A influência de Vargas para o fim do cangaço

Vargas emitiu diretrizes sucessivas aos governos do Nordeste para desarmar a população, criar tropas volantes e eliminar Virgulino

HiperHistória
Imagem gerada por IA | HiperHistória

Getúlio Vargas, presidente do Brasil entre 1930 e 1945 e novamente entre 1951 e 1954, determinou a governadores do Nordeste, sobretudo a partir de 1930 e com força redobrada após o golpe de 1937, que abandonassem a tolerância com o cangaço e promovessem a eliminação de Lampião e seus homens. A ordem central não veio de um único decreto batizado com o nome do cangaceiro, mas de uma sequência de diretrizes políticas e militares: desarmamento da população civil, criação de tropas volantes especializadas, corte do apoio de fazendeiros e políticos locais aos bandos e autorização para matar quem não se rendesse. O historiador Frederico Pernambucano de Mello, autor de “Quem Foi Lampião“, descreve esse processo como resultado direto da centralização do poder que Vargas impôs ao país. Lampião, nascido Virgulino Ferreira da Silva em Serra Talhada, sertão de Pernambuco, e morto em 28 de julho de 1938 na Grota de Angicos, no sertão de Sergipe, foi o principal alvo dessa política.

O cangaço era um fenômeno de banditismo armado que percorria o sertão nordestino desde o século XIX, formado por grupos que viviam de saques a fazendas, sequestros e cobrança de proteção a coronéis rurais. Lampião assumiu a liderança de um dos bandos mais numerosos a partir de 1922, após a morte do pai em confronto com a polícia, e construiu fama nacional e internacional por sua capacidade de escapar das forças policiais estaduais. Em 1926, durante o avanço da Coluna Prestes pela cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, o governo cearense chegou a oferecer a Lampião uma patente de capitão da Guarda Nacional em troca de apoio contra os revolucionários, título que o cangaceiro manteve como apelido pelo resto da vida. Essa relação ambígua entre autoridades locais e cangaceiros seria, anos depois, um dos alvos diretos das ordens de Vargas.

Assim que assumiu o poder em outubro de 1930, após a Revolução que encerrou a chamada República Velha, Vargas colocou em prática a promessa de campanha de um “combate sem quartel ao banditismo”. Duas frentes foram abertas de imediato: uma campanha de desarmamento da população civil no sertão e um plano específico para eliminar Lampião e seu bando, que incluiu até a sugestão de usar aviões de caça na busca pelos cangaceiros. Essas medidas iniciais, porém, esbarraram durante anos na resistência de governadores e coronéis que mantinham relações de proteção com o grupo.

As ordens diretas aos governadores do Nordeste

A virada decisiva ocorreu no fim da década de 1930, quando um documentário mudo produzido pelo sírio-libanês Benjamin Abrahão Botto, que havia convivido com o bando, chegou às telas e mostrou cangaceiros bem vestidos, portando joias e posando com armas modernas. A imagem contrariava o discurso oficial de perseguição implacável e irritou Vargas, que passou a cobrar resultados dos estados nordestinos. Segundo reportagem baseada em pesquisa do jornalista Ricardo Westin, Vargas ordenou então aos governadores do Nordeste que deixassem de “fazer vista grossa” e efetivamente aniquilassem o cangaceiro. Essa ordem representou a formalização de uma exigência que já vinha sendo cobrada desde o início da década, mas que ganhou urgência política após a exposição pública do documentário.

Por trás da lentidão anterior dos estados estava uma rede de proteção que envolvia fazendeiros, políticos e até governadores. O governador de Sergipe, Eronildes Ferreira de Carvalho, é apontado por historiadores como um dos que mantinham relação amistosa com Lampião, chegando a fornecer armamento e munição ao bando em certos períodos. Esses coronéis se beneficiavam da presença armada dos cangaceiros como instrumento de força política local e, em troca, ofereciam abrigo, informações sobre a movimentação das tropas e proteção judicial. Essa aliança tácita ajuda a explicar por que as primeiras ordens de Vargas, dadas ainda em 1930, levaram quase uma década para produzir resultado definitivo.

