigana na região remontam a 1385. Durante séculos, homens, mulheres e crianças foram tratados como propriedade de mosteiros, nobres ou príncipes.
A condição de escravidão hereditária só terminou com as leis abolicionistas promulgadas entre 1855 e 1856.
Esse longo período de cativeiro marcou profundamente a história das comunidades ciganas da região e contribuiu para a formação de uma das maiores populações romani da Europa.
Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a população cigana da Romênia era estimada em aproximadamente 300 mil pessoas, segundo dados reunidos pelo United States Holocaust Memorial Museum.
O genocídio romani durante o nazismo
A perseguição atingiu seu ponto mais extremo durante o regime nazista, entre 1933 e 1945.
Os ciganos foram classificados como inimigos raciais pelo regime alemão. Um decreto complementar às Leis de Nuremberg, de 26 de novembro de 1935, incluiu os chamados “ciganos por sangue” entre as populações consideradas racialmente estrangeiras.
O genocídio atingiu comunidades romani em diversos países europeus. O United States Holocaust Memorial Museum estima que entre 200 mil e 500 mil ciganos tenham sido assassinados durante a Segunda Guerra Mundial.
As vítimas morreram em fuzilamentos, campos de concentração, trabalhos forçados e câmaras de gás.
Esse genocídio é conhecido por diferentes termos. Um deles é Porajmos, palavra romani geralmente traduzida como “a devoração”.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em Auschwitz-Birkenau. Na noite de 2 para 3 de agosto de 1944, 2.897 ciganos que permaneciam no chamado Zigeunerlager, o setor destinado aos romani no campo, foram assassinados.
Reconhecimento do Porajmos
O reconhecimento do genocídio romani pelas autoridades alemãs ocorreu décadas depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1982, a Alemanha Ocidental reconheceu oficialmente a perseguição racial sofrida pelos ciganos durante o período nazista.
O reconhecimento contribuiu para processos de indenização de sobreviventes e para iniciativas posteriores de preservação da memória.
Em 15 de dezembro de 2015, o Parlamento Europeu reconheceu o dia 2 de agosto como data de memória do Holocausto Romani. A escolha está relacionada à liquidação do Zigeunerlager de Auschwitz-Birkenau, ocorrida em 2 de agosto de 1944.
A perseguição, porém, não terminou com o fim do nazismo. O antiganismo, também chamado de ciganofobia, continua presente em diferentes países europeus.
Entre os problemas registrados estão remoções forçadas de comunidades, dificuldades de acesso à educação, segregação escolar e obstáculos no mercado de trabalho.
A história dos ciganos, portanto, é marcada por migrações, adaptação cultural, preservação de tradições e também por séculos de perseguição. Desde sua origem no subcontinente indiano até a dispersão pela Europa e pelas Américas, o povo romani construiu diferentes comunidades sem perder elementos fundamentais de sua identidade cultural.
