Em 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, matando instantaneamente dezenas de milhares de pessoas e provocando consequências que reverberam até hoje. O que muitos não sabem é que o lançamento dessas bombas não foi apenas uma decisão militar, mas envolveu aspectos políticos, científicos e éticos complexos que raramente são debatidos com profundidade.
Um dos aspectos menos discutidos é que Hiroshima e Nagasaki não eram os alvos iniciais. Cidades como Kyoto, a antiga capital imperial japonesa, estavam entre as primeiras opções dos militares norte-americanos. Contudo, o secretário de Guerra Henry Stimson insistiu na retirada de Kyoto da lista, por reconhecer seu valor histórico e cultural. A escolha final por Hiroshima e Nagasaki levou em conta critérios estratégicos, como o fato de ainda estarem relativamente intactas por bombardeios convencionais — o que permitiria medir melhor os efeitos da nova arma.
Rendição do Japão
Outro ponto pouco abordado é que a rendição do Japão já estava sendo negociada antes dos ataques nucleares. Alguns historiadores defendem que o país estava à beira da capitulação, especialmente após a entrada da União Soviética na guerra contra o Japão, em 8 de agosto. Nesse sentido, as bombas serviriam menos para encerrar a guerra e mais para enviar um recado geopolítico à URSS, inaugurando a Guerra Fria com uma demonstração de poder devastador.
Os cientistas do Projeto Manhattan, que desenvolveram a bomba, também se dividiram quanto ao seu uso. Enquanto alguns, como Leo Szilard, pediram que ela fosse demonstrada em um local desabitado como forma de intimidação sem mortes civis, outros acreditavam que seu uso real era necessário para justificar os bilhões investidos no projeto. O pedido por uma demonstração prévia foi ignorado pelo governo dos EUA, o que ainda hoje levanta questionamentos éticos sobre a pressa e a motivação do ataque.
Há também detalhes técnicos que surpreendem. Por exemplo, a bomba de Hiroshima, chamada “Little Boy”, nunca foi testada antes de ser usada — os cientistas estavam confiantes de que ela funcionaria, mas nunca a haviam detonado. Já a de Nagasaki, “Fat Man”, seguia um modelo testado dias antes no deserto do Novo México. Mesmo com essa incerteza, as bombas foram lançadas sem aviso prévio às populações civis.
Os efeitos censurados das bombas
Outro fato pouco lembrado é que, após os ataques, os EUA censuraram imagens, documentos e até estudos médicos sobre os efeitos da radiação. Durante anos, fotos dos corpos carbonizados, dos sobreviventes com queimaduras profundas e dos danos genéticos foram mantidas em segredo, o que dificultou uma compreensão mais completa da tragédia e seus desdobramentos a longo prazo.
Por fim, o sofrimento das vítimas continuou por décadas. Os hibakusha, como são chamados os sobreviventes das bombas, enfrentaram não só os efeitos físicos e psicológicos da radiação, mas também o preconceito da própria sociedade japonesa, que muitas vezes os via como “contaminados”. Muitos tiveram filhos com deformações, desenvolveram cânceres e viveram com dores crônicas, enquanto tentavam reconstruir suas vidas em meio aos escombros — não apenas das cidades, mas também de sua dignidade humana.
