Salvador nasceu em 29 de março de 1549, quando o governador-geral Tomé de Sousa desembarcou na Baía de Todos os Santos com ordens do rei Dom João III para fundar a primeira capital do Brasil colonial. A escolha da baía respondeu a um critério estratégico: a posição ficava entre as capitanias do norte e do sul, o que facilitava o comando de toda a colônia a partir de um único ponto. A cidade recebeu o nome de São Salvador e tornou-se, desde o início, sede do Governo-Geral, cargo criado para substituir o sistema disperso das capitanias hereditárias. Poucas cidades do continente americano guardam um registro tão preciso de nascimento: data, comandante e propósito administrativo estão documentados nas instruções régias enviadas a Tomé de Sousa.
Antes da chegada de Tomé de Sousa, a região já registrava presença portuguesa desde 1534, quando o donatário Francisco Pereira Coutinho recebeu a Capitania da Bahia de Todos os Santos e fundou um povoado na Ponta do Padrão, atual bairro da Barra. Esse núcleo, batizado de Arraial do Pereira, enfrentou ataques indígenas recorrentes e acabou destruído, episódio que expôs a fragilidade do sistema de capitanias isoladas. Contribuiu para a sobrevivência dos colonos na área o português Diogo Álvares Correia, conhecido como Caramuru, que vivia entre os tupinambás desde o início do século XVI e mantinha aliança com o grupo por meio do casamento com Paraguaçu. Essa rede de contatos prévios facilitou a recepção da expedição de 1549 pelas populações locais, segundo registros da época.
Tomé de Sousa partiu de Lisboa em 1º de fevereiro de 1549 à frente de uma esquadra com seis embarcações e mais de mil pessoas, entre soldados, degredados, funcionários régios e religiosos. Na comitiva vinham um provedor-geral, um ouvidor-mor, um engenheiro, um médico e seis jesuítas liderados pelo padre Manuel da Nóbrega. O desembarque ocorreu em 29 de março de 1549 na Ponta do Padrão, área correspondente à atual Barra, marcada hoje por uma coluna de seis metros que registra o local da fundação. A partir desse ponto, a expedição iniciou a construção da cidade, seguindo um projeto urbanístico já definido em Portugal.
Como foram erguidas as primeiras construções de Salvador?
O traçado da cidade coube ao mestre Luís Dias, responsável por um projeto que seguia os tratados italianos de fortificação do século XV, com baluartes em formato de estrela distribuídos ao longo de um perímetro trapezoidal. O desenho prescrevia quarteirões retangulares organizados em malha regular, adaptada à topografia irregular da região, o que tornava Salvador uma das primeiras cidades planejadas do período renascentista fora da Europa. As instruções enviadas por Dom João III a Tomé de Sousa reforçavam a exigência de regularidade no traçado urbano, prioridade pouco comum nos povoados coloniais anteriores. Esse modelo combinava função defensiva e organização administrativa em um único desenho.
A parte baixa da cidade, conhecida como Ribeira, recebeu as primeiras estruturas: barracões de armazenamento, um pequeno armazém portuário e uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Na parte alta, Luís Dias conduziu a construção de uma muralha destinada a cercar o núcleo urbano inicial, ainda em taipa e barro. A Praça Tomé de Sousa, hoje Praça Municipal, também foi erguida em 1549 e reuniu os dois principais prédios públicos da capital: a Casa de Câmara e Audiência e o Palácio do Governo. A ligação entre as duas partes da cidade dependia de ladeiras íngremes, algumas delas ainda presentes no traçado atual do Centro Histórico.
O trabalho de construção mobilizou mão de obra indígena e, progressivamente, mão de obra escravizada, em um processo que se intensificou entre 1534 e 1564. O padre Manuel da Nóbrega registrou em correspondência da época o desempenho do pedreiro Diogo Peres, contratado para erguer o Colégio dos Jesuítas, um dos primeiros edifícios de ensino da colônia. A obra da cidade avançou de forma gradual, dependente da chegada de novos colonos, artesãos e recursos enviados de Portugal. Essa fase inicial de construção definiu o núcleo urbano que, décadas depois, seria ampliado com edificações em pedra e cal.
Os fortes de Salvador conseguiam proteger a cidade?
A primeira muralha de Salvador, feita de taipa e barro, oferecia proteção razoável contra flechas indígenas, mas pouca resistência à artilharia europeia. A cidade nasceu sob preocupação constante de defesa, já que a região registrava conflitos com grupos tupinambás e incursões de corsários franceses interessados no comércio de pau-brasil. Com o tempo, a estrutura original foi reforçada com baluartes voltados para o mar e torres nos acessos próximos aos futuros conventos de São Bento e do Carmo. Ainda assim, historiadores apontam que esse sistema permaneceu limitado diante de ataques navais mais organizados.
