Zumbi: a história do líder dos Palmares

Zumbi nasceu por volta de 1655, no atual estado de Alagoas, e se tornou o mais conhecido líder do quilombo dos Palmares

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Zumbi dos Palmares nasceu por volta de 1655 dentro do Quilombo dos Palmares, região da Serra da Barriga, na Capitania de Pernambuco, território que hoje corresponde ao município de União dos Palmares, em Alagoas. Ele se tornou o último grande líder militar do quilombo, comandando a resistência contra as forças coloniais portuguesas até morrer em combate em 20 de novembro de 1695. Segundo o historiador Décio Freitas (1922-2004), Zumbi era tratado como sobrinho de Ganga Zumba, o chefe supremo de Palmares entre 1670 e 1678, embora documentos indiquem que esse parentesco fosse simbólico, resultado de uma adoção política comum tanto em reinos da África Ocidental quanto nas monarquias europeias do período. A liderança de Zumbi marcou a fase final e mais combativa de Palmares, quando o quilombo já resistia havia décadas às expedições militares enviadas pelo governo de Pernambuco.

O quilombo dos Palmares surgiu no início do século XVII na Serra da Barriga como refúgio de africanos escravizados fugidos dos engenhos de açúcar do litoral nordestino. Por volta de 1630, o quilombo já estava formado e consolidado, período em que Pernambuco vivia sob domínio holandês, iniciado com a chegada de Maurício de Nassau em 1637. Palmares não era um assentamento único, mas uma confederação de diversos mocambos, aldeias fortificadas interligadas, que chegou a abrigar, segundo estimativas historiográficas, até 30 mil habitantes em seu auge, embora esse número não seja consenso entre pesquisadores. O termo “mocambo” designava esses povoados individuais, enquanto “quilombo” se referia à confederação política e militar formada pela união deles sob uma liderança comum.

Zumbi foi capturado ainda criança, por volta dos seis anos de idade, durante uma expedição contra Palmares organizada pelo governo de Pernambuco após a expulsão dos holandeses, em 1645. Entregue ao padre Antônio Melo, no distrito de Porto Calvo, recebeu o nome cristão de Francisco, foi batizado segundo os ritos católicos e aprendeu a ler e escrever em português e latim. Aos 15 anos de idade, em 1670, Zumbi fugiu da casa paroquial e retornou ao quilombo dos Palmares, onde passou a se destacar como estrategista militar já no início da década seguinte. Em 1675, durante uma invasão liderada pelo sargento-mor Manuel Lopes, Zumbi participou da defesa de Palmares, foi baleado duas vezes e consolidou sua reputação de guerreiro entre os quilombolas.

Ganga Zumba e o primeiro tratado de paz com os portugueses

Ganga Zumba governou a Confederação de Palmares entre 1670 e 1678, unificando os diferentes mocambos sob um comando militar único. Segundo a tradição historiográfica, ele era filho da princesa Aqualtune, ligada à dinastia Nlanza do Reino do Congo, região da África Central de onde parte significativa da população escravizada em Palmares tinha origem. Em 1677, o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, enviou o militar Fernão Carrilho para atacar o mocambo governado por Aqualtune, o que enfraqueceu a posição de Ganga Zumba e o levou a considerar um acordo de paz com as autoridades coloniais. Em 1678, esse acordo foi firmado: os portugueses ofereciam um território seguro, o vale do Cacau, e a liberdade formal para os moradores do quilombo, em troca do fim das hostilidades contra a colônia.

O tratado de 1678 dividiu a liderança de Palmares porque a liberdade prometida contemplava apenas os quilombolas já estabelecidos, excluindo escravizados que fugissem para o quilombo depois do acordo. Zumbi, então um dos principais comandantes militares de Palmares, rejeitou os termos do tratado e passou a liderar os mocambos que recusavam a paz com os portugueses, entendendo que a liberdade negociada não representava a libertação de todo o povo africano escravizado. Historiadores divergem sobre a morte de Ganga Zumba, ocorrida logo após o fracasso do acordo: alguns apontam suicídio, outros sustentam a hipótese de envenenamento por opositores internos ao pacto de paz. Com a morte de Ganga Zumba, Zumbi assumiu a liderança de Palmares por volta de 1678, tornando-se o novo comandante da resistência contra a colonização portuguesa.

Zumbi assume o comando de Palmares

Sob a liderança de Zumbi, Palmares intensificou os ataques contra fazendas e engenhos da região, chegando a lançar incursões até as proximidades de Recife, capital administrativa de Pernambuco. As autoridades coloniais, incapazes de conter o quilombo com as tropas regulares, contrataram os bandeirantes paulistas Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo para comandar uma ofensiva definitiva contra Palmares. Em 1691, Domingos Jorge Velho, à frente de mais de mil homens, atacou o Mocambo do Macaco, principal núcleo político e militar do quilombo, onde Zumbi concentrava a resistência armada. Após sucessivos combates ao longo dos três anos seguintes, a ofensiva culminou na destruição do Mocambo do Macaco em 6 de fevereiro de 1694, data que marcou o fim da capital de Palmares após décadas de conflito com o governo colonial.

Zumbi ficou ferido durante a destruição do Mocambo do Macaco, mas conseguiu escapar e continuou a resistência por quase dois anos, refugiado em regiões próximas à Serra da Barriga e à Serra Dois Irmãos, no atual município de Viçosa, em Alagoas. Um prisioneiro capturado pelas tropas coloniais, segundo o relato mais difundido pela tradição histórica, revelou o esconderijo de Zumbi em troca da própria liberdade. Em 20 de novembro de 1695, tropas portuguesas localizaram e mataram Zumbi dos Palmares, decapitando seu corpo e enviando a cabeça para Recife, onde o governador de Pernambuco ordenou a exposição pública como prova da morte do líder e advertência a futuras rebeliões. Esse episódio encerrou formalmente a resistência armada do quilombo dos Palmares, embora relatos historiográficos apontem a persistência de focos de resistência quilombola na região por anos após 1695.

Dandara e a dinâmica social do quilombo dos Palmares

Dandara é descrita pela tradição oral e por parte da historiografia como companheira de Zumbi e liderança feminina de Palmares, participando ativamente das batalhas contra as tropas coloniais. A Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana define Dandara como personagem lendária, cuja existência histórica documentada permanece incerta, já que raras fontes primárias mencionam diretamente sua trajetória. Apesar dessa incerteza historiográfica, em 24 de abril de 2019 foi sancionada a Lei 13.816, que inscreveu o nome de Dandara dos Palmares no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, reconhecendo seu papel simbólico na luta quilombola. Relatos tradicionais indicam que Dandara teria morrido durante a destruição de Palmares em 1694, recusando-se a retornar à condição de escravizada.

A organização interna de Palmares seguia um modelo político híbrido, que combinava características de reinos da África Central com adaptações à realidade colonial brasileira. Apesar de estruturado como um reino sob liderança de um chefe supremo, o quilombo tomava decisões relevantes por meio de um colegiado de líderes dos diferentes mocambos, prática que garantia certa autonomia política a cada povoado da confederação. A economia interna se baseava na agricultura de subsistência, com cultivo de mandioca, milho e outros alimentos, complementada por um comércio ativo com fazendeiros e comerciantes da região, que trocavam produtos com os quilombolas apesar da hostilidade oficial da colônia. Essa relação comercial ambígua entre Palmares e a sociedade colonial ao redor demonstra que o quilombo funcionava como um sistema social e econômico relativamente autônomo, e não apenas como um refúgio isolado.

A capoeira e a cultura de resistência em Palmares

A capoeira, arte marcial que combina golpes, esquivas e elementos rítmicos de origem africana, desenvolveu-se nesse contexto de resistência quilombola, servindo tanto como treinamento de combate quanto como expressão cultural entre os africanos escravizados e seus descendentes livres. Praticada em rodas, formato circular que também organizava fisicamente muitos mocambos de Palmares, a capoeira permitia disfarçar técnicas de luta sob a aparência de dança, driblando a vigilância de senhores e autoridades coloniais. Zumbi, segundo a tradição histórica, teria se destacado como praticante e mestre dessa arte marcial ainda jovem, período em que consolidou parte de sua reputação como guerreiro entre os habitantes do quilombo.

A morte de Zumbi dos Palmares em 20 de novembro de 1695 transformou essa data em um marco da luta antirracista no Brasil. O Grupo Palmares, formado por jovens negros de Porto Alegre em 1971, propôs originalmente o 20 de novembro como alternativa ao 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel em 1888. A data recebeu reconhecimento oficial como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra pela Lei 12.519, sancionada pela então presidente Dilma Rousseff em 10 de novembro de 2011, e se tornou feriado nacional obrigatório apenas em 21 de dezembro de 2023, com a sanção da Lei 14.759 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A trajetória de Zumbi dos Palmares permanece, dessa forma, como uma das referências históricas mais estudadas sobre resistência à escravidão na história do Brasil colonial.

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