Em 1º de maio de 1994, durante o Grande Prêmio de San Marino de Fórmula 1, o brasileiro Ayrton Senna sofreu um acidente na curva Tamburello, no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, na Itália. O piloto, então com 34 anos, foi retirado de seu Williams FW16 e recebeu atendimento médico ainda na pista, antes de ser transportado de helicóptero ao Hospital Maggiore, em Bolonha. Apesar das tentativas de reanimação e dos procedimentos de emergência, ele não sobreviveu aos graves traumatismos cranianos provocados pelo impacto. A reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 2 de maio de 1994 documentou os primeiros detalhes do socorro e da hospitalização.
O atendimento mobilizou Sid Watkins, neurocirurgião britânico e responsável médico da Fórmula 1, além dos profissionais de emergência que trabalhavam no circuito. A equipe precisou lidar com uma situação crítica: Senna permanecia inconsciente e apresentava lesões gravíssimas na cabeça. Os médicos procuraram preservar suas funções vitais e preparar o transporte para um hospital com recursos de atendimento intensivo.
A operação aconteceu diante das câmeras de televisão, que transmitiam o Grande Prêmio para diversos países. As imagens mostraram médicos trabalhando junto ao piloto, enquanto os fiscais de pista e outros profissionais mantinham a área isolada. O atendimento tornou-se um dos registros mais marcantes daquele domingo, mas as imagens não permitem, por si só, estabelecer todos os procedimentos clínicos realizados nem o estado exato do piloto em cada momento.
O socorro a Senna na curva Tamburello
Na sétima volta da corrida, o carro de Senna saiu da trajetória na curva Tamburello e atingiu o muro de concreto. A violência do impacto provocou danos graves na região da cabeça. A direção de prova interrompeu a competição, permitindo que as equipes de emergência chegassem ao local e iniciassem o atendimento. Os fiscais de pista foram os primeiros a atuar na área do acidente, seguidos pelos profissionais de saúde.
O médico Sid Watkins chegou ao local com a equipe de intervenção médica da Fórmula 1. Neurocirurgião experiente, ele já acompanhava os pilotos e as ocorrências médicas dos Grandes Prêmios havia anos. Sua atuação em Ímola fazia parte de uma estrutura de emergência que incluía profissionais do autódromo e equipes do serviço de saúde da região de Bolonha.
A retirada do piloto do cockpit exigiu cuidados para evitar movimentos desnecessários do pescoço e da cabeça. Os socorristas removeram Senna do carro e o colocaram em uma maca, dando início aos procedimentos de emergência. Relatos publicados logo depois do acidente descrevem o uso de proteção cervical e as dificuldades respiratórias que exigiram intervenção imediata.
O médico italiano Alessandro Misley, que participou dos primeiros socorros, declarou posteriormente que Senna ainda apresentava batimentos cardíacos quando foi retirado do carro. A informação é relevante porque circularam versões segundo as quais o piloto teria morrido instantaneamente no impacto. A existência de atividade cardíaca durante o atendimento, entretanto, não significava que suas lesões fossem reversíveis ou que houvesse possibilidade segura de recuperação.
As intervenções médicas ainda na pista
Uma das prioridades dos profissionais foi manter a respiração do piloto. As lesões na cabeça e a gravidade do quadro tornavam necessário assegurar a passagem de ar e dar suporte às funções vitais. Os médicos realizaram procedimentos para facilitar a ventilação, enquanto a equipe preparava o transporte para o hospital. Os relatos contemporâneos descrevem uma intervenção na via aérea por meio de uma traqueostomia.
A traqueostomia consiste na criação de uma abertura na região anterior do pescoço para permitir a entrada de ar diretamente na traqueia. Em situações de emergência, esse procedimento pode ser necessário quando a respiração pela via aérea superior está comprometida ou quando a equipe precisa garantir uma via respiratória. No caso de Senna, os relatos indicam que a intervenção foi realizada durante a fase de atendimento e transporte, embora as descrições publicadas nem sempre detalhem com precisão a sequência de cada procedimento.
Sid Watkins e os demais médicos precisavam avaliar o quadro sem perder tempo. O atendimento envolvia a proteção da região cervical, o suporte respiratório e a preparação para uma transferência rápida. As lesões cranianas eram extremamente graves, e os profissionais não dispunham, na pista, dos recursos diagnósticos e terapêuticos encontrados em um centro hospitalar especializado.
