Umbanda: origem, contexto histórico e ritos

Surgida no Rio de Janeiro no início do século XX, a religião consolidou elementos do espiritismo kardecista, do catolicismo e de tradições africanas e indígenas

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A Umbanda surgiu formalmente em 15 de novembro de 1908, no bairro de Neves, no município de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro. A fundação ocorreu por meio do jovem Zélio Fernandino de Moraes, então com dezessete anos, durante uma sessão na Federação Espírita de Niterói. Naquela ocasião, manifestou-se uma entidade espiritual que se denominou Caboclo das Sete Encruzilhadas, estabelecendo as bases fundamentais de uma nova religião autônoma. O acontecimento histórico marcou a criação de um culto genuinamente brasileiro, estruturado na caridade espiritual e no acolhimento de entidades rejeitadas pelo espiritismo tradicional.

No início do século XX, a sociedade carioca vivenciava intensas transformações urbanas e tensões raciais no período pós-abolição. Esse cenário de exclusão social refletia-se também no âmbito religioso, com a perseguição policial às práticas de matriz africana e indígena. A nova doutrina emergiu como uma síntese religiosa inovadora, integrando conceitos do espiritismo kardecista, elementos do catolicismo popular e cosmologias dos povos bantos, iorubás e nativos brasileiros. Essa combinação estruturou uma teologia focada na evolução espiritual por meio do trabalho gratuito de assistência à população.

A denominação adotada para o novo culto derivou do vocábulo banto “umbanda”, que, na língua quimbundo, significa arte de curar ou ciência divina. Nos primeiros anos após a manifestação inicial, os rituais ocorriam com discrição para evitar a repressão policial fundamentada no Código Penal de 1890, que criminalizava o curandeirismo e a magia. A rápida expansão da religião pela capital federal e pelos municípios adjacentes consolidou a prática em terreiros organizados, com estatutos próprios e hierarquias definidas. O movimento representou uma ruptura com o elitismo religioso vigente ao centralizar sua liturgia na escuta e na solidariedade popular.

A fundação da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade

No dia seguinte à histórica sessão em Niterói, em 16 de novembro de 1908, Zélio de Moraes fundou o primeiro templo oficial da nova religião em sua própria residência. A instituição recebeu o nome de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, em homenagem à santa católica, refletindo o sincretismo característico daquele contexto urbano. A norma fundamental do templo proibia qualquer cobrança financeira pelos trabalhos espirituais ou o sacrifício de animais nos rituais. A organização desse espaço litúrgico definiu o modelo institucional que orientaria a abertura de centenas de outros terreiros nas décadas seguintes.

O Caboclo das Sete Encruzilhadas justificou o surgimento da doutrina pela necessidade de dar voz aos espíritos de indígenas e negros escravizados, então impedidos de se manifestarem nas mesas kardecistas. Pouco tempo depois da fundação da Tenda Piedade, incorporou-se também a entidade Pai Antônio, reconhecida como o primeiro Preto Velho a atuar liturgicamente no Brasil. Essas figuras representavam as classes mais oprimidas da história colonial brasileira, elevadas na nova liturgia à condição de mestres espirituais e conselheiros morais. A centralidade desses personagens redefiniu a representatividade social na esfera religiosa do país, transformando marginalizados históricos em guias de sabedoria.

A partir da década de 1930, a prática religiosa iniciou um processo de formalização institucional para buscar legitimidade legal e proteção contra a intolerância do Estado. Em 1939, realizou-se o Primeiro Congresso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda no Rio de Janeiro, evento que buscou padronizar rituais e codificar os princípios teológicos da doutrina. Esse movimento de federação permitiu que os líderes religiosos dialogassem diretamente com autoridades públicas na defesa da liberdade de culto. A codificação resultante preservou a oralidade originária das práticas, mas conferiu uma estrutura doutrinária coesa aos templos espalhados pelo território nacional.

Ritos, tradições e a liturgia dos terreiros

O ritual litúrgico principal da Umbanda denomina-se “gira”, uma sessão coletiva realizada no espaço sagrado do terreiro sob a condução de um dirigente espiritual, conhecido como Pai ou Mãe de Santo. Durante as celebrações, os praticantes utilizam trajes predominantemente brancos, simbolizando a pureza ritualística, a igualdade entre os médiuns e o respeito às divindades. As sessões dividem-se em momentos precisos de louvor aos Orixás, incorporação dos guias espirituais e atendimento individual aos frequentadores que buscam orientação ou auxílio terapêutico. Esse formato ritualístico mantém-se estruturalmente preservado desde os primeiros anos de consolidação da prática no Rio de Janeiro.

