Gliese 667 Cc é um exoplaneta do tipo super-Terra, com massa mínima estimada em 4,25 vezes a massa terrestre, que orbita a estrela anã vermelha Gliese 667 C a uma distância aproximada de 22 anos-luz do Sistema Solar, na constelação de Escorpião. O planeta foi anunciado publicamente em 21 de novembro de 2011 por uma equipe internacional liderada pelo astrônomo francês Xavier Bonfils, do Instituto de Planetologia e Astrofísica de Grenoble (IPAG-CNRS), com dados obtidos pelo instrumento HARPS do Observatório Europeu do Sul (ESO). Sua relevância científica decorre de sua localização dentro da zona habitável da estrela hospedeira, a faixa orbital em que a temperatura permitiria, em teoria, a existência de água líquida na superfície de um planeta rochoso. Até o momento, nenhuma missão conseguiu confirmar a presença de atmosfera ou água no planeta, e sua classificação como “habitável” permanece uma hipótese baseada em modelos teóricos.
A estrela Gliese 667 C integra um sistema estelar triplo, situado a 22 anos-luz da Terra, formado também pelas estrelas Gliese 667 A e Gliese 667 B, um par de anãs alaranjadas do tipo espectral K que orbitam próximas uma da outra. Gliese 667 C, uma anã vermelha do tipo espectral M, possui aproximadamente um terço da massa do Sol e orbita o par principal a uma distância considerável, o que a torna um componente relativamente isolado dentro do conjunto triplo. Estrelas anãs vermelhas como essa são as mais numerosas da Via Láctea e vêm recebendo atenção crescente de astrônomos por apresentarem zonas habitáveis mais próximas de si, o que facilita a detecção de planetas rochosos pelo método da radiovelocidade.
A detecção de Gliese 667 Cc integra um esforço mais amplo do ESO para localizar planetas rochosos em zonas habitáveis de estrelas próximas, que já havia identificado candidatos como Gliese 581 d e HD 85512 b em anos anteriores. O método da radiovelocidade, também chamado de método Doppler, mede oscilações no espectro luminoso de uma estrela causadas pela atração gravitacional de um planeta em órbita, permitindo calcular sua massa mínima e período orbital sem necessidade de observação direta. Esse mesmo método seguiu sendo empregado em estudos posteriores do sistema Gliese 667, que revelariam a existência de outros planetas candidatos ao redor da mesma estrela.
Como Gliese 667 Cc foi descoberto?
O primeiro anúncio de Gliese 667 Cc, feito em novembro de 2011 pela equipe de Xavier Bonfils, reuniu pesquisadores de instituições da França, Suíça, Portugal e Bélgica, com base em observações realizadas pelo espectrógrafo HARPS instalado no telescópio de 3,6 metros do ESO, no Observatório de La Silla, no Chile. Em 2 de fevereiro de 2012, uma segunda equipe, liderada pelo astrônomo espanhol Guillem Anglada-Escudé e pelo astrônomo americano Paul Butler, ambos vinculados à Carnegie Institution for Science, publicou uma confirmação independente da existência do planeta, reforçando a validade da primeira detecção.
Segundo os dados publicados por Bonfils e sua equipe, Gliese 667 Cc completa uma órbita ao redor de sua estrela em aproximadamente 28,15 dias, a uma distância média de 0,125 unidade astronômica, bem mais próxima de sua estrela do que a Terra está do Sol. Essa proximidade é compatível com a zona habitável de Gliese 667 C porque anãs vermelhas emitem muito menos energia do que o Sol, o que desloca sua zona habitável para órbitas mais curtas. A massa mínima calculada para o planeta, de 4,25 vezes a massa da Terra, o classifica como super-Terra, categoria de planetas rochosos maiores que a Terra, mas menores que gigantes gasosos como Netuno.
