Pelé e o Santos jogaram na Nigéria em fevereiro de 1969, em plena Guerra Civil Nigeriana, e a versão popularizada pelo clube e pelo próprio jogador afirma que as autoridades locais decretaram um cessar-fogo para viabilizar a partida — episódio que ficou conhecido como “o dia em que o Santos parou a guerra”. Essa narrativa, repetida por décadas em reportagens esportivas e pelo próprio Pelé, não é, porém, consenso entre historiadores: ao menos um pesquisador acadêmico já apresentou evidências de que não havia combate ativo na região onde o jogo aconteceu, o que contesta diretamente a ideia de que uma trégua tenha sido necessária.
A Guerra Civil Nigeriana, também chamada de Guerra de Biafra, começou em 1967, quando a região sudeste do país, majoritariamente habitada pelo povo igbo, declarou independência sob o nome de República de Biafra. O conflito se estendeu até 1970, quando as forças nigerianas retomaram o controle total do território separatista, e deixou um número de mortos estimado entre 500 mil e três milhões de pessoas, a maioria civis vitimados pela fome causada pelo bloqueio militar imposto a Biafra.
O Santos Futebol Clube, então principal equipe do futebol brasileiro e detentor de dois títulos mundiais, viajava com frequência para excursões internacionais na década de 1960, prática que gerava receita ao clube e espalhava o prestígio de Pelé, seu principal jogador, pelo mundo. Em 1969, a equipe visitou diferentes países do continente africano, incluindo passagens por Lagos, então capital nigeriana, e por Lourenço Marques, atual Maputo, capital de Moçambique, antes de aceitar o convite para uma partida extra na Nigéria.
O que aconteceu na partida de fevereiro de 1969 em Benin City?
Segundo o relato oficial divulgado pelo Santos Futebol Clube, o jogo em Benin City, cidade próxima à fronteira com o território separatista de Biafra, não estava previamente programado e só foi fechado pelo empresário Samuel Ratinoff depois que a diretoria santista recebeu garantias de segurança das autoridades locais. A partida aconteceu em 4 de fevereiro de 1969, uma terça-feira, contra a seleção do Meio-Oeste nigeriano, e terminou com vitória do Santos por 2 a 1, com gols de Edu e Toninho Guerreiro.
A versão do clube, sustentada pelo historiador santista Guilherme Guarche e por relatos de jogadores como Edu e Lima, afirma que o tenente-coronel Samuel Ogbemudia, governador militar da região, decretou feriado e determinou a suspensão dos combates no dia da partida, justamente para garantir a segurança da delegação brasileira. O jornal local “A Tribuna” chegou a estampar uma manchete sobre o episódio, e a equipe deixou o país no dia seguinte à vitória.
Outros relatos sobre a passagem do Santos pela Nigéria em 1969 mencionam um jogo diferente, disputado em Lagos no dia 26 de janeiro, que teria terminado empatado em 2 a 2, com os dois gols santistas marcados pelo próprio Pelé. Essa divergência entre versões — sobre cidade, data, resultado e artilheiros — é um sinal claro de que a história se transformou ao longo das décadas em uma narrativa reconstruída de diferentes formas, característica típica de episódios que combinam fato histórico e mito popular.
Por que historiadores contestam a versão oficial do cessar-fogo?
O antropólogo José Paulo Florenzano, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, apresentou uma reconstrução histórica que contradiz a tese do cessar-fogo necessário. Segundo ele, no momento em que o Santos jogou em Benin City, o território de Biafra já estava reduzido a cerca de um quarto de sua extensão original, sem saída para o mar e com o espaço aéreo sob vigilância das forças nigerianas — condição que, segundo o antropólogo, tornava improvável qualquer disputa militar ativa sobre Benin City ou a região central-oeste onde a cidade está localizada.
Esse argumento historiográfico não nega que o país vivesse em guerra em 1969, mas contesta especificamente a necessidade de uma trégua armada para viabilizar a partida, já que não havia, segundo essa análise, tropas disputando o controle daquela área específica do país. Florenzano sustenta que o clube foi usado politicamente pelo governo nigeriano, interessado em projetar uma imagem de normalidade e controle territorial ao receber uma equipe de renome mundial durante o conflito.
O papel da imprensa e do próprio Pelé na consolidação do mito
A repetição da história ao longo dos anos, tanto pela imprensa esportiva brasileira quanto pelo próprio Pelé em entrevistas e publicações posteriores, ajudou a consolidar a versão do cessar-fogo como fato histórico estabelecido, mesmo diante da contestação acadêmica. Em depoimentos dados décadas depois da partida, Pelé chegou a afirmar que a interrupção da guerra estava entre seus maiores orgulhos como jogador, reforçando a narrativa que se tornaria parte da mitologia construída em torno de sua carreira.
Qual foi o desfecho da guerra e o legado da história?
Independentemente da existência formal de um cessar-fogo, a Guerra Civil Nigeriana prosseguiu sem alteração de rumo após a saída do Santos do país. O conflito só terminaria em 1970, com a rendição total de Biafra e a reintegração do território ao restante da Nigéria, cerca de um ano depois da passagem do time brasileiro pelo país.
A história, com essa mistura reconhecida de mito e fato, ganhou força também na cultura popular do futebol brasileiro: deu origem à canção “O Maior Time da Terra”, cantada por torcedores santistas nas arquibancadas de estádios pelo país, e se tornou um dos episódios mais lembrados associados ao nome de Pelé, ao lado de suas conquistas esportivas propriamente ditas.
Um dado pouco lembrado dessa história envolve o próprio governador que teria decretado a trégua: Samuel Ogbemudia seguiu na vida pública nigeriana muito depois de 1969 e se tornou, já no período civil pós-guerra, governador eleito do estado de Bendel, um dos políticos mais conhecidos da região centro-oeste do país nas décadas seguintes ao conflito — trajetória que mostra como a figura central do episódio não desapareceu da história nigeriana junto com a partida de futebol.