O médico Giovanni Gordini, integrante da equipe de emergência de Bolonha, recordou posteriormente que Senna ainda respirava quando os profissionais o atenderam e que a equipe médica solicitou o helicóptero para a remoção. Em entrevista publicada pelo portal italiano de Fórmula 1, Gordini descreveu a gravidade do quadro e os esforços realizados durante o atendimento. Segundo seu relato, a avaliação por tomografia no hospital revelou a extensão devastadora dos danos sofridos pelo piloto.
O transporte de helicóptero e a chegada ao hospital
Depois dos primeiros procedimentos, a equipe preparou Senna para a remoção aérea. O helicóptero de emergência pousou no circuito e levou o piloto ao Hospital Maggiore, em Bolonha, situado a aproximadamente 35 quilômetros de Ímola. A transferência permitiu que ele recebesse atendimento em uma unidade hospitalar equipada para tratar traumatismos graves.
Durante o voo, Senna sofreu uma parada cardíaca, segundo as reportagens publicadas na época. Os profissionais realizaram manobras de reanimação para restabelecer a circulação. A equipe continuou prestando assistência até a chegada ao hospital, onde os médicos deram prosseguimento às medidas de suporte vital e à avaliação das lesões.
O Hospital Maggiore recebeu o piloto em estado extremamente grave. A equipe realizou exames, incluindo tomografia computadorizada, para avaliar os traumatismos cranianos. Os resultados indicaram lesões extensas, associadas ao impacto sofrido na pista. Os médicos também tentaram manter a circulação sanguínea e a respiração com o auxílio de equipamentos e procedimentos intensivos.
A equipe hospitalar continuou os esforços para preservar a vida de Senna durante a tarde. Apesar das intervenções, o quadro não apresentou recuperação. A médica Maria Teresa Fiandri, responsável pelo setor de reanimação, anunciou a morte do piloto às 18h40, horário local, segundo os registros mais citados da época. Algumas reportagens publicadas posteriormente registraram diferenças de poucos minutos no horário do anúncio, mas não há controvérsia sobre a morte ter sido confirmada naquela noite, após várias horas de atendimento.
O que o atendimento revelou sobre a gravidade do acidente?
O socorro prestado a Senna precisa ser compreendido à luz da natureza de seus ferimentos. O piloto sofreu traumatismos cranianos gravíssimos, incluindo fraturas na base do crânio. A violência do impacto e os danos associados à cabeça tornaram o prognóstico extremamente desfavorável. Mesmo com a resposta rápida das equipes e o suporte hospitalar, os recursos médicos disponíveis não conseguiram reverter as lesões.
A distinção entre o momento do acidente, a situação clínica durante o socorro e a confirmação da morte é fundamental. Os relatos dos profissionais que o atenderam indicam que Senna apresentava sinais de atividade cardíaca durante parte do atendimento. Isso não significa que estivesse consciente ou que pudesse se recuperar, mas ajuda a compreender por que os médicos continuaram as manobras de emergência e o transporte hospitalar.
A tragédia de Ímola também provocou mudanças importantes na segurança do automobilismo. A Federação Internacional do Automóvel (FIA) ampliou os esforços para melhorar circuitos, barreiras de proteção, equipamentos e protocolos médicos. As medidas adotadas nos anos seguintes incluíram mudanças no desenho das pistas, exigências de proteção para os pilotos e aperfeiçoamentos nos procedimentos de resgate. A morte de Senna, somada à de Roland Ratzenberger no dia anterior, tornou o fim de semana de Ímola um marco na revisão das práticas de segurança da Fórmula 1.
Um detalhe pouco lembrado é que o mesmo sistema de emergência que atendeu Senna também havia sido mobilizado no dia anterior, quando o austríaco Roland Ratzenberger morreu após um acidente durante a classificação. A proximidade temporal das duas tragédias expôs os limites da segurança então existente e reforçou a necessidade de rever os protocolos de atendimento e a proteção dos pilotos. A FIA reconhece o impacto daquele fim de semana nas reformas que transformaram a segurança da categoria nas décadas seguintes.