Por que Gliese 667 Cc está na zona habitável
Estudos publicados pela equipe de Bonfils indicam que Gliese 667 Cc recebe cerca de 90% da energia estelar que a Terra recebe do Sol, o que posiciona o planeta próximo ao centro da zona habitável de sua estrela, segundo os cálculos originais dos pesquisadores. A temperatura de equilíbrio estimada para o planeta é de 277 kelvin, equivalente a cerca de 4 graus Celsius, valor compatível com a presença de água líquida caso existam atmosfera e pressão adequadas. A excentricidade orbital do planeta é objeto de divergência entre pesquisadores: enquanto a publicação original de Bonfils et al. (2011) estimou um valor moderado, análises posteriores sugeriram uma órbita mais alongada, próxima de 0,3, o que afetaria a estabilidade climática hipotética do planeta ao longo de sua órbita.
Um sistema com múltiplos planetas candidatos
Em 2013, uma reanálise dos dados do sistema Gliese 667, conduzida pelo próprio Guillem Anglada-Escudé, então na Universidade de Göttingen, na Alemanha, em conjunto com o astrônomo Mikko Tuomi, da Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, identificou sinais compatíveis com até sete planetas orbitando a estrela Gliese 667 C. Segundo esse estudo, divulgado pelo ESO, três desses planetas — incluindo Gliese 667 Cc — estariam localizados dentro da zona habitável da estrela, configurando o primeiro sistema conhecido com essa zona “completamente ocupada” por candidatos a planetas rochosos.
Pesquisas posteriores, no entanto, questionaram parte dessas descobertas adicionais. Estudos sobre atividade magnética estelar de Gliese 667 C mostraram que sinais de radiovelocidade atribuídos a alguns dos planetas propostos (designados Gliese 667 Cd, Ce, Cf, Cg e Ch) poderiam, na verdade, refletir variações causadas por manchas e ciclos de atividade da própria estrela, e não pela presença de corpos planetários adicionais. Por esse motivo, apenas os planetas Gliese 667 Cb e Gliese 667 Cc são tratados como confirmados com segurança pela comunidade científica, enquanto os demais permanecem classificados como candidatos não confirmados.
O que se sabe sobre suas características físicas?
Como Gliese 667 Cc não foi detectado pelo método de trânsito, não existe medição direta de seu raio, o que torna sua composição real desconhecida. Estimativas indiretas, baseadas em modelos de massa-raio para planetas rochosos, sugerem um raio próximo a 1,7 vez o raio da Terra, compatível com um mundo rochoso de maior gravidade superficial do que a terrestre. Sem dados de trânsito ou de espectroscopia atmosférica, cientistas não conseguem confirmar a existência de atmosfera, oceanos ou qualquer condição necessária à habitabilidade, permanecendo o planeta classificado apenas como candidato promissor.
A distância de 22 anos-luz coloca Gliese 667 Cc na vizinhança solar relativamente próxima, bem mais perto da Terra do que a maioria dos exoplanetas identificados por missões como o telescópio espacial Kepler, que observou estrelas a centenas ou milhares de anos-luz de distância. Por esse motivo, o planeta integra o Catálogo de Exoplanetas Habitáveis mantido pelo Laboratório de Habitabilidade Planetária da Universidade de Porto Rico em Arecibo, que reúne os candidatos mais promissores à busca por vida fora do Sistema Solar. Sua proximidade relativa também o torna um alvo prioritário para futuras observações com telescópios de maior sensibilidade.
Uma curiosidade histórica relacionada a Gliese 667 Cc está na origem do nome de sua estrela: o prefixo “Gliese” vem do astrônomo alemão Wilhelm Gliese (1915-1993), do Instituto Astronômico de Cálculo de Heidelberg, na Alemanha, que publicou em 1957 o primeiro catálogo sistemático de estrelas próximas ao Sol, listando cerca de 915 estrelas a até 20 parsecs de distância. Décadas depois de sua morte, esse catálogo, atualizado por Gliese em parceria com o astrônomo Hartmut Jahreiß até 1991, continua sendo a referência que batiza sistemas estelares como o de Gliese 667, hoje estudados na fronteira da busca por planetas potencialmente habitáveis.