Plânctons constituem um conjunto amplo de organismos que habitam oceanos, mares, rios e lagos, incapazes de nadar contra correntes marinhas significativas, o que os mantém em deriva constante na coluna de água. O termo deriva do grego “planktos”, que significa errante, e foi cunhado em 1887 pelo biólogo alemão Victor Hensen, pioneiro em estudos quantitativos sobre esses organismos no Mar Báltico e no Atlântico Norte. A categoria de plânctons não corresponde a um grupo taxonômico único, já que reúne bactérias, algas microscópicas, protozoários, larvas de peixes, crustáceos minúsculos e até medusas, classificados juntos apenas pelo comportamento de deriva compartilhado. Cientistas dividem os plânctons em duas grandes categorias funcionais: o fitoplâncton, composto por organismos fotossintetizantes semelhantes a plantas, e o zooplâncton, formado por organismos de comportamento semelhante ao de animais que se alimentam de outros organismos.
O fitoplâncton, formado majoritariamente por algas microscópicas como diatomáceas e cianobactérias, realiza fotossíntese na camada superficial dos oceanos, onde a luz solar penetra com intensidade suficiente. Segundo estimativas publicadas pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência científica do governo dos Estados Unidos, o fitoplâncton oceânico produz entre 50% e 80% do oxigênio disponível na atmosfera terrestre, superando em volume a contribuição das florestas continentais. Esse processo ocorre porque os oceanos cobrem aproximadamente 70% da superfície do planeta, oferecendo área muito superior à das massas florestais para a realização de fotossíntese em escala global.
Qual a importância dos plânctons para a cadeia alimentar marinha?
O fitoplâncton ocupa a base da cadeia alimentar marinha, servindo de alimento direto para o zooplâncton, que, por sua vez, sustenta praticamente toda a vida animal dos oceanos. Pequenos crustáceos, como o krill antártico, espécie do gênero Euphausia amplamente estudada por cientistas marinhos, alimentam-se diretamente de fitoplâncton e formam enormes cardumes que sustentam populações inteiras de peixes, aves marinhas e mamíferos. Peixes de pequeno porte, como sardinhas e anchovas, também dependem diretamente do plâncton para sobrevivência, funcionando como elo intermediário entre os microrganismos e predadores maiores na teia alimentar oceânica.
Entre os animais de grande porte que dependem do plâncton estão as maiores criaturas já registradas no planeta. A baleia-azul, o maior animal conhecido pela ciência, com até 30 metros de comprimento, alimenta-se quase exclusivamente de krill, filtrando toneladas de água do mar diariamente por meio de estruturas chamadas barbatanas. O tubarão-baleia e a arraia-manta gigante, ambos peixes cartilaginosos de grande porte, também se alimentam por filtração de plâncton, demonstrando que essa base alimentar microscópica sustenta desde organismos unicelulares até os maiores vertebrados existentes nos oceanos contemporâneos.
Desde quando os plânctons existem na história da Terra?
Registros fósseis indicam que organismos planctônicos existem desde períodos extremamente antigos da história geológica do planeta. Cianobactérias fotossintetizantes, consideradas ancestrais do fitoplâncton moderno, deixaram registros fósseis datados de aproximadamente 3,5 bilhões de anos atrás, identificados em estruturas rochosas conhecidas como estromatólitos, encontradas principalmente na Austrália Ocidental. Pesquisadores do campo da paleontologia consideram esses microrganismos responsáveis pelo chamado Grande Evento de Oxidação, ocorrido há cerca de 2,4 bilhões de anos, quando a atividade fotossintética desses organismos elevou de forma significativa os níveis de oxigênio na atmosfera terrestre primitiva.
Ao longo das eras geológicas seguintes, o plâncton passou por diversificações importantes, incluindo o surgimento de diatomáceas há aproximadamente 180 milhões de anos, durante o período Jurássico, segundo estudos de paleontologia marinha baseados em registros fósseis de sílica preservados em sedimentos oceânicos. Essa diversificação ampliou significativamente a produtividade primária dos oceanos, contribuindo para sustentar ecossistemas marinhos cada vez mais complexos ao longo da era Mesozoica e da era Cenozoica, que se estende até os dias atuais.
O que aconteceria com a extinção dos plânctons e os efeitos do aquecimento global
Um colapso das populações de plâncton provocaria consequências severas e em cadeia para toda a vida marinha e, por extensão, para a vida terrestre. A ausência de fitoplâncton interromperia a produção primária dos oceanos, eliminando a base alimentar de peixes, crustáceos, aves marinhas e mamíferos, o que resultaria no colapso progressivo de praticamente toda a cadeia alimentar marinha em escala global. Além disso, a redução drástica da fotossíntese oceânica comprometeria significativamente a produção de oxigênio atmosférico, com efeitos diretos sobre o equilíbrio climático e biológico de todo o planeta, já que o fitoplâncton também desempenha papel central na absorção de dióxido de carbono da atmosfera.
Estudos publicados por instituições como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), organização científica vinculada à Organização das Nações Unidas, indicam que o aquecimento dos oceanos já provoca alterações mensuráveis na distribuição e na produtividade do fitoplâncton em diferentes regiões do planeta. O aumento da temperatura da água reduz a mistura vertical entre camadas oceânicas, processo que normalmente traz nutrientes das profundezas até a superfície iluminada, limitando a disponibilidade desses nutrientes essenciais para a fotossíntese do plâncton. Pesquisas publicadas na revista científica “Nature” ao longo da década de 2010 documentaram reduções regionais na biomassa de fitoplâncton associadas ao aumento da temperatura superficial dos oceanos, embora cientistas alertem que o tema ainda envolve divergências metodológicas sobre a extensão exata dessas mudanças em escala global.
A acidificação dos oceanos, processo causado pela absorção crescente de dióxido de carbono atmosférico pela água do mar, representa outra ameaça documentada aos organismos planctônicos, especialmente àqueles que constroem estruturas calcárias, como certos tipos de zooplâncton conhecidos como cocolitofóridos e foraminíferos. A redução do pH oceânico dificulta a formação dessas estruturas de carbonato de cálcio, comprometendo a sobrevivência desses organismos e, consequentemente, de toda a cadeia alimentar que deles depende. Cientistas do Scripps Institution of Oceanography, instituição de pesquisa oceanográfica ligada à Universidade da Califórnia em San Diego, monitoram esses processos desde a década de 1950, por meio de registros contínuos que demonstram tendência de acidificação nos oceanos ao longo das últimas décadas.
Uma curiosidade científica relacionada aos plânctons envolve sua contribuição histórica para os combustíveis fósseis utilizados atualmente pela humanidade. Grande parte do petróleo extraído hoje tem origem em depósitos de fitoplâncton e outros microrganismos marinhos que se acumularam no fundo dos oceanos ao longo de milhões de anos, principalmente durante períodos geológicos anteriores à era dos dinossauros, sendo posteriormente transformados em hidrocarbonetos por processos geológicos de pressão e calor, o que faz dos plânctons responsáveis indiretos por boa parte da matriz energética global construída pela civilização humana ao longo dos últimos dois séculos.