A Bíblia é uma coletânea de textos religiosos judaicos e cristãos composta por autores distintos entre aproximadamente o século VIII a.C. e o final do século I d.C. Ela reúne entre 66 e 88 livros, dependendo da tradição religiosa, escritos originalmente em hebraico, aramaico e grego koiné. O processo de composição envolveu escribas, profetas, sacerdotes e comunidades cristãs primitivas, em regiões que hoje correspondem a Israel, Palestina, Egito, Síria, Turquia e Grécia. Historiadores como o alemão Julius Wellhausen, no século XIX, reconstroem esse processo cruzando fontes textuais, arqueológicas e epigráficas.
O termo “Bíblia” deriva do grego “biblia”, plural de “biblion”, que significa “livro” ou “rolo de papiro”, numa referência à cidade fenícia de Biblos, importante centro de comércio de papiro na Antiguidade, localizada no atual Líbano. A obra se divide em duas grandes partes: o Antigo Testamento (ou Tanakh, para o judaísmo) e o Novo Testamento, exclusivo do cristianismo. O Antigo Testamento narra desde a criação do mundo, segundo a tradição hebraica, até o período do domínio persa sobre a Judeia, encerrado com a conquista de Alexandre, o Grande, em 332 a.C. O Novo Testamento concentra-se na vida de Jesus de Nazaré, pregador judeu executado por crucificação em Jerusalém por volta do ano 30 d.C., e na expansão do cristianismo primitivo nas décadas seguintes.
Não existe um autor único da Bíblia, e essa é uma das confusões mais comuns sobre o tema. A tradição judaica e cristã atribuiu por séculos os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, chamados Torá ou Pentateuco, ao profeta Moisés, mas a análise filológica moderna identificou diferentes camadas textuais dentro desses livros, reunidas por editores ao longo de gerações. Já o Novo Testamento tem autoria mais bem documentada, com nomes como o apóstolo Paulo de Tarso, responsável por treze cartas atribuídas a ele, e os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João.
Quem escreveu a Bíblia: autores, escribas e tradições orais
A formação do Antigo Testamento começou com tradições orais hebraicas, fixadas por escrito a partir do século VIII a.C., segundo a hipótese documentária proposta por Wellhausen em 1878. Essa teoria propõe que o Pentateuco resulta da fusão de quatro fontes distintas, identificadas pelas letras J, E, D e P, reunidas por editores sacerdotais após o exílio babilônico, entre 597 a.C. e 538 a.C. A hipótese é discutida entre biblistas até hoje, com variações propostas por autores como Richard Elliott Friedman, e deve ser tratada como o modelo explicativo mais aceito na academia, não como fato definitivo. Outros livros do Antigo Testamento, como os proféticos, trazem autores mais diretamente ligados ao texto, caso de Isaías, Jeremias e Ezequiel, ativos entre os séculos VIII e VI a.C.
No caso do Novo Testamento, os quatro evangelhos canônicos foram escritos entre aproximadamente 65 d.C. e 100 d.C., décadas após a morte de Jesus, com base em tradições orais e, possivelmente, em fontes escritas hoje perdidas. O evangelho de Marcos é considerado pela maioria dos pesquisadores o mais antigo dos quatro, servindo de referência para Mateus e Lucas, hipótese conhecida como “prioridade marcana”. As cartas de Paulo de Tarso, missionário cristão que percorreu o Mediterrâneo oriental entre 34 d.C. e 62 d.C., são os textos mais antigos do Novo Testamento, escritos antes dos evangelhos. A autoria de algumas cartas atribuídas a Paulo, como as Pastorais, é questionada por especialistas, que apontam diferenças de estilo em relação a cartas de autenticidade mais consensual, como Romanos e Gálatas.
Além dos autores identificados, dezenas de escribas anônimos participaram da cópia e da transmissão dos textos bíblicos entre a Antiguidade e a Idade Média, trabalho essencial antes da invenção da imprensa. Cada cópia era feita manualmente sobre pergaminho ou papiro, processo sujeito a pequenas variações que geraram diferentes tradições manuscritas de um mesmo livro.
Os manuscritos do Mar Morto, descobertos entre 1947 e 1956 nas cavernas de Qumran, próximas ao Mar Morto, na atual Cisjordânia, comprovam esse trabalho de cópia. Eles revelam versões do Antigo Testamento anteriores em cerca de mil anos aos manuscritos hebraicos mais antigos conhecidos até então, o que permitiu comparar diferentes tradições textuais e confirmou a estabilidade da transmissão de boa parte dos livros.