A fragilidade ficou evidente no século XVII, quando forças holandesas ocuparam Salvador entre 1624 e 1625 e voltaram a atacar a cidade em 1638, sob comando de Maurício de Nassau. Foi nesse contexto que o pernambucano Luís Barbalho ergueu uma fortificação emergencial para proteger o flanco norte da cidade, estrutura que deu origem ao atual Forte do Barbalho. Somente depois disso a coroa investiu em fortes de alvenaria mais resistentes, como o Forte de Santo Antônio da Barra, iniciado em 1614 e reconstruído em pedra a partir de 1696. A argamassa dessas fortificações costumava incluir óleo de baleia e conchas trituradas, técnica comum na construção colonial da Bahia.
A rede de torres de vigia ligada à Casa da Torre
Paralelamente às muralhas urbanas, um sistema de torres de comunicação vigiava o litoral ao norte de Salvador, conectando a cidade à Casa da Torre de Garcia d’Ávila, em Tatuapara, atual Praia do Forte. Postos de vigia em Itapuã, Rio Vermelho e na própria Barra transmitiam avisos sobre embarcações estrangeiras ou movimentações indígenas, permitindo que o governo-geral se preparasse com antecedência. Esse arranjo mostra que a defesa da capital dependia também de estruturas privadas, mantidas por sesmeiros que controlavam grandes extensões de terra na região. A eficácia desse sistema, embora mencionada em relatos históricos, carece de registros documentais mais detalhados sobre sua frequência de uso.
Como Salvador se expandiu e quem eram suas famílias mais influentes?
A expansão de Salvador ganhou ritmo a partir de 1560, durante o governo de Mem de Sá, quando a conquista do Recôncavo Baiano se consolidou e ampliou as áreas disponíveis para a produção de açúcar. Esse avanço econômico atraiu comerciantes, artesãos e militares, diversificando uma população que, até então, era majoritariamente indígena no entorno da baía. Os lucros do açúcar e a posição estratégica do porto transformaram a cidade em ponto de conexão comercial entre Portugal e suas colônias no Oriente. O crescimento também exigiu a ampliação das construções urbanas, com edificações de melhor qualidade substituindo as estruturas provisórias do período inicial.
Entre as famílias mais influentes do período colonial estava a dos D’Ávila, iniciada por Garcia d’Ávila, fidalgo português que recebeu de Tomé de Sousa catorze léguas de terra entre Itapuã e o Rio Real. Nesse território, Garcia d’Ávila construiu a Casa da Torre, em 1550, e, por volta de 1557, já era considerado o homem mais poderoso da capitania da Bahia. Sua propriedade chegou a ser a maior do Brasil no final do século XVI, servindo de base para expedições que avançaram pelo sertão nordestino em busca de terras para a criação de gado. O historiador Capistrano de Abreu observou que boa parte desse patrimônio foi obtida por meio de influência política junto às autoridades de Salvador, sem grandes investimentos financeiros.
Outra família relevante nos primeiros anos da colônia foi a de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, e Paraguaçu, cuja descendência manteve relações próximas com o governo-geral e ajudou a consolidar alianças entre portugueses e grupos indígenas da região. Também merece registro Salvador Correia de Sá, indicado para o cargo de capitão-mor da cidade em período posterior à fundação, integrante de uma linhagem que se tornaria influente na administração colonial. Essas famílias, somadas aos senhores de engenho que se multiplicaram com a expansão açucareira, formaram a base social e econômica que sustentou Salvador nos séculos seguintes como capital do Brasil. A permanência de sobrenomes como Ávila e Sá em documentos históricos posteriores confirma o peso duradouro dessas linhagens na formação da cidade.
Um detalhe pouco lembrado da fundação envolve o próprio material usado nas fortificações de Salvador: além de pedra e cal, os construtores recorriam a óleo de baleia e conchas trituradas na composição da argamassa, aproveitando recursos abundantes na Baía de Todos os Santos. A técnica, comum em outras cidades portuárias portuguesas, ajudava a impermeabilizar as muralhas expostas à umidade constante do litoral baiano. Esse tipo de solução prática mostra como a construção da primeira capital do Brasil dependeu tanto de projetos vindos de Portugal quanto de adaptações aos recursos disponíveis no próprio território.