A instauração do Estado Novo, em novembro de 1937, quando Vargas deu um golpe e cancelou as eleições previstas, mudou o equilíbrio de forças no sertão. A nova ditadura tinha como uma de suas bandeiras a modernização do país e via o cangaço como um traço de atraso incompatível com o projeto de centralização nacional. Com menos autonomia política, os governadores estaduais perderam margem para negociar proteção a bandos armados e passaram a colaborar de forma mais efetiva com o cerco policial. O cangaceiro e seus homens foram enquadrados pelo discurso oficial na categoria de extremistas a serem eliminados, e a diretriz passou a ser explícita: matar todo cangaceiro que não se rendesse.

A atuação das forças volantes e o fim de Lampião

Para executar as ordens vindas do governo federal, os estados nordestinos ampliaram as chamadas forças volantes, tropas móveis especializadas em perseguir cangaceiros em seu próprio território. Essas unidades incorporaram armamento mais moderno, incluindo metralhadoras do tipo Hotchkiss, e passaram a contar com oficiais experientes, como o tenente João Bezerra, que coordenaria a operação final contra Lampião. As volantes também se beneficiaram de uma rede de informantes recrutados entre antigos coiteiros, moradores que antes abrigavam os cangaceiros e passaram a colaborar com a polícia em troca de recompensas ou impunidade.

A emboscada de Angicos, em julho de 1938

Na madrugada de 28 de julho de 1938, uma tropa volante comandada pelo tenente João Bezerra e pelo sargento Aniceto Rodrigues da Silva cercou o acampamento de Lampião na Grota de Angicos, no sertão de Sergipe, aproveitando uma chuva forte que abafou o barulho da aproximação. O ataque começou ao amanhecer e durou poucos minutos, tempo suficiente para matar Lampião, sua companheira Maria Bonita e outros nove integrantes do bando. Os corpos foram decapitados no local, e as cabeças foram levadas primeiro à cidade de Piranhas, em Alagoas, e depois à Bahia, onde ficaram expostas por décadas na Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador, como suposta prova da eliminação do grupo.

Consequências e divergências historiográficas

A morte de Lampião provocou uma onda de rendições entre os cangaceiros remanescentes, atraídos pela promessa de anistia a quem entregasse companheiros ou se apresentasse às autoridades. Corisco, considerado o último grande cangaceiro em atividade e discípulo de Lampião, resistiu por mais tempo e foi morto em 1940, episódio tratado por historiadores como o encerramento definitivo do ciclo do cangaço como fenômeno de massa no sertão nordestino. Nos anos seguintes, o Estado Novo utilizou o fim do cangaço como símbolo de sua capacidade de impor ordem e modernização a uma região historicamente descrita pelo discurso oficial como violenta e atrasada.

Historiadores divergem, porém, sobre o peso relativo de cada fator nesse desfecho. Parte da historiografia, representada por Frederico Pernambucano de Mello, sustenta que a centralização política promovida por Vargas a partir de 1937 foi o elemento decisivo, ao retirar dos coronéis locais o interesse em proteger os bandos. Outros pesquisadores dão maior peso ao aperfeiçoamento técnico e à profissionalização das forças volantes ao longo da década de 1930, incluindo o uso de armamento automático e de informantes infiltrados, como explicação para o sucesso da operação de Angicos. Essa divergência não altera o fato central de que as ordens vieram do governo Vargas, mas mostra que a historiografia ainda discute o mecanismo exato pelo qual essas ordens se tornaram eficazes.

Uma curiosidade histórica pouco lembrada é que as cabeças de Lampião e Maria Bonita permaneceram expostas como peças de estudo antropológico e criminal na Faculdade de Medicina da Bahia por mais de três décadas após a emboscada de Angicos. Somente em 1969 e 1971, após pressão de familiares e de movimentos de defesa dos direitos humanos, os restos mortais foram finalmente sepultados, encerrando de forma tardia um dos episódios mais controversos da política de eliminação do cangaço determinada por Getúlio Vargas.

Seguir:
HiperHistória revive os fatos mais importantes da história, um verdadeiro museu virtual das grandes curiosidades do presente e do passado.
Nenhum comentário