Como a Bíblia foi organizada: a formação do cânone
Cânone é o termo usado por historiadores e teólogos para designar a lista oficial de livros reconhecidos como sagrados por uma tradição religiosa específica. A formação do cânone hebraico se consolidou entre o século II a.C. e o final do século I d.C., processo que incluiu debates rabínicos sobre a inclusão de livros como Eclesiastes e Cântico dos Cânticos, registrados em discussões atribuídas à academia rabínica de Jâmnia, na atual Israel.
O judaísmo rabínico fixou um cânone de 24 livros, número que o cristianismo reorganizou em 39, por conta de divisões editoriais diferentes de textos como Reis e Crônicas. Essa diferença de contagem não altera o conteúdo do texto hebraico, apenas a forma como ele é dividido em unidades menores nas edições cristãs.
A Septuaginta e a Vulgata: traduções que mudaram a história do texto
A Septuaginta, tradução do Antigo Testamento para o grego koiné, foi produzida em Alexandria, no Egito, a partir do século III a.C., pela comunidade judaica de língua grega da cidade. Essa versão incluía livros ausentes do cânone hebraico posterior, como Tobias, Judite e os Macabeus, hoje chamados de deuterocanônicos pela Igreja Católica e apócrifos pelas tradições protestantes. Entre 382 d.C. e 405 d.C., o monge Jerônimo de Estridão traduziu a Bíblia para o latim por encomenda do papa Dâmaso I, dando origem à Vulgata, texto oficial da Igreja Católica por mais de mil anos. Essa diferença de base textual explica por que bíblias católicas, ortodoxas e protestantes têm hoje números distintos de livros: 73, entre 76 e 81, e 66, respectivamente.
O cânone do Novo Testamento levou mais tempo para se estabilizar do que costuma-se supor. A primeira lista conhecida com exatamente os 27 livros hoje aceitos pela maioria das igrejas cristãs aparece na carta pascal do bispo Atanásio de Alexandria, escrita em 367 d.C. Essa lista foi ratificada pelos concílios regionais de Hipona, em 393 d.C., e de Cartago, em 397 d.C., ambos no norte da África. Antes desse período, textos hoje considerados apócrifos, como o Evangelho de Tomé e o Apocalipse de Pedro, circulavam em algumas comunidades cristãs e chegaram a ser citados por autores da época, sem que houvesse consenso sobre sua inclusão.
A tradição etíope preserva um dos cânones bíblicos mais extensos ainda em uso, com até 81 livros reconhecidos pela Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, incluindo obras como o Livro de Enoque e o Livro dos Jubileus, ausentes das demais tradições cristãs. Essa diferença ilustra por que não existe uma única versão “original” da Bíblia, e sim tradições textuais distintas, cada uma resultado de escolhas editoriais feitas em contextos históricos específicos. A impressão em larga escala só surgiu em 1455, quando Johannes Gutenberg imprimiu, em Mainz, na atual Alemanha, a primeira Bíblia produzida com tipos móveis, evento que barateou drasticamente a reprodução do texto na Europa.
Curiosidades sobre os livros da Bíblia
O Livro dos Salmos é o mais extenso da Bíblia, com 150 capítulos atribuídos, em parte, ao rei Davi, governante do Reino de Israel entre aproximadamente 1010 a.C. e 970 a.C., segundo a tradição bíblica. Dentro dele está o Salmo 119, o capítulo mais longo de toda a Bíblia, com 176 versículos organizados em um acróstico baseado nas 22 letras do alfabeto hebraico. Em contraste, o menor livro do Antigo Testamento é Obadias, com apenas 21 versículos dedicados a uma profecia contra o reino de Edom, na região da atual Jordânia.
O Livro de Ester é o único do cânone hebraico que não menciona diretamente o nome de Deus em nenhum momento do texto, característica que gerou debates entre rabinos sobre sua inclusão no cânone judaico nos primeiros séculos da era comum. Já o Cântico dos Cânticos reúne poemas de amor com linguagem sensorial explícita, sem referências religiosas diretas, o que também motivou discussões sobre sua presença entre os livros sagrados, resolvidas por meio de interpretações alegóricas sobre o amor entre Deus e o povo de Israel. No Novo Testamento, a Segunda e a Terceira Cartas de João disputam o título de menor livro, com pouco mais de uma página cada uma nas edições impressas modernas.
Os manuscritos gregos antigos do Novo Testamento não traziam capítulos e versículos, sistema criado apenas no século XIII pelo arcebispo Stephen Langton, de Canterbury, na Inglaterra, para a Bíblia em latim. O texto hebraico e grego recebeu numeração equivalente no século XVI, por meio do trabalho do impressor francês Robert Estienne. Antes dessa padronização, localizar uma passagem específica dentro de um rolo ou códice dependia da memória de quem manuseava o texto, o que faz da Bíblia um dos primeiros grandes exemplos de sistema de referência criado para facilitar a consulta de um texto extenso.