Dona Maria I: o fardo psicológico da rainha injustiçada

Primeira monarca reinante de Portugal, ela promoveu avanços científicos e econômicos antes de sucumbir a uma profunda melancolia

Maria I, Rainha de Portugal (Giuseppe Troni) - Domínio Público

A rainha Dona Maria I assumiu o trono de Portugal em 24 de maio de 1777, na cidade de Lisboa, tornando-se a primeira mulher a governar o império português de forma soberana. A historiografia tradicional frequentemente reduziu sua biografia ao apelido pejorativo de “a louca”, ignorando suas realizações administrativas reais. Durante a primeira década de seu reinado, a monarca demonstrou notável capacidade de gestão estatal frente aos desafios da época. Ela equilibrou as contas públicas, impulsionou a economia e restaurou a paz diplomática com a vizinha Espanha.

Logo após a sua aclamação, a governante iniciou o período conhecido como “Viradeira”, afastando o poderoso Marquês de Pombal do governo central. Essa decisão política permitiu a libertação de centenas de presos políticos encarcerados durante o regime pombalino absolutista. Além da anistia, a monarca promoveu uma ampla reforma social e educacional no reino ibérico. Ela fundou a Real Casa Pia de Lisboa em 1780, destinada a amparar órfãos, e estabeleceu a Academia Real das Ciências em 1779.

O estigma associado à sua saúde mental obscurece o fato de que a deterioração clínica ocorreu apenas na fase final de sua vida. Especialistas em história da psiquiatria contemporânea avaliam que a rainha sofreu de transtorno depressivo maior, acompanhado por sintomas psicóticos agudos. Essa condição psiquiátrica grave resultou diretamente de uma série de lutos não processados em um curto intervalo de tempo. A pressão inerente à coroa e o fervoroso temor religioso agravaram severamente o quadro clínico da monarca.

A visão estratégica de Dona Maria I no trono português

O governo mariano estabeleceu marcos fundamentais para a diplomacia e a economia do império colonial português. O Tratado de Santo Ildefonso, assinado logo no seu primeiro ano de reinado, encerrou disputas territoriais violentas na América do Sul. A soberana também impulsionou o comércio internacional ao firmar tratados bilaterais com a Rússia em 1787 e com a Prússia em 1789. Essas articulações diplomáticas garantiram a neutralidade portuguesa em um cenário europeu de crescente instabilidade militar.

A administração pública, sob o seu comando, priorizou o desenvolvimento científico e a instrução técnica de seus súditos. A rainha financiou expedições filosóficas para o Brasil, Angola e Moçambique, mapeando recursos naturais e populações locais com rigor acadêmico. Ela também inaugurou a Real Biblioteca Pública de Lisboa, democratizando o acesso a milhares de volumes históricos e literários. Essas iniciativas institucionais comprovam a lucidez intelectual da monarca antes do surgimento dos seus problemas emocionais agudos.

O colapso emocional diante das perdas sucessivas

O equilíbrio psicológico da governante começou a ruir no ano de 1786, quando ocorreu a morte de seu marido e tio, o rei consorte Dom Pedro III. A perda do principal conselheiro e companheiro de vida gerou um impacto emocional devastador na estabilidade da soberana. Logo em seguida, a monarquia portuguesa enfrentou outra tragédia familiar catastrófica com o falecimento do príncipe herdeiro, Dom José, vítima de varíola em 1788. Esses eventos fúnebres consecutivos destruíram a resistência mental da rainha, que passou a apresentar sinais claros de melancolia profunda.

A conjuntura traumática piorou substancialmente com a morte do Frei Inácio de São Caetano, o confessor pessoal e confidente da monarca. Sem o amparo espiritual do religioso, a governante desenvolveu delírios de culpa extrema e um terror escatológico incontrolável. Relatos médicos da corte documentam que a paciente afirmava escutar os gritos do próprio pai, Dom José I, queimando nas chamas do inferno. O peso das responsabilidades de Estado converteu o luto prolongado em um colapso psiquiátrico total e irreversível.

O declínio clínico e os tratamentos psiquiátricos

A partir de 1792, a rainha perdeu completamente a capacidade cognitiva necessária para administrar as engrenagens do império português. Os ataques de histeria tornaram-se públicos, com os cortesãos registrando gritos lancinantes ecoando pelos corredores do Palácio Nacional de Queluz. O príncipe Dom João assumiu a gestão do Estado interinamente, formalizando a sua posição como príncipe regente apenas em 1799. O isolamento forçado nos aposentos reais exacerbou a sensação de confinamento e o pânico constante da paciente.

A coroa portuguesa contratou o médico britânico Francis Willis, famoso por tratar os surtos do rei George III da Inglaterra, para examinar a monarca. O psiquiatra desembarcou em Lisboa e aplicou métodos terapêuticos agressivos baseados em intimidação física e purgação do organismo. Os tratamentos incluíam o uso de camisas de força, banhos gelados e o isolamento total da família real. O rigor excessivo e a completa falta de empatia do médico agravaram os delírios da paciente, levando ao encerramento precoce da intervenção britânica.

Os últimos anos no Brasil e a morte de Dona Maria I

A invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão Bonaparte em 1807 forçou a transferência imediata da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. A monarca realizou a longa travessia transatlântica, estritamente confinada em seus aposentos no navio Príncipe Real. Na capital fluminense, ela viveu reclusa no Convento do Carmo, recebendo cuidados médicos paliativos enquanto o príncipe regente governava o império. Os habitantes locais ocasionalmente escutavam as lamentações da soberana durante as suas raras aparições nas janelas do edifício religioso.

O falecimento de Dona Maria I ocorreu no dia 20 de março de 1816, aos oitenta e um anos de idade, na cidade do Rio de Janeiro. A monarca recebeu honras fúnebres extensas e teve seu corpo inicialmente sepultado nas dependências do Convento da Ajuda. Posteriormente, durante o translado dos seus restos mortais para a Basílica da Estrela em Lisboa, as autoridades realizaram um procedimento incomum e revelador. Os órgãos internos da rainha foram retirados e permaneceram no Brasil, encontrando-se até os dias atuais preservados em uma urna no Convento de Santo Antônio, no centro da metrópole carioca.

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