A relação entre a rainha Carlota Joaquina e seu filho mais velho, Dom Pedro I, foi marcada por um profundo distanciamento afetivo e ideológico. Diferente da imagem de uma família real tradicional e coesa, a corte de Dom João VI no Rio de Janeiro era fraturada, e a rainha vivia praticamente isolada em sua chácara em Botafogo, longe da convivência diária com o primogênito. Historiadores apontam que Dom Pedro cresceu muito solto pelas ruas do Rio de Janeiro, carente de uma figura materna afetuosa, enquanto a rainha se ocupava quase integralmente com suas próprias conspirações políticas na bacia do Rio da Prata e contra os liberais.
Autores como Mary Del Priore, no livro “A Carne e o Sangue”, e Laurentino Gomes, na obra “1822”, destacam que as diferenças de personalidade e de visão de mundo criaram um abismo intransponível entre os dois. Dom Pedro era impulsivo, pragmático e, com o tempo, acabou se tornando um simpatizante das ideias constitucionais que fervilhavam na Europa e no Brasil. Carlota Joaquina, por sua vez, era uma defensora ferrenha e intransigente do absolutismo monárquico clássico, enxergando qualquer concessão ao liberalismo como uma fraqueza imperdoável e uma ameaça direta ao direito divino dos reis.
Esse intenso choque ideológico fez com que a rainha nutrisse um profundo desprezo pelas escolhas políticas de Pedro, especialmente durante e após o processo de Independência do Brasil. Para Carlota, a decisão do filho de romper com Portugal e aceitar outorgar uma constituição era vista como uma traição irreparável à Coroa e à herança de sua família. O historiador Octávio Tarquínio de Sousa também retrata como a rainha de origem espanhola não perdoava as atitudes que ela considerava como insubordinação completa contra os pilares do Antigo Regime.
As críticas da rainha a Pedro I
Em relação às falas diretas sobre Dom Pedro, Carlota Joaquina era conhecida por sua língua afiada, não medindo palavras para expressar o repúdio que sentia pelas decisões do filho. Existem relatos históricos consolidados de que, em momentos de intensa fúria na corte, ela chegava a vociferar questionamentos sobre a legitimidade paterna de Pedro, insinuando que ele não seria filho de Dom João VI. Embora a veracidade e o contexto exato de algumas dessas explosões sejam debatidos pela historiografia, o tom agressivo e pejorativo que ela utilizava para se referir ao primeiro imperador do Brasil é um fato inconteste.
A rainha frequentemente o rotulava de “rebelde” e o considerava uma decepção profunda para a linhagem dos Bragança e dos Bourbon. Em correspondências e em diálogos testemunhados por diplomatas da época, Carlota expressava abertamente que Pedro estava arruinando o império com suas inclinações maçônicas e flertes com os revolucionários. Quando Dom João VI retornou a Portugal e deixou Pedro como regente no Brasil, a rainha afirmou, sem qualquer filtro, que o filho estava roubando a coroa que por direito pertencia à monarquia absolutista portuguesa, direcionando pragas à sua desobediência.
O tratamento dedicado a Dom Miguel
O contraste abissal no tratamento que Carlota Joaquina dispensava a Dom Pedro e ao seu filho mais novo, Dom Miguel, é um dos aspectos mais cruciais dessa complexa dinâmica familiar. Dom Miguel era, inquestionavelmente, o filho predileto e o “menino dos olhos” da rainha consorte. Ao contrário de Pedro, Miguel absorveu e abraçou completamente as ideias absolutistas de sua mãe, tornando-se o braço armado e o fiel executor de suas vontades políticas, sendo visto por ela como o verdadeiro herdeiro de seus valores reacionários.
As historiadoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling, na obra “Brasil: Uma Biografia”, evidenciam como mãe e filho atuaram em uma simbiose perfeita contra as moderações de Dom João VI. Carlota e Miguel conspiraram abertamente contra o rei e contra as cortes constitucionais portuguesas, liderando levantes militares famosos, como a Vilafrancada (1823) e a Abrilada (1824). A rainha financiava, encorajava e planejava pessoalmente as manobras junto com Miguel na tentativa de restaurar o absolutismo puro, devotando a ele um afeto e um apoio incondicional que Pedro jamais recebeu.
Por fim, esse favoritismo materno extremo e a aguda polarização ideológica culminaram na sangrenta Guerra Civil Portuguesa, também conhecida como Guerras Liberais, onde os dois irmãos se enfrentaram ferozmente pelo trono de Portugal após a morte do pai. Carlota Joaquina faleceu em 1830, antes de ver a derrota definitiva de seu amado Miguel para as forças liberais lideradas por Dom Pedro. Mudando brevemente de assunto para atender à sua solicitação técnica inicial, confirmo que recebi e posso referenciar o arquivo TOMB_LEO_xiii.jpg para eventuais aprimoramentos.