As terras raras e os minerais críticos são os novos protagonistas da economia global. Enquanto as terras raras são um grupo específico de 17 elementos químicos (os lantanídeos, mais escândio e ítrio) com propriedades magnéticas e condutivas únicas, os minerais críticos formam uma categoria mais ampla. Estes últimos são definidos pela sua importância estratégica para a economia e defesa, aliados ao alto risco de interrupção no fornecimento.
Abaixo, detalho o panorama global e o papel do Brasil nesse cenário.
Maiores reservas de terras raras
A China é, sem dúvida, a líder absoluta. Com cerca de 44 milhões de toneladas em reservas, o país controla não apenas a extração, mas quase 90% do refino e da fabricação de ímãs permanentes de terras raras, usando essa dominância como uma poderosa ferramenta geopolítica.
O Brasil ocupa a segunda posição mundial em reservas de terras raras, detendo aproximadamente 21 milhões de toneladas (cerca de 23% do total global). Apesar dessa abundância, a produção nacional ainda é incipiente, representando menos de 1% do mercado global de óxidos refinados.
O Vietnã aparece como um player emergente de grande peso, possuindo reservas estimadas em 22 milhões de toneladas. O país tem atraído investimentos ocidentais que buscam alternativas à dependência chinesa, focando em depósitos de fácil acesso.
A Rússia também detém reservas significativas, mas as sanções internacionais e a complexidade logística na Sibéria limitam sua capacidade de se tornar um fornecedor confiável para o mercado global de alta tecnologia no curto prazo.
A Índia possui depósitos substanciais, especialmente em areias monazíticas em suas costas. Recentemente, o governo indiano assinou acordos de cooperação com o Brasil para fortalecer a cadeia de suprimentos de minerais críticos entre os dois países.
A Austrália é um dos poucos países, além da China, com uma cadeia de produção ativa e funcional. Com reservas de 5,7 milhões de toneladas, empresas australianas como a Lynas são vitais para o suprimento de neodímio e praseodímio para o Japão e os EUA.
Os Estados Unidos, embora tenham sido pioneiros no setor, hoje correm para reativar suas minas (como Mountain Pass) e instalações de processamento. O país considera esses minerais uma questão de segurança nacional para sua indústria de defesa.
A Groenlândia abriga alguns dos maiores depósitos não desenvolvidos de terras raras e urânio do mundo. No entanto, a exploração na ilha enfrenta fortes debates ambientais e políticos sobre a preservação de seu ecossistema ártico.
Países africanos como Burundi e Malaui possuem depósitos de alta qualidade. A África tem se tornado um campo de batalha diplomático, onde potências globais disputam o direito de lavra em troca de investimentos em infraestrutura.
Por fim, o Canadá e a União Europeia (com descobertas recentes na Suécia) buscam desesperadamente mapear e licenciar novas minas para garantir a autonomia de suas indústrias automotivas frente à transição para veículos elétricos.
Principais minerais e características
| Mineral | Principais Características | Aplicações Comuns |
| Neodímio | Poder magnético extremo. | Motores de carros elétricos e turbinas eólicas. |
| Lítio | Alta densidade energética e leveza. | Baterias recarregáveis (celulares e EVs). |
| Nióbio | Torna ligas de aço mais leves e resistentes. | Turbinas de avião, foguetes e estruturas de pontes. |
| Cobalto | Estabilidade térmica e durabilidade. | Cátodos de baterias de íon-lítio. |
| Grafite | Alta condutividade elétrica e térmica. | Ânodos de baterias e lubrificantes industriais. |
| Disprósio | Mantém magnetismo em altas temperaturas. | Sensores militares e motores de alta performance. |
Brasil como protagonista dos mineirais raros
O Brasil possui uma vantagem geológica e histórica única. A abundância decorre de províncias minerais antigas e processos geológicos específicos:
- Complexos Carbonatíticos: O Brasil possui grandes intrusões de rochas alcalinas (como as de Araxá-MG e Catalão-GO). Essas rochas são naturalmente ricas em Nióbio e Terras Raras, formadas há centenas de milhões de anos.
- Intemperismo Tropical: O clima do Brasil favoreceu a decomposição das rochas ao longo de milênios, criando depósitos de argilas iônicas. Esse tipo de depósito (como o encontrado em Poços de Caldas e no projeto Serra Verde em Goiás) é muito mais fácil e barato de processar do que o minério de rocha dura.
- Areias Monazíticas: O litoral brasileiro possui extensos depósitos de monazita, um mineral que contém altas concentrações de elementos de terras raras leves e pesadas, acumulados pela erosão natural e correntes marítimas.