Corisco, cujo nome de batismo era Cristino Gomes da Silva Cleto, morreu na tarde de 25 de maio de 1940 na Fazenda Pacheco, no povoado de Pulgas, então parte do município de Brotas de Macaúbas e hoje pertencente a Barra do Mendes, no interior da Bahia. O cangaceiro foi atingido por uma rajada de metralhadora no abdômen, durante uma emboscada armada por uma volante policial comandada pelo tenente José Rufino, conhecido como o “matador de cangaceiros”. Ao seu lado estava a companheira Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, também baleada na operação. O ataque policial marcou o encerramento do cangaço, movimento de banditismo social que atuou no sertão nordestino entre o fim do século 19 e 1940.
Nascido em 10 de agosto de 1907 na localidade de Matinha de Água Branca, em Alagoas, Corisco ingressou no bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, por volta de 1926, depois de matar um homem protegido por um coronel local. A força física, os cabelos longos e loiros e o temperamento agressivo renderam-lhe o apelido de “Diabo Louro” entre os cangaceiros. Em 1928, Corisco raptou Sérgia Ribeiro da Silva, então com 13 anos, descendente do povo indígena pancararé, e a manteve como companheira até o dia de sua morte, ensinando-a a ler, escrever e manejar armas de fogo. Com a morte de Lampião e de Maria Bonita, fuzilados em 28 de julho de 1938 na Grota do Angico, no município de Poço Redondo, em Sergipe, Corisco assumiu a liderança do que restava do cangaço.
Em 1940, o governo de Getúlio Vargas havia promulgado uma lei de anistia para cangaceiros que se rendessem, e o casal já planejava abandonar a vida de perseguição no sertão. Corisco também estava fisicamente debilitado por ferimentos sofridos em uma emboscada anterior, ocorrida em 1939 na Fazenda Lagoa da Serra, em Sergipe, que lhe deixou sequelas nos braços. No dia do ataque final, o grupo descansava após o almoço, disfarçado de romeiros a caminho de Bom Jesus da Lapa, quando a volante de José Rufino cercou a propriedade. Segundo relatos posteriores da própria Dadá, o casal foi surpreendido sem condições reais de reação, já que Corisco não conseguia mais manusear armas longas.
Como foi a morte de Corisco em 1940?
No confronto final, Corisco foi baleado nas costas e no abdômen, ficando com parte dos intestinos exposta, e resistiu por cerca de dez horas antes de morrer. Dadá foi atingida no tornozelo direito, ferimento que gangrenou e exigiu a amputação da perna em um hospital de Miguel Calmon, cidade baiana mais próxima do local do ataque. Relatos divergem sobre as últimas palavras do cangaceiro: enquanto o imaginário popular e o cinema consolidaram frases de desafio à polícia, testemunhas contemporâneas ao episódio registraram que Corisco teria dito apenas “maiores são os poderes de Deus” pouco antes de morrer. A certidão de óbito do cangaceiro foi lavrada em 27 de maio de 1940 na então chamada cidade de Djalma Dutra, atual Miguel Calmon, Bahia, e atribuiu a morte a hemorragia e choque provocados pelos ferimentos por arma de fogo.
Sepultamento e violação do túmulo
Corisco foi sepultado inicialmente no cemitério municipal de Miguel Calmon, também identificado em registros como Cemitério da Consolação. Dias depois do enterro, a sepultura foi violada por ordem das autoridades baianas, e o corpo do cangaceiro foi exumado para que sua cabeça e o braço direito fossem retirados, sob justificativa de estudo científico. As partes decepadas foram enviadas para Salvador e permaneceram expostas por cerca de três décadas no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, ao lado das cabeças de Lampião e Maria Bonita, em uma prática de exposição pública de restos mortais de cangaceiros comum no Brasil da época. O restante do corpo de Corisco, sem a cabeça e o braço, permaneceu enterrado no cemitério de Miguel Calmon.
A luta de Dadá para recuperar os restos mortais de Corisco
Sérgia Ribeiro da Silva passou décadas reivindicando a devolução dos restos mortais do companheiro às autoridades baianas. Em 6 de fevereiro de 1969, a cabeça e o braço de Corisco deixaram finalmente a exposição no Instituto Nina Rodrigues e foram sepultados no Cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador. Em 1972, Dadá retornou pessoalmente a Miguel Calmon, acompanhada da neta Indaiá, para localizar e exumar o restante do corpo do marido, que seguia enterrado no cemitério municipal desde 1940. Os ossos recuperados ficaram guardados em uma caixa de madeira na casa de Dadá, em Salvador, até 1977, quando finalmente cabeça e corpo foram reunidos em uma nova cerimônia no Cemitério Quinta dos Lázaros, iniciativa sugerida e custeada pelo escritor Jorge Amado, amigo pessoal da ex-cangaceira.
Onde estão os restos mortais de Corisco hoje?
Os restos mortais de Corisco permaneceram sepultados no Cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador, por 35 anos após a reunificação de 1977. Em 2012, o filho do casal, Sílvio Bulhões, então morador de Maceió, decidiu cremar os restos mortais do pai sem consultar os demais familiares. Em 26 de maio de 2013, 73 anos após a morte de Corisco, as cinzas foram lançadas ao mar, em um gesto simbólico, já que o cangaceiro viveu toda a vida confinado ao sertão nordestino e nunca havia visto o oceano. Não existe, portanto, um túmulo físico de Corisco disponível para visitação atualmente, já que seus restos mortais foram dispersados no Atlântico.
Dadá sobreviveu ao companheiro por mais de cinco décadas e se estabeleceu em Salvador, onde morreu em 1994, aos 78 anos, vítima de câncer no intestino, no Hospital São Rafael. Sua trajetória de resistência para reaver o corpo de Corisco tornou-se parte da memória histórica do cangaço, ao lado de episódios como a decapitação de Lampião e Maria Bonita após o massacre de Angicos, também expostos por décadas no mesmo instituto baiano. A história do casal inspirou obras como o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha, e o longa “Corisco & Dadá” (1996), que retrata diretamente a relação entre os dois cangaceiros. Uma curiosidade histórica resume bem o desfecho dessa trajetória: o homem que passou a vida inteira fugindo pela caatinga e nunca havia se aproximado do litoral só chegou ao mar setenta e três anos depois de morto, quando suas cinzas finalmente tocaram as águas do Atlântico, em 2013.