A história ocidental é dividida em antes e depois de Jesus Cristo porque, em 525, o monge Dionísio, o Exíguo, criou em Roma um sistema de contagem de anos batizado de Anno Domini, “Ano do Senhor“. Dionísio, nascido na Cítia Menor, região que corresponde hoje à Dobruja, entre a Romênia e a Bulgária, elaborou o método a pedido do bispo Petrônio, com o objetivo específico de calcular com precisão a data da Páscoa cristã para os anos seguintes. Ele substituiu o sistema então em uso, baseado nos anos de reinado do imperador romano Diocleciano, que havia perseguido cristãos entre 303 e 311. O novo cálculo passou a contar os anos a partir do nascimento, ou concepção, de Jesus de Nazaré, dando origem à divisão histórica entre “antes de Cristo” e “depois de Cristo” que se consolidaria nos séculos seguintes.
Antes da criação do Anno Domini, os romanos e outros povos do Mediterrâneo utilizavam diferentes formas de contar o tempo, sem um marco temporal unificado. O calendário romano tradicional contava os anos a partir da fundação lendária de Roma, em 753 a.C., no sistema conhecido como Ab Urbe Condita. Outras referências comuns incluíam os anos de reinado de imperadores, o sistema de datação por cônsules eleitos anualmente e, na tradição grega, a contagem por Olimpíadas, realizadas a cada quatro anos desde 776 a.C. A adoção de um marco vinculado ao nascimento de Jesus representou, para os cristãos do século VI, uma ruptura simbólica com essas referências pagãs ou associadas a perseguições religiosas.
Um detalhe frequentemente ignorado é que Dionísio nunca explicou com exatidão como chegou ao ano do nascimento de Jesus, apenas afirmou, em sua tabela de cálculo, que o ano corrente correspondia a 525 anos após a encarnação de Cristo. Historiadores modernos apontam que esse cálculo provavelmente contém um erro, já que o Evangelho de Mateus situa o nascimento de Jesus durante o reinado do rei Herodes, morto em 4 a.C., o que sugere um nascimento entre 6 e 4 a.C., não no ano 1. Outra particularidade do sistema criado por Dionísio é a ausência do ano zero, uma vez que o conceito matemático de zero ainda não havia chegado à Europa a partir da Índia, o que faz o ano 1 a.C. ser seguido diretamente pelo ano 1 d.C.
Quando os historiadores passaram a usar a divisão entre antes e depois de Cristo?
Apesar de criado em 525, o sistema de Dionísio permaneceu restrito, por muito tempo, ao uso litúrgico entre monges responsáveis pelo cálculo da Páscoa, sem se tornar padrão historiográfico imediato. A mudança decisiva ocorreu em 731, quando o monge inglês Beda, conhecido como Venerável Beda, tornou-se o primeiro historiador a adotar amplamente o sistema em sua obra “História Eclesiástica do Povo Inglês”. Beda também utilizou, em pelo menos duas passagens dessa obra, a expressão latina equivalente a “antes da encarnação do Senhor” para se referir a eventos anteriores ao nascimento de Jesus, antecipando em séculos o uso posterior da sigla “antes de Cristo”. A influência de sua obra entre historiadores e cronistas medievais fez do Anno Domini o principal sistema de referência cronológica na Inglaterra anglo-saxônica.
A partir da obra de Beda, o uso do Anno Domini se espalhou gradualmente pela Europa Ocidental, tornando-se amplamente difundido por volta do século IX, período em que cortes reais, como a de Carlos Magno, passaram a adotar essa contagem em documentos oficiais. Ainda assim, a padronização completa levou séculos adicionais, já que diferentes regiões europeias começavam o ano em datas distintas, como o Natal, a Anunciação ou a própria Páscoa, gerando variações locais na contagem. Mesmo entre historiadores medievais, sistemas antigos como os anos de reinado continuaram em uso paralelo ao Anno Domini por bastante tempo. Somente entre os séculos XII e XV o sistema se tornou dominante na maior parte dos registros históricos e administrativos da Europa cristã.
A criação da expressão “antes de Cristo”
Embora o Anno Domini já fosse amplamente utilizado desde o século IX, a expressão equivalente a “antes de Cristo” demorou consideravelmente mais para se consolidar como padrão historiográfico. O primeiro registro conhecido de uma fórmula próxima a essa aparece em 1474, na obra “Fasciculus Temporum”, escrita pelo monge cartuxo alemão Werner Rolevinck, que utilizou a expressão latina “anno an xpi nativitate” para identificar anos anteriores ao nascimento de Cristo. Esse tipo de notação ainda era pouco frequente entre historiadores da época, aparecendo de forma esporádica em obras de cronologia religiosa produzidas ao longo do século XV.
A consolidação definitiva da expressão “antes de Cristo” ocorreu em 1627, quando o jesuíta francês Denis Pétau, conhecido em latim como Dionysius Petavius, publicou a obra “Opus de Doctrina Temporum”. Nesse trabalho, Pétau popularizou o uso sistemático da expressão latina “ante Christum” para identificar anos anteriores ao nascimento de Jesus, complementando de forma definitiva o sistema criado por Dionísio, o Exíguo, mais de mil anos antes. A obra de Pétau foi reeditada diversas vezes ao longo do século XVII e posteriormente traduzida para outras línguas europeias, consolidando o par “antes de Cristo” e “depois de Cristo” como referência cronológica padrão entre historiadores europeus.
A cronologia de Joseph Scaliger e a base do trabalho de Pétau
O trabalho de Pétau não surgiu isoladamente: ele deu continuidade aos estudos cronológicos do erudito francês Joseph Justus Scaliger, autor da obra “De Emendatione Temporum”, publicada em 1583. Scaliger desenvolveu o chamado Período Juliano, um sistema que combinava diferentes ciclos astronômicos e calendáricos para permitir a conversão entre calendários antigos distintos, cobrindo quase cinco mil anos de história registrada. Pétau aproveitou essa base metodológica para construir uma cronologia universal mais ampla, unindo registros bíblicos, gregos e romanos em uma única linha temporal contínua. Essa síntese entre Scaliger e Pétau tornou-se, a partir do século XVII, o principal alicerce da cronologia histórica ocidental usada até os dias atuais.
Por que a divisão da hsitória continua em uso?
A adoção do sistema baseado no nascimento de Cristo não ocorreu de forma simultânea em toda a Europa: a Rússia, por exemplo, só passou a utilizar o Anno Domini no início do século XVIII, por determinação do czar Pedro, o Grande, substituindo o calendário bizantino, que contava os anos a partir da criação do mundo. Essa adoção tardia demonstra que, mesmo mil e duzentos anos após sua criação por Dionísio, o sistema ainda disputava espaço com calendários alternativos em diferentes regiões do mundo. Com o tempo, no entanto, o par “antes de Cristo” e “depois de Cristo” tornou-se referência dominante em quase todo o planeta, inclusive em países sem maioria cristã, adotado por razões práticas de padronização internacional.
Nas últimas décadas, historiadores, arqueólogos e instituições acadêmicas adotaram cada vez mais as siglas “EC” e “AEC”, equivalentes a “Era Comum” e “Antes da Era Comum”, como alternativa secular às expressões “depois de Cristo” e “antes de Cristo”. Essa mudança preserva exatamente a mesma numeração de anos estabelecida originalmente por Dionísio, o Exíguo, alterando apenas a terminologia para evitar associação direta com a fé cristã em contextos religiosamente diversos. A divisão histórica em torno de Jesus Cristo, portanto, permanece funcionalmente intacta desde o século VI, mesmo quando expressa por termos diferentes dos originais criados na Roma medieval. Esse sistema de contagem, hoje quase universal, ilustra como uma decisão religiosa tomada por um único monge em 525 moldou, de forma duradoura, a maneira como a humanidade organiza e registra sua própria história.
Uma curiosidade histórica pouco conhecida é que Dionísio, o Exíguo, batizou a si mesmo com o sobrenome “Exíguo”, que significa “o pequeno” ou “o insignificante” em latim, como demonstração de humildade cristã diante da grandiosidade da tarefa que realizava ao calcular os anos a partir do nascimento de Jesus, sem imaginar que seu sistema se tornaria, mais de mil e quinhentos anos depois, a referência cronológica mais usada em todo o mundo.