Os cães descendem geneticamente do lobo cinzento, espécie identificada cientificamente como Canis lupus, e sua domesticação ocorreu em um período ainda debatido entre pesquisadores, situado majoritariamente entre 15 mil e 40 mil anos atrás, conforme estudos genômicos publicados em revistas como Nature e Science. O processo aconteceu antes do desenvolvimento da agricultura, o que torna o cão o primeiro animal domesticado pelo ser humano, precedendo em milênios a domesticação de espécies como ovelhas, cabras e bovinos, iniciada há aproximadamente 10 mil anos com o advento do Neolítico.
Pesquisas arqueológicas e genéticas ainda discutem se essa domesticação ocorreu em um único ponto geográfico ou de forma independente em diferentes regiões da Eurásia, incluindo áreas da Europa, do Oriente Médio e da Ásia Central. Fósseis considerados possíveis cães primitivos, como os encontrados na caverna de Goyet, na Bélgica, e no sítio de Bonn-Oberkassel, na Alemanha, datados entre 14 mil e 36 mil anos, alimentam esse debate sobre origem única ou múltipla da espécie.
A hipótese da autodomesticação
A hipótese mais aceita entre biólogos evolutivos sobre o início dessa relação é a chamada autodomesticação, segundo a qual lobos menos arredios se aproximaram de acampamentos humanos para se alimentar de restos de caça, processo distinto de uma domesticação intencional planejada pelos humanos desde o início. Esses animais mais tolerantes à presença humana teriam obtido vantagem reprodutiva, gerando gerações progressivamente mais dóceis, processo que geneticistas comparam ao experimento russo de domesticação de raposas-prateadas conduzido por Dmitri Beliáev a partir de 1959, no qual a seleção por docilidade produziu, em poucas gerações, alterações físicas e comportamentais semelhantes às observadas em cães. Estudos publicados na revista Trends in Ecology & Evolution sustentam que essa via de autosseleção é mais consistente com evidências arqueológicas do que a hipótese alternativa de captura e criação deliberada de filhotes de lobo por caçadores-coletores.
Após o estabelecimento inicial da relação entre humanos e cães, a seleção passou a ser cada vez mais direcionada, resultando em linhagens especializadas para funções específicas. Evidências arqueológicas de esqueletos com desgaste ósseo compatível com tração de cargas, encontradas na Sibéria e datadas de aproximadamente 9 mil anos atrás, indicam uso de cães para transporte em trenós entre populações árticas. Essa diversificação de funções ocorreu de forma gradual e paralela ao processo de expansão humana por diferentes continentes, adaptando os cães a necessidades locais distintas.