Imam Hussein, cujo nome completo era Husayn ibn Ali ibn Abi Talib, nasceu em Medina, na região do Hejaz, em 8 de janeiro de 626, correspondente a 3 de Sha’ban do ano 4 da Hégira. Era filho de Ali ibn Abi Talib, primo e genro do profeta Maomé, e de Fátima bint Muhammad, filha do próprio Maomé. Por essa dupla ligação familiar, Hussein é considerado neto direto do fundador do islamismo e uma das figuras centrais da Ahl al-Bayt, a família do Profeta. Ele morreu em 10 de outubro de 680, aos 54 anos, na planície de Karbala, no atual Iraque, decapitado por tropas do califa omíada Yazid I.
Hussein cresceu ao lado do irmão mais velho, Hasan ibn Ali, e ambos receberam de Maomé o título de “líderes da juventude do paraíso”, segundo tradições registradas em compilações de hadiths sunitas e xiitas. Após o assassinato de Ali em 661, os dois irmãos reconheceram, ainda que sob protesto, a autoridade de Muawiyah I, fundador do califado omíada. Hasan assumiu brevemente a liderança da comunidade muçulmana antes de firmar um acordo de paz com Muawiyah, cedendo o califado em troca de garantias que incluíam a manutenção da sucessão fora da linhagem omíada.
No islamismo xiita, Hussein é reverenciado como o terceiro imame, sucedendo o pai, Ali, e o irmão, Hasan. Essa posição confere a ele autoridade espiritual e política, segundo a doutrina xiita do imamato, que reconhece na descendência de Ali e Fátima os legítimos herdeiros da liderança da comunidade islâmica. Essa crença distingue o ramo xiita do sunismo, que privilegia o consenso da comunidade na escolha dos califas. A discordância sobre a sucessão de Maomé remonta ao ano 632 e permanece como uma das principais divisões historiográficas dentro do islamismo.
Por que Imam Hussein rompeu com o califa Yazid I?
Muawiyah I morreu em 680 e, contrariando o acordo firmado anos antes com Hasan, indicou o próprio filho, Yazid I, como sucessor no califado omíada. Hussein recusou-se a prestar juramento de lealdade a Yazid, por considerá-lo ilegítimo e contrário aos princípios de governo estabelecidos por Maomé. Diante da pressão do governador de Medina para que jurasse fidelidade, Hussein deixou a cidade em direção a Meca, no mês de Rajab de 60 da Hégira, correspondente a abril de 680. A recusa de Hussein tornou-se o estopim de uma disputa que definiria os rumos do califado omíada nos anos seguintes.
Em Meca, habitantes de Kufa, cidade do atual Iraque com forte presença de simpatizantes da família de Ali, enviaram cartas convidando Hussein a assumir a liderança local e a organizar resistência contra Yazid. Diante desses sinais favoráveis, Hussein partiu para Kufa, acompanhado de familiares e cerca de 72 companheiros, incluindo mulheres e crianças. Durante o trajeto, recebeu notícias da execução de aliados em Kufa pelo governador Ubayd Allah ibn Ziyad, que havia reprimido o movimento antes da chegada do imame. Mesmo assim, Hussein decidiu prosseguir viagem, permitindo que os membros do grupo menos dispostos a arriscar a vida se retirassem.
A Batalha de Karbala e a morte de Imam Hussein
A caravana de Hussein foi interceptada por tropas omíadas próximo à cidade de Karbala, às margens do rio Eufrates, em 2 de outubro de 680, correspondente a 2 de muharram de 61 da Hégira. Um contingente estimado entre 4.000 e 30.000 homens, sob comando de Umar ibn Sa’ad, cercou o pequeno grupo e cortou o acesso à água a partir de 7 de Muharram. As negociações fracassaram porque o governador Ubayd Allah ibn Ziyad exigiu a submissão incondicional de Hussein, condição que o imame rejeitou por considerá-la incompatível com sua posição de legítimo sucessor de Maomé. Historiadores como Wilferd Madelung descrevem esse impasse como o ponto de ruptura definitivo entre a facção alida e o poder omíada.
Em 10 de outubro de 680, dia de Ashura, décimo dia de Muharram, as tropas omíadas atacaram o acampamento de Hussein. Seus companheiros caíram em combate, um a um, na defesa do imame, incluindo parentes próximos, como o filho Ali al-Akbar e o irmão Abbas ibn Ali. Entre as vítimas também estava o filho mais novo de Hussein, Ali al-Asghar, ainda bebê, morto por uma flecha, segundo a tradição xiita. Hussein foi o último a ser morto, decapitado em combate, encerrando a resistência do grupo naquele mesmo dia.
O destino do corpo e da cabeça de Imam Hussein
Após a batalha, a cabeça de Hussein foi enviada a Damasco para ser apresentada ao califa Yazid I, enquanto o corpo permaneceu em Karbala. Segundo a tradição xiita, o sepultamento do corpo coube ao único filho sobrevivente da batalha, Ali Zayn al-Abidin, também chamado Ali al-Sajjad, que se tornaria o quarto imame xiita. Relatos indicam que a cabeça foi posteriormente devolvida e reunida ao corpo em Karbala, cerca de quarenta dias depois, data que os xiitas comemoram como Arbaʽin. Fontes historiográficas divergem sobre o destino final da cabeça, havendo narrativas que apontam Damasco, Cairo ou Ascalon como locais alternativos de sepultamento.
O túmulo de Imam Hussein e seu legado para o xiismo
O túmulo de Imam Hussein está localizado na cidade de Karbala, no centro do Iraque, onde foi erguido o Santuário do Imame Hussein sobre o local da sepultura. Em 850, o califa abássida al-Mutawakkil ordenou a destruição do santuário para impedir as peregrinações xiitas ao local, mas a prática foi retomada nos séculos seguintes e o complexo foi reconstruído. Atualmente, o santuário recebe milhões de peregrinos anualmente, sobretudo durante o Ashura e o Arbaʽin, quando xiitas de diversos países caminham até Karbala em uma das maiores concentrações religiosas do mundo. A cidade tornou-se, ao lado de Najaf, um dos principais centros de peregrinação e estudo religioso xiita.
A morte de Hussein em Karbala transformou-se em símbolo central da identidade xiita, associada à resistência contra a opressão e à fidelidade aos princípios islâmicos originais, segundo a interpretação dessa vertente do islamismo. O episódio também teve consequências políticas concretas: a indignação popular provocada pela morte do neto de Maomé alimentou revoltas contra os omíadas nas décadas seguintes e contribuiu para o enfraquecimento da dinastia, derrubada em 750 pela Revolução Abássida. Um hadith atribuído a Maomé e citado por diversas tradições islâmicas resume o vínculo entre avô e neto na frase “Hussein é de mim, e eu sou de Hussein”. Essa conexão direta com o Profeta é o principal motivo pelo qual Imam Hussein permanece, mais de treze séculos depois, uma referência de fé para xiitas em países como Irã, Iraque, Líbano, Bahrein e Paquistão.
Uma curiosidade histórica pouco conhecida envolve o cavalo de Hussein, chamado Dhu al-Janah, que, segundo relatos tradicionais transmitidos por historiadores muçulmanos, teria retornado sozinho ao acampamento após a morte do imame, ferido e sem seu cavaleiro, tornando-se um dos símbolos mais reproduzidos na iconografia religiosa xiita sobre a Batalha de Karbala.