A Odisseia é um poema épico grego atribuído a Homero, composto por volta do final do século VIII a.C. ou início do século VII a.C., que narra o retorno do herói Odisseu (Ulisses, em latim) a Ítaca após a Guerra de Troia. A primeira adaptação conhecida da obra para o cinema surgiu em 1905, na França, e a versão mais recente chegou aos cinemas em 17 de julho de 2026, dirigida pelo cineasta britânico-americano Christopher Nolan. O poema é composto por 24 cantos e aproximadamente 12.110 versos, escritos originalmente em grego arcaico e transmitidos por gerações de aedos, os cantores-poetas responsáveis por recitar epopeias na Grécia Antiga. A obra permanece como um dos textos fundadores da literatura ocidental e segue gerando adaptações audiovisuais mais de 2.700 anos após sua composição.
A autoria de Homero é debatida por historiadores e filólogos desde a Antiguidade, em uma discussão conhecida como “questão homérica”. Já na Grécia clássica, sete cidades diferentes reivindicavam ter sido o local de nascimento do poeta, entre elas Esmirna, Quios e Colofão, sem que houvesse consenso documental sobre sua existência histórica individual. No início do século XX, o filólogo americano Milman Parry, professor da Universidade Harvard, demonstrou que a Ilíada e a Odisseia contêm fórmulas verbais repetidas típicas da composição oral, o que reforça a hipótese de que os poemas circularam de memória entre bardos antes de serem fixados por escrito.
Essa combinação de mito fundador e narrativa de aventura tornou a Odisseia matéria recorrente para o cinema desde os primeiros anos da indústria. Produtoras europeias do início do século XX recorreram ao poema por seu prestígio cultural e por oferecer episódios visualmente marcantes, como o encontro com o ciclope Polifemo e as sereias. Mais de um século depois, esse mesmo material serviu de base para o projeto mais caro da carreira de Nolan, evidenciando a permanência do texto homérico no imaginário popular.
Quando Homero escreveu a Odisseia?
O consenso historiográfico situa a composição da Odisseia entre o final do século VIII a.C. e o início do século VII a.C., pouco depois da Ilíada, no período em que o alfabeto grego, adaptado do sistema fenício por volta de 800 a.C., começou a permitir o registro escrito de textos longos. Não existe documento primário que comprove a data exata nem a identidade pessoal de Homero, e boa parte do que se sabe sobre o poema vem de análises linguísticas e de referências feitas por autores gregos posteriores, como o historiador Heródoto, no século V a.C. Por isso, historiadores tratam a autoria única do poema como hipótese plausível, e não como fato estabelecido, já que a obra pode representar a compilação de uma tradição oral coletiva.
Uma hipótese discutida por especialistas em literatura grega associa a fixação escrita da Odisseia ao governo do tirano ateniense Pisístrato, no século VI a.C., quando textos homéricos teriam sido organizados para recitação pública durante as festividades religiosas de Atenas. Essa reconstrução, conhecida como recensão pisistrática, não é unânime entre os pesquisadores e permanece como uma entre várias explicações sobre o processo de padronização do texto. O que a maioria dos estudiosos aceita é que a Odisseia circulou oralmente por séculos antes de qualquer registro escrito conhecido ter chegado até a atualidade.
A primeira adaptação da Odisseia no cinema
A primeira adaptação cinematográfica conhecida de um episódio da Odisseia foi dirigida pelo cineasta francês Georges Méliès em 1905, com o curta-metragem “L’Île de Calypso: Ulysse et le géant Polyphème”, que recriava o confronto de Odisseu com o ciclope Polifemo usando os efeitos visuais pioneiros pelos quais Méliès ficou conhecido. Seis anos depois, em novembro de 1911, a produtora italiana Milano Films lançou “L’Odissea”, primeira adaptação em formato de longa-metragem do poema completo, dirigida por Francesco Bertolini, Adolfo Padovan e Giuseppe De Liguoro. O filme, de 44 minutos de duração, foi exibido nos Estados Unidos em 1912 e recebeu elogios da revista especializada The Moving Picture World, que o descreveu como um marco educativo para o cinema da época.
Ulisses (1954), o primeiro grande épico sonoro
A primeira adaptação de grande orçamento na era do cinema sonoro chegou em 1954, com o filme italiano “Ulisses”, dirigido por Mario Camerini e estrelado pelo ator americano Kirk Douglas no papel de Odisseu, ao lado de Anthony Quinn e Silvana Mangano. Produzida pelos italianos Dino De Laurentiis e Carlo Ponti e distribuída pela Paramount Pictures nos Estados Unidos, a obra se tornou referência por décadas como a versão cinematográfica mais fiel ao poema, até o lançamento do filme de Nolan em 2026.
Os destaques do filme de Christopher Nolan
Lançado mundialmente em 17 de julho de 2026 pela Universal Pictures, “The Odyssey” de Christopher Nolan reúne Matt Damon como Odisseu, Anne Hathaway como Penélope, Tom Holland como Telêmaco, Zendaya como Atena e Robert Pattinson como Antínoo, entre outros nomes como Charlize Theron e Lupita Nyong’o. Com orçamento estimado em 250 milhões de dólares, a produção é considerada a mais cara da carreira de Nolan e o primeiro longa-metragem da história filmado inteiramente com câmeras IMAX em película de 70 milímetros, segundo informações divulgadas pela Universal e por veículos como a Variety.
As filmagens ocorreram em seis países, incluindo Itália, Grécia, Reino Unido, Islândia, Marrocos e Escócia, com parte das cenas gravadas na ilha siciliana de Favignana, associada por alguns estudiosos ao local onde a tradição grega antiga situava a chegada de Odisseu à terra dos feácios. Nolan escreveu, dirigiu e produziu o filme ao lado de sua parceira de longa data, a produtora Emma Thomas, vencedora do Oscar de melhor filme por “Oppenheimer” (2023), trabalho anterior da dupla.
A origem da palavra “odisseia” como substantivo comum em diversos idiomas, incluindo o português, é usada para descrever qualquer trajeto longo, difícil e repleto de peripécias. Esse uso figurado consolidou-se séculos após a composição do poema homérico e reflete a força duradoura da narrativa de Odisseu, que segue influenciando a linguagem cotidiana muito além do campo da literatura clássica.