A inteligência artificial consome água, principalmente nos data centers que treinam e executam os modelos. A água é usada diretamente para resfriar servidores e indiretamente para gerar a eletricidade necessária ao funcionamento dessa infraestrutura.
As estimativas variam conforme a metodologia. O treinamento do GPT-3, por exemplo, teria consumido entre 700 mil e 5,4 milhões de litros de água. Já uma conversa de 20 a 50 perguntas com um chatbot pode consumir cerca de 500 mililitros — aproximadamente uma garrafinha de água.
Como a IA consome água?
O consumo ocorre de duas formas principais:
- Consumo direto: acontece nos próprios data centers, em sistemas como torres evaporativas, chillers e circuitos de água gelada. Esses mecanismos removem o calor produzido pelos processadores.
- Consumo indireto: está relacionado à geração de eletricidade. Usinas termoelétricas, responsáveis por parte da energia usada pelos data centers, também precisam de grandes volumes de água para operar e resfriar seus equipamentos.
A escala depende da atividade analisada. O treinamento de um modelo de linguagem envolve meses de processamento contínuo em milhares de servidores e, por isso, consome muito mais água do que uma consulta individual feita em um modelo já treinado.
Quanto consome uma consulta à IA?
Um estudo da Universidade da Califórnia em Riverside, em parceria com a Universidade do Texas em Arlington, estimou que o treinamento do GPT-3 em data centers da Microsoft nos Estados Unidos consumiu diretamente cerca de 700 mil litros de água doce.
O mesmo estudo calculou que uma conversa de 20 a 50 perguntas com um chatbot consumiria o equivalente a 500 mililitros de água. Isso corresponde a uma média estimada de 10 a 25 mililitros por pergunta.
Esse valor, porém, não é consenso. Outro levantamento, que considera mais etapas do treinamento, estimou o consumo do GPT-3 em 5,4 milhões de litros — quase oito vezes mais. A diferença ocorre porque os estudos adotam escopos distintos: alguns contabilizam apenas a água usada no resfriamento dos data centers, enquanto outros incluem também a água associada à geração de eletricidade.
Por isso, esses números devem ser tratados como estimativas, e não como valores oficiais divulgados pelas empresas de tecnologia.
Como os data centers usam água?
Nos sistemas de resfriamento evaporativo, a água circula por tubulações, absorve o calor dos servidores e evapora. Como parte do líquido é liberada na atmosfera, o sistema precisa receber água continuamente.
Nos sistemas de circuito fechado, a água aquecida passa por chillers, é resfriada e retorna ao circuito. Esse modelo reduz a necessidade de captar novos volumes, embora também possa exigir água para a refrigeração dos próprios equipamentos.
Um relatório do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, ligado ao Departamento de Energia dos Estados Unidos, estimou que os data centers do país consumiram diretamente 64 bilhões de litros de água para resfriamento em 2023. O relatório projetou que esse volume pode dobrar ou quadruplicar até 2028.
O consumo indireto foi estimado em outros 800 bilhões de litros, associados à produção da eletricidade usada por essas instalações.
Por que faltam dados precisos?
Grandes empresas de tecnologia ainda divulgam poucos dados detalhados sobre o consumo de água de seus data centers de IA. Relatórios públicos e documentos de sustentabilidade costumam usar metodologias diferentes, o que dificulta comparações entre empresas, unidades e países.
As diferenças entre instalações também podem ser grandes. Em 2024, um data center do Google em Pflugerville, no Texas, consumiu 38 mil litros de água, enquanto outras unidades da empresa registraram volumes muito maiores. O clima local e o sistema de resfriamento adotado estão entre os fatores que explicam essa variação.
O consumo deve crescer?
Um estudo do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, divulgado em junho de 2026, projetou que o consumo anual de água dos data centers de IA pode chegar a 9,3 trilhões de litros no mundo. Segundo o relatório, esse volume seria suficiente para atender às necessidades domésticas básicas de 1,3 bilhão de pessoas na África.
O mesmo estudo estimou que o treinamento do GPT-5 teria consumido cerca de 1 bilhão de litros de água, considerando toda a cadeia de infraestrutura envolvida. Também calculou que a área ocupada por essa infraestrutura equivaleria a 215 campos de futebol.
Dados corporativos anteriores já indicavam uma tendência de alta. Em 2023:
- O Google declarou consumo global de 24,2 bilhões de litros de água, dos quais 23,1 bilhões foram destinados aos data centers.
- A Meta registrou 3,1 bilhões de litros, com 2,9 bilhões concentrados em suas próprias instalações.
A demanda de eletricidade dos data centers pode quase dobrar até 2030, segundo o mesmo relatório da ONU. Esse crescimento tende a aumentar também o consumo indireto de água ligado à geração de energia.
A IA é a única responsável?
Não. O consumo de água por data centers existe há décadas, desde a expansão dos servidores de internet, dos serviços em nuvem e dos sistemas de armazenamento digital.
A diferença é a escala. Modelos generativos exigem muito mais processamento para treinamento e operação do que muitas aplicações digitais tradicionais. Com a expansão da IA, um consumo hídrico que já fazia parte da infraestrutura tecnológica passou a crescer em ritmo mais acelerado e a receber maior atenção.