A música exerce função primordial na condução dos trabalhos religiosos, operando como elemento de conexão entre o plano material e o plano espiritual. Os pontos cantados, hinos sagrados entoados em língua portuguesa com termos africanos e indígenas, são acompanhados pelo ritmo do atabaque e de instrumentos de percussão. Antes de cada sessão, realiza-se o rito de defumação do ambiente e dos presentes com ervas aromáticas como alecrim, alfazema e benjoim. A queima dessas substâncias vegetais possui a finalidade litúrgica de purificar o espaço sagrado e equilibrar o campo energético dos médiuns para o trabalho de incorporação.

O atendimento aos consulentes constitui o núcleo prático da tradição umbandista, fundamentado no diálogo direto entre a comunidade e as entidades incorporadas nos médiuns. Durante essas consultas, os guias espirituais realizam o “passe”, um ritual de imposição de mãos e transferência de energia com o objetivo de promover o reequilíbrio físico, emocional e espiritual do indivíduo. Os conselhos oferecidos buscam orientar a conduta moral do consulente e auxiliar na resolução de conflitos cotidianos por meio de sabedoria ancestral e conhecimentos fitoterápicos. A gratuidade absoluta desse atendimento permanece como princípio inegociável em todas as vertentes legítimas da religião.

O papel das entidades e os instrumentos litúrgicos

A cosmologia umbandista organiza as entidades espirituais em falanges ou linhas de trabalho, agrupadas sob a vibração energética das divindades maiores chamadas Orixás. As principais linhas populares incluem os Caboclos, representantes da bravura e do conhecimento das matas; os Pretos Velhos, símbolos da paciência e da sabedoria ancestral; e os Exus e Pombagiras, guardiões dos caminhos e executores da lei cósmica. Diferentemente da percepção ocidental tradicional, essas entidades não são deuses, mas sim espíritos em constante evolução que cumprem missões específicas de auxílio humanitário. Cada linha manifesta trejeitos corporais, vocabulários e posturas arquetípicas distintas durante o transe mediúnico.

Para firmar a presença das entidades e canalizar energias específicas, a liturgia faz uso de símbolos geométricos traçados no chão, conhecidos como pontos riscados. Esses diagramas são desenhados pelos médiuns com pemba, uma espécie de giz calcário consagrado, utilizando retas, círculos, cruzes, flechas e estrelas que funcionam como assinaturas espirituais dos guias. Os elementos visuais do ponto riscado identificam a linha de trabalho do espírito, sua hierarquia litúrgica e as forças da natureza que regem sua atuação ritualística. Ao término dos trabalhos litúrgicos, esses desenhos sagrados são rigorosamente apagados, encerrando a conexão ritual configurada para aquela sessão específica.

Distinções teológicas e rituais entre a Umbanda e o Candomblé

Embora compartilhem referências africanas e a reverência aos Orixás, a Umbanda e o Candomblé constituem sistemas religiosos com histórias, teologias e metodologias rituais profundamente distintas. O candomblé é uma religião de matriz africana originada no século XIX na Bahia, focada na preservação das tradições e línguas de nações específicas como Quetu, Jeje e Angola. Nessa liturgia tradicional, o culto destina-se diretamente aos Orixás, Inquices ou Voduns, divindades que incorporam exclusivamente em seus iniciados durante cerimônias festivas e rituais de consagração. Na teologia umbandista, por sua vez, os Orixás são compreendidos como potências cósmicas da natureza que não incorporam diretamente, manifestando-se por meio de suas falanges de guias espirituais.

Outra diferença estrutural fundamental reside nas práticas rituais de iniciação e na relação com o sacrifício de animais durante as cerimônias litúrgicas. O candomblé exige um longo processo iniciático chamado de “feitura de santo”, no qual o noviço permanece recluso em período de aprendizado e transformação espiritual, utilizando amplamente o sacrifício ritual de animais, o mengá, para a alimentação das energias sagradas. A tradição fundada por Zélio de Moraes adota a abstenção de sacrifícios cruentos, substituindo-os por oferendas vegetais, minerais, velas, pemba e defumadores para movimentar as forças naturais. Adicionalmente, enquanto os terreiros candomblecistas utilizam línguas litúrgicas africanas como o iorubá e o fom em seus cânticos, a liturgia umbandista desenvolve-se majoritariamente no idioma português.

A consolidação de ambas as religiões no cenário nacional reflete a resistência e a complexidade da identidade cultural brasileira face às adversidades históricas e sociais. Apesar de suas divergências litúrgicas, os dois sistemas de crença enfrentaram processos semelhantes de marginalização jurídica ao longo do século XX, especialmente sob a repressão policial da Era Vargas. Como reflexo documental desse período de perseguição oficial, a Delegacia de Costumes do Rio de Janeiro apreendeu, entre 1890 e 1945, centenas de objetos litúrgicos de terreiros da capital carioca. Esse acervo sagrado permaneceu retido pela Polícia Civil por mais de oito décadas sob a designação pejorativa de “Museu da Magia Negra”, sendo transferido e devolvido aos líderes religiosos do Candomblé e da Umbanda apenas em 2020, em um ato histórico de reparação por parte do Estado brasileiro.

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