O Código de Hamurábi é um dos conjuntos de leis mais antigos e bem preservados da história da humanidade, criado na antiga Mesopotâmia por volta de 1754 a.C. Instituído pelo sexto rei da primeira dinastia da Babilônia, o rei Hamurábi, o código tinha como objetivo principal unificar o vasto império sob um sistema jurídico comum. Ao estabelecer regras fixas, o rei buscava garantir a ordem, promover a justiça e proteger os fracos da opressão dos fortes, embora os conceitos de justiça da época fossem bastante diferentes dos atuais.
O texto das leis foi talhado em cuneiforme acadiano numa grande estela de diorito preto (uma rocha vulcânica), que mede mais de dois metros de altura. No topo da pedra, há um relevo esculpido que retrata o rei Hamurábi recebendo as leis diretamente de Shamash, o deus sol e senhor da justiça. Essa representação visual servia para conferir uma autoridade divina às normas: desobedecer ao código não seria apenas um crime contra o Estado, mas uma afronta à vontade dos deuses, o que tornava as leis imutáveis e sagradas aos olhos do povo.
Lei de Talião
A característica mais famosa do Código de Hamurábi é o princípio da Lei de Talião, popularmente resumido pela expressão “olho por olho, dente por dente”. Esse princípio estabelecia que a punição deveria ser equivalente à ofensa cometida. Se um homem furasse o olho de outro homem livre, o seu próprio olho seria furado; se quebrasse um osso, teria o seu quebrado. Essa lógica buscava evitar vinganças desproporcionais e ciclos infinitos de violência, limitando a retaliação ao dano exato causado.
No entanto, a aplicação da Lei de Talião não era universal ou igualitária, pois a sociedade babilônica era rigidamente estratificada. O código distinguia três classes sociais principais: os awilum (homens livres e proprietários de terras), os mushkenum (homens livres, mas dependentes do palácio ou sem propriedades) e os wardum (escravos). As penas variavam drasticamente dependendo do status social da vítima e do agressor; ferir um nobre resultava em punição física severa, enquanto ferir um escravo resolvia-se geralmente com o pagamento de uma compensação financeira ao seu dono.
O código é composto por 282 leis que abrangem uma variedade impressionante de temas do cotidiano, indo muito além do direito criminal. Havia regulamentações detalhadas sobre comércio, preços, salários de trabalhadores, aluguéis, empréstimos e agricultura. Um exemplo notável é a responsabilidade profissional: se um construtor fizesse uma casa frágil e ela desabasse matando o proprietário, o construtor seria condenado à morte. Isso demonstrava uma preocupação estatal com a segurança pública e a integridade das transações comerciais.
Código Hamurábi sobre questões familiares
As questões familiares e domésticas também ocupavam uma parte significativa do texto legal, regulando o casamento, o divórcio, a adoção e a herança. O código estabelecia o casamento como um contrato formal e, embora a sociedade fosse patriarcal, conferia certos direitos às mulheres, como a possibilidade de possuir bens, realizar negócios e obter o divórcio em casos de negligência ou maus-tratos graves por parte do marido. Contudo, a infidelidade feminina era punida com a morte, enquanto a masculina era tolerada em diversas circunstâncias.
Hoje, a estela original encontra-se no Museu do Louvre, em Paris, e permanece como um testemunho fundamental da evolução da civilização. O Código de Hamurábi não foi o primeiro código legal da história, mas foi o mais abrangente de sua era e influenciou profundamente os sistemas jurídicos subsequentes no Oriente Médio. Sua maior herança foi a transição da justiça oral e arbitrária para a justiça escrita e pública, estabelecendo o precedente de que a lei deve ser conhecida por todos para que a sociedade funcione de maneira ordenada